“Couro de gato”, da editora Veneta, apresenta personagens e cenários através da técnica da xilogravura
“Couro de gato”, da editora Veneta, apresenta personagens e cenários através da técnica da xilogravuraFoto: Divulgação

 A história do samba e o processo de construção cultural e urbano do Rio de Janeiro motivaram o roteirista Carlos Patati e o ilustrador João Sánchez para a criação de "Couro de gato - uma história do samba".

A história em quadrinhos mistura eventos históricos, personagens reais e doses de ficção para compor um delicado e poderoso testemunho sobre não apenas a história do gênero musical, mas também informações sobre a evolução social brasileira no século 20. 

A HQ nasceu das percepções de Carlos sobre o potencial das histórias em quadrinhos e seu interesse particular pela história do samba. "Como qualquer outra mídia narrativa, guardando respeito às suas características específicas, as HQs servem para contar uma pletora de histórias, mas sempre achei que seu potencial didático foi singularmente mal aproveitado no Brasil. Sempre procurei temas que me permitissem demonstrar isso", diz Carlos.

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"Lembro-me de ter comentado, mais de uma vez, que as HQs servem para contar histórias de gente sem superpoderes. Numa das vezes em que repeti essa ideia, uma amiga querida, a cantora Mathilda Kovacs, me pôs nas mãos a biografia de Noel Rosa, de João Máximo e Carlos Didier. Esse livro me deu uma porrada no cerebelo. Fiquei indignado de o mundo do samba permanecer tão desconhecido!", lembra o autor.


"Muito tempo depois, quando eu e o João Sánchez começamos a conversar sobre colaborar, ele disse que tinha vontade de fazer em Xilogravura. Tomei um susto. Que tema mereceria o esforço que trabalhar em xilo criaria? Voltei a esse livro, pesquisei outros, e o argumento foi tomando forma", detalha.

As imagens parecem talhadas nas páginas, apresentando personagens e cenários através da técnica da xilogravura. "O projeto foi iniciado em 2007, quando me formava na faculdade de gravura da UFRJ. A xilo sempre foi meu meio de expressão preferido", diz João Sánchez.

"O projeto já nasceu em xilogravura. Teve gente que associou com o cordel nordestino, que tem uma grande força gráfica na cultura nacional, mas acho que tem mais a ver com a gravura expressionista, com Goeld, Segal, Abramo e outros gravadores. Tudo isso misturado com o pop dos quadrinhos deu um caldo legal", ressalta.

Detalhe da capa da HQ 'Couro de gato'

Detalhe da capa da HQ 'Couro de gato' - Crédito: Veneta/Divulgação


Ficção

Apesar de usar personagens importantes na história cultural brasileira, recorrendo a artistas como Noel Rosa, Ismael Silva e Cartola, e fazer referências a fatos documentados do Brasil dos séculos 19 e 20, "Couro de gato" é essencialmente uma narrativa ficcional.

Quem guia a HQ é Camunguelo: é através das ações do músico fictício que a HQ se abre para diferentes entendimentos e emoções sobre a construção gradual do Rio de Janeiro, seu desenho urbano e eloquência cultural.

"O livro é e não é baseado em fatos reais", sugere Carlos. "É, porque se alimenta de diversos dados históricos, recombinados. O livro criou a oportunidade de uma ficção acerca das coisas que a gente não tem condição exata de saber, mas tem como imaginar. O morro foi o primeiro lugar, por exemplo, em que se vendeu sorvete, no RJ. E eu aposto que, na última vez em que fizeram um samba lá em cima, alguém se lembrou disso, mas não posso provar. Então, a HQ inclui ficção e não ficção", ressalta.

Serviço:
"Couro de gato - uma história do samba", de Carlos Patati e o João Sánchez
Editora Veneta, 144 páginas, R$ 54,90

 

 

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