Obra exposta na mostra Queermuseu
Obra exposta na mostra QueermuseuFoto: divulgação

O cancelamento da exposição "Queermuseu" - Cartografias da Diferença na Arte Brasileira", do Santander Cultural, criticado pela classe artística e sociedade pela censura a qual foi imposta, independentemente do mérito da mostra, levantou discussão sobre o crescente discurso conservador que tem tomado conta da sociedade atual e ganhado os alto-falantes.  

O banco por trás da instituição sediada em Porto Alegre cedeu a mensagens de redes sociais e grupos conservadores como o Movimento Brasil Livre (MBL), que prega ideias retrógradas nos campos da política, sociedade, religião e cultura, mais especificamente a arte.

O MBL lembra os tempos do nazismo, quando o ditador Adolf Hitler queimou quadros cubistas por exibir formas humanas que considerou 'deformadas' e, portanto, impuras, como fez com judeus, negros, homossexuais, entre outras minorias.  

Possivelmente em retaliação às acusações de apologia à pedofilia, zoofilia e atentado à religião e à moral feitas pela MBL, a página do grupo na internet foi atacada e ficou 24 horas fora do ar. Só para lembrar, a História da Arte mostra que o sexo e as expressões religiosas são considerados obras de arte há muito tempo. 

Um dos artistas visuais que faziam parte da mostra, o paulista radicado em Fortaleza Yuri Firmeza ressaltou justamente a onda conservadora pela qual o mundo contemporâneo vem passando. 

"A atitude do banco retrata a subordinação do campo cultural a uma ordem econômica vinculada a um discurso político de falsa moral cristã (a bancada evangélica no Congresso), 'tolhedor', com palavras de ordem e ódio", analisa Yuri. 

Para ele o momento político em que vivemos tem tornado esses grupos conservadores mais visíveis. "É assustador porque essa tendência retrógrada pode chegar ao campo educacional, cultural e econômico".

Já a curadora independente pernambucana Cristiana Tejo defende que a censura é inadmissível depois do que a humanidade viveu até final do século 20. "Discutimos há quase duas décadas a questão do uso de dinheiro público para fins de propaganda de bancos públicos e privados", diz ela. 

"Entretanto, parece que o problema principal na atualidade é a tática de guerra que um grupo conservador e fascista tem assumido para censurar não apenas obras de arte, mas um país inteiro, conseguindo derrubar a democracia brasileira", declara.

Cristiana levanta, inclusive, a questão de a exposição neutralizar a pauta queer e de ter sido criticada pelo público ao qual deveria ser direcionada. "Que loucura esta época em que temos que lutar por uma exposição ruim".

 

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"Tanto os artistas e pensadores que lidam com a questão queer quanto os que estão envolvidos na discussão do racismo estão partindo de questões estruturais e de lugares de fala, e questionam a ilustração de um tema ou o uso "higienizado" de conceitos que são criados a partir de experiências situadas. O mais apropriado seria ele nomear a mostra pelo subtítulo", sugere Cristiana.

Para Yuri, acima de problemas curatoriais, o curador Gaudêncio Fidélis se debruçou durante muito tempo nessa exposição, que se fazia urgente.

O artista visual Lourival Cuquinha completa que o banco se posicionou da pior forma possível, pois a mostra era financiada com dinheiro público, de lei de incentivo à cultura. "E foi censurada por uma milícia conservadora. O banco não pode censurar o que não é deles, nem a MBL. O movimento nazista na Alemanha fez isso também. Esse golpe chocou o ovo da serpente com grana estrangeira e partidos reacionários brasileiros, e agora a serpente está viva e com muitos seguidores", afirma Cuquinha.

A mostra, que deveria ficar mais um mês em cartaz, possui obras que discutem a diversidade sexual em 270 trabalhos de 85 artistas. 

Em nota enviada à imprensa, o banco declarou que "a mostra foi considerada ofensiva por algumas pessoas e grupos". Em outro trecho, a mensagem ainda se esquiva de envolvimento curatorial alegando que "não faz parte de nossa visão de mundo, nem dos valores que pregamos".

 

 

Obra exposta na mostra Queermuseu
Obra exposta na mostra QueermuseuFoto: divulgação
Exposição Queermuseu
Exposição QueermuseuFoto: Divulgação
Obra da exposição Queermuseu
Obra da exposição QueermuseuFoto: Divulgação

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