Autora Sabrinah Giampá
Autora Sabrinah GiampáFoto: Daniel Zago/Divulgação

Nada como um dia atrás do outro e uma escova, chapinha ou progressiva no meio da agenda para complicar a rotina de muitas mulheres. Ainda bem que elas vêm conquistando a carta de alforria para usarem o tipo de cabelo que quiserem. Mas a liberdade capilar ainda está longe de ser unanimidade. A ditadura do liso impera, e os crespos, cacheados e até ondulados são tratados como feras a serem domesticadas. Daí a importância da militância que a blogueira, cabeleireira e escritora paulista Sabrinah Giampá, 37 anos, vem praticando, em causa própria e de outras mulheres. Ela conta boa parte dessa história na obra “O Livro dos Cachos - Aprenda a amar e cuidar do seu cabelo como ele é” (Editora Paralela, 144 páginas, R$ 39,90).

Espécie de auto-ajuda divertida, didático, repleto de depoimentos de leitoras do blog (cachosefatos.com.br), clientes do salão, e até da própria autora sobre o que já ouviram de amigos e familiares a respeito dos seus cabelos, o livro revela o racismo e o machismo existentes na nossa sociedade. Qualquer cabelo que não se enquadre no padrão “submisso” imposto pelos editoriais de moda e pela indústria de cosméticos compromete até o emprego. Há empresas que chegam a pedir às funcionárias que façam escova alegando que “não é profissional” ostentar muito volume no ambiente de trabalho. Como se cacheado ou crespo fosse sinônimo de desleixo.

A indústria da beleza também tem sua parcela de culpa na perpetuação dessa cultura do liso. “São os produtos para cabelos danificados pela química dos alisamentos que sustentam essa indústria”, declara Sabrinah, que também é jornalista e começou a escrever o blog em 2012 com intuitos colaborativos, para uma mulher dar força à outra. “Minha ideia é resgatar a autoestima feminina levando uma mensagem de empoderamento. Acabei virando cabeleireira por causa do blog”, conta Sabrinah. Repleto de ilustrações, a obra também traz dicas preciosas sobre cuidados com as madeixas e como fazer para se livrar da química da escova progressiva - que a autora chama de “possessiva” -, e ter de volta os cabelos naturais.

É claro que se estamos falando de liberdade e quebra de preconceito, não há repressão às escolhas de cada uma em mudar o visual e ostentar o cabelo que quiser. Mas que as madeixas sofrem um bocado para ficarem lambidos, lá isso é verdade. “Existem profissionais que chamam alisamento de tratamento. Se fosse tratamento, não deixaria aquele cheiro forte, os olhos ardendo e os cabelos ressecados e sem vida”, denuncia.

Mas se livrar dessa escravidão não é tarefa fácil e exige empenho das mulheres em quebrar outra barreira - a dos cabelos longos. Para retirar totalmente a química, é preciso deixá-los bem curtinhos, o que a maioria das mulheres reluta em fazer. Nos Estados Unidos, essa atitude de cortar todo o cabelo alisado foi chamada de Big Chop (grande corte). “Quando usamos fios bem curtos, as pessoas perguntam se estamos com câncer ou se mudamos nossa sexualidade”, revela a autora. E ainda existe o machismo com seu mal costume de tratar mulheres como objetos sexuais e exigirem cabelos longos.

As escolas de cabeleireiros também não colaboram no sentido de oferecer designs legais para os fios enroladinhos. “No Brasil não existe nem boneca com cabelo crespo para que o profissional treine. Por isso é comum que muitos cortem os cacheados da mesma forma que fazem com os lisos, o que acaba resultando no efeito ‘abajur’ (corte reto que gera raiz baixa e pontas cheias). O ideal é cortar o cabelo seco, para ver como ele é de fato“, ensina Sabrinah, que comprou uma boneca crespa no exterior e treinou em casa.

O sucesso do Garagem dos Cachos, o salão de Sabrinah, não é creditado, portanto, à tendência dos cacheados e volumosos nas passarelas mundo afora. Até porque, para ela, não há como inserir a cabeleira nessa dança efêmera da moda e, mais importante ainda, as madeixas são quase como uma digital - cada uma tem a sua e é diferente da outra. “As mulheres estão assumindo os cachos também porque estão exaustas”, decreta Sabrinah.

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