Luli Penna
Luli PennaFoto: Reprodução

Quase não há texto. A história em quadrinhos contata por Luli Penna é muito mais um convite ao olhar, a coisas que poderiam passar desapercebidas e que podem ser completadas de várias formas de acordo o próprio leitor. É aconselhável reler, já que a velocidade com que chegamos ao final pode ter deixado algo passar ao largo. Não estranhe se a primeira impressão for: “Não acredito que acabou”.

“Sem Dó”, o primeiro HQ da ilustradora bebe na fonte de memórias de família. “Eu pensava em contar feitos do meu avô e do meu tio-avô, que eram arquitetos e fizeram várias coisas pela cidade [São Paulo], mas me deparei com a história das irmãs deles e mudei tudo”, conta Luli. Nesse momento, ela tinha a outra história quase terminada. "Decidi deixar para lá. Quis contar a história delas", complementa. A isso se justifica o longo tempo de produção, pois foram sete anos desde que a artista traçou o primeiro rabisco até a publicação do livro neste mês.

A narrativa se passa na cidade de São Paulo dos anos 1920. É uma história de amor dedicada a todas as mulheres. “Dediquei a várias mulheres da minha família, porque acho que essa história fala muito da gente. Da liberdade sexual, da diferença de tratamento que ainda enfrentamos. De uma mulher que trabalha fora, outra que quer, mas não pode, ou pode mas não quer... Mulheres que querem ter filhos. Mulheres que não querem ter filhos - porque todas as escolhas marcam demais, definem, e não nos deixam esquecê-las”, diz a autora de 52 anos.

Sem dó - de Luli Penna




Na narrativa, entre as paisagens da avenida Paulista de quase um século atrás, há também notícias de jornais, revistas, e todo um misto de entretexto que ajuda a situar o leitor. A HQ não foi colorida, o que reforça a sensação de que poderia virar um curta-metragem no estilo do cinema mudo. “Criei a narrativa sendo contada pela Pilar, que lembra os acontecimentos à medida em que pega em cartas e fotos guardadas numa caixinha de biscoitos”, diz Luli, para dar algumas pistas e auxiliar quem a lê. Todavia, a margem deixada para a imaginação é sentida de forma positiva. “Minha família não lembrava de muitos detalhes, então adaptei alguns fatos e acontecimentos, até para fazer sentido”, acrescenta a quadrinista. Ao leitor, é dada a mesma liberdade diante dessa história de sutilezas.

Serviço:
"Sem Dó", de Luli Penna
Editora Todavia
Preço: R$ 64,90 e 39,50 (e-book)
192 páginas

 

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