Lilia Schwarz, historiadora
Lilia Schwarz, historiadoraFoto: Renato Parada/Companhia das Letras/Divulgação

A trajetória de Lima Barreto (1881-1922), as fronteiras entre sua vida e obra, a importância de sua literatura e a amplitude de seu legado são assuntos do debate sobre o escritor carioca, que ocorre nesta segunda-feira (9), na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), às 16h, no auditório da Editora Universitária.

Participam Eliane Veras Soares, Serge Aristeu Portela Júnior e a historiadora Lilia Schwarcz - que ontem participou da Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, que, neste ano, presta homenagem a Lima Barreto.

Entre os temas do encontro está o livro "Lima Barreto - Triste Visionário", de Lilia Schwarcz. "O título propositadamente mistura vida e literatura", diz a autora.

"Triste é um termo que aparece muitas vezes na obra de Lima Barreto, não só em 'Triste Fim de Policarpo Quaresma', mas em inúmeras crônicas. Triste é uma pessoa desiludida, desencantada, mas é também uma pessoa que insiste. Encontro no termo uma ambiguidade que me parece própria dele e da sua biografia", explica.

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"Visionário é um termo retirado de 'Triste Fim...'. Floriano Peixoto, em um diálogo ríspido com Policarpo Quaresma, diz 'Policarpo, tu és um visionário'. Ou seja, uma pessoa de visão, que planeja futuro, que gosta de programar, meditar sobre o porvir, mas na citação que Floriano faz, a gente vê que não é elogio, é próximo a 'louco'. Esses termos são ambivalentes e se aproximam", detalha a autora.

Pesquisas
O livro é resultado de pesquisas, leituras e investigações da autora. "Começo o livro falando de quando fui descobrir a casa onde Lima Barreto teria morado. Fui a esse lugar na Ilha do Governador achando que estava fazendo uma imensa descoberta.

Não só essa casa fica hoje numa base da Aeronáutica, como o guarda que, a princípio, não me deixou entrar disse que todos sabiam que era a casa do Lima Barreto, assim como a tenente que me recebeu, que fazia doutorado e estudava a casa de Lima Barreto", lembra Lilia.

"Meu processo de pesquisa foi de falha e avanço. Ele não é propriamente um autor desconhecido, seus livros são excelentes, e há teses, dissertações e artigos. É possível dizer que Lima Barreto é um autor mais estudado do que efetivamente lido", sugere Lilia.

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"A pesquisa, escrevendo o livro, durou 10 anos, mas eu já fazia pesquisa há muito tempo, dou curso há 30 anos na USP e nesse curso sempre o incluo. Recorri a todas as instituições que pude, documentos de jornais, pesquisas em arquivos pessoais", detalha.

Policarpo
Na produção literária de Lima Barreto, que se expandiu para romances, contos e crônicas, "Triste Fim de Policarpo Quaresma" é sua obra mais conhecida. "É um livro sobre nacionalismo, problema que vivenciamos tão de perto agora. Os nacionalismos andam tão radicais", diz Lilia.

"Lima Barreto produz esse personagem ficcional maravilhoso, Policarpo Quaresma, que quis instituir o Tupi-Guarani, que se reinventou muitas vezes e acabou preso e desiludido. Na minha opinião, Policarpo é pautado na figura de João Henriques, o pai de Lima Barreto", sugere.

Trajetória
Embora hoje seja lembrado como um dos grandes autores brasileiros, Lima Barreto não teve sua obra bem recebida na época de lançamento. "Ele teve apenas um livro publicado por uma editora profissional, que foi Gonzaga de Sá, do Monteiro Lobato, e mesmo assim não teve sucesso", diz Lilia. "Foi um autor que conviveu com contrariedades, preconceito, descriminação, que passou a beber muito cedo, e morreu lutando, aos 41 anos de idade", ressalta.

"Ele tratou na sua literatura temas muito importantes, como a corrupção, feminicídio. Era um intelectual público, que são raros no Brasil. Foi também jornalista, funcionário público, escrevia crônicas, colunas, deixou uma literatura epistolar muito importante. Enfim, não há um só Lima Barreto da literatura que pode ser encontrado nos seus belíssimos romances e contos, mas há esse Lima Barreto impactado com seu momento também", destaca.

Serviço:
Debate fala sobre Lima Barreto
Nesta segunda-feira (9), às 16h
Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) - Auditório da Editora Universitária (Rua Acadêmico Hélio Ramos - entrada próxima ao terminal de ônibus)

"Lima Barreto - Triste Visionário", de Lilia Schwarcz
Companhia das Letras, 648 páginas
Preço: R$ 69,90

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