Diversidade e elementos da cultura pernambucana marcam trabalhos da edição na cidade
Diversidade e elementos da cultura pernambucana marcam trabalhos da edição na cidadeFoto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco

Diversidade é o sentimento que corre a mente de quem vê as vaquinhas recifenses da Cow Parade Recife, que vão marcar as ruas da cidade a partir de 26 de outubro, em uma espécie de galeria a céu aberto.

O evento - que corre o mundo há 18 anos, com participação de mais de 10 mil artistas - chegou ao Brasil em 2005, em São Paulo, e traz consigo uma grande referência na arte pop atual, pretendendo explorar, na capital pernambucana, as possibilidades históricas e culturais presentes no imaginário dos artistas do Estado, em locais como o Marco Zero, no Recife Antigo; o Aeroporto Internacional do Guararapes-Gilberto Freyre e o Shopping Center Recife, em Boa Viagem.

“Cada lugar tem suas particularidades. Pernambuco tem uma história extremamente importante no contexto brasileiro. As vaquinhas vão mostrar um pouco dessa arte local, desse folclore do Estado. Pernambuco é muito rico em artistas, a gente sabe que vai ter uma particularidade muito interessante”, pontua Catherine Duvignau, diretora da Top Trends, empresa responsável pela franquia no Brasil.

“A Cow Parade é um evento que traz uma maneira totalmente inusitada para os patrocinadores apoiarem uma arte com a finalidade social - além de ser um evento de arte e revelar novos artistas locais, tem a parte social de reverter o valor das vacas leiloadas para uma instituição beneficente”, acrescenta.

Leia também:
Camaragibe realiza seu primeiro Encontro de Artes Cênicas
Memórias de família em Quadrinhos
Mudança de local garante sucesso do Coquetel Molotov 2017


Dos 457 projetos inscritos, apenas 42 trabalhos foram selecionados para participar da mostra. O desafio agora é outro: adaptar o desenho planificado, em 2D, para que ele faça sentido e seja trabalhado dentro da estrutura de vacas tridimensionais de fibra de vidro.

As vaquinhas, ideia do suíço Pascal Knapp, vêm em três moldes: abaixada, em pé e deitada. "A vaca é mãe, é sagrada na Índia e tem um simbolismo muito forte no imaginário das pessoas. Além disso, acaba sendo uma tela tridimensional interessante para um artista, com muitas oportunidades", comenta Catherine.

Quantos às inspirações, não poderiam ser mais diversas: Antônio Paes, 28, é designer gráfico e viu no evento a oportunidade de homenagear suas raízes. “Minha vaca veio do Carnaval de Olinda. Eu nasci na Cidade Alta, e vivo até hoje. O Carnaval é algo que me marca muito, é muito presente. Eu tentei transmitir o que eu visualizo da festa em forma de imagem - são as fantasias, os músicos, o ‘Eu Acho É Pouco’, os passistas, a mulher na vara”, explica o desenhista.

Filho dos artistas Petrônio Cunha e Bete Paes, Antônio teve influência dos pais em seus desenhos — inclusive no que usa em sua vaca, o molde vazado com estêncil. "Meu desenho sempre veio do corte, até por minha mãe ou meu pai trabalharem muito com recorte, com estilete. Eu agreguei isso como um conhecimento para mim. Estou utilizando essa técnica para explorar esses diferentes suportes e construindo essa linguagem gráfica de desenho, de personagem, em cima disso, desse corte", pontua.

De detalhe em detalhe, Maria Luiza de Carvalho Nunes, a Dona Mariquinha, se destaca por seu trabalho árduo: artista plástica, a senhora de 63 anos trabalha na montagem de sua vaca todo dia. "Eu comecei desde o primeiro dia e até hoje estou aqui. Eu sou muito perfeccionista, eu olho, acho que está sempre faltando uma coisinha", brinca.

A vaca feita em pintura a óleo, de traços verdes e floridos e detalhes até dentro das orelhas, não nega: "Eu tirei inspiração do meu Sertão, porque eu sou sertaneja. Eu gosto de pintar meu Sertão em terra para mostrar a beleza que nós temos, que não é divulgada. O pessoal só tem a impressão do Sertão de miséria, de sofrimento, de tristeza. No entanto, nós temos coisas belas, como o pé de mandacaru, um cacto revestido de espinhos que, quando está próximo da chuva — como tem a música de Luiz Gonzaga —, bota flores majestosas. São encantadores, eu sou uma grande admiradora deles. Por isso, escolhi pintar a minha vaquinha de cactos, por conta do mandacaru", conta a artista plástica.

Entre artistas novos e renomados se encontra Manuel Dantas Suassuna, 57, que traz em sua vaca, "Herança", uma homenagem ao Alfabeto Armorial, de Ariano Suassuna, seu pai, explorando as raízes da cultura nordestina.

"Esse livro que meu pai fez na década de 1970 tem os ferros da família e algumas outras marcas, ele vai fazendo todo o alfabeto e contando a história. Na vaca, eu vou colocar os meus, da minha família - Dantas e Suassuna", comenta o artista convidado. "Quando eu vi o evento, a ideia dessa questão das ferraduras, da herança, veio logo".

Diversidade e elementos da cultura pernambucana marcam trabalhos da edição na cidade
Diversidade e elementos da cultura pernambucana marcam trabalhos da edição na cidadeFoto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco
As flores majestosas do mandacaru pelas mãos de Maria Luiza Nunes, a Dona Mariquinha
As flores majestosas do mandacaru pelas mãos de Maria Luiza Nunes, a Dona MariquinhaFoto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco
Dantas Suassuna buscou raízes nordestinas em alfabeto armorial
Dantas Suassuna buscou raízes nordestinas em alfabeto armorialFoto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco
Designer Antônio Paes se inspirou no Carnaval de Olinda
Designer Antônio Paes se inspirou no Carnaval de OlindaFoto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco
Dona Mariquinha e sua vaca de mandacaru
Dona Mariquinha e sua vaca de mandacaruFoto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco

veja também

comentários

comece o dia bem informado: