Detalhe de casario em tela de Durval Pereira, considerada o marco zero da coleção
Detalhe de casario em tela de Durval Pereira, considerada o marco zero da coleçãoFoto: Reprodução

Eduardo Pereira sempre sonhou em trazer à tona a memória do avô, Durval, morto de infarto, em 1984. Aos 63 anos, o paulista Durval acabara de receber a notícia de que fora agraciado com o maior prêmio de sua carreira como artista, "La Madonnina di Milano". E o coração do homem de espírito centralizador e competitivo, que dizia ter fregueses e não clientes - e por isso foi seu próprio marchand ao longo da vida, não suportou a emoção e parou.

Em estado de choque, a família não quis voltar ao ateliê, e não conservou mais que uma dezena de telas. Hoje com 30 anos, Eduardo guardava desde os 16 a vontade de pesquisar a memória do avô que o criou nos primeiros anos de vida. E não deixar o nome e a obra de Durval caíssem no esquecimento.

Foi graças a um colecionador pernambucano, Hebron Oliveira, que possuía 254 telas do pintor, que pôde se concretizar a exposição a ser inaugurada para convidados nesta quarta-feira (28), às 19h, no Centro Cultural dos Correios, no Bairro do Recife, numa realização do Instituto Origami, com o patrocínio do Sesi.

"Na missão de recontar a história e tirar o nome de um dos maiores impressionistas e paisagistas do Brasil do esquecimento, contamos com a ajuda imensa da família do artista. Seu legado é atemporal, mas Durval fazia um tipo de pintura que acabou saindo de moda. Mas tinha uma noção de tridimensionalidade fora do comum e um dos nossos intuitos foi mostrar como ele enxergava as coisas", comenta o arquiteto e pesquisador Lut Cerqueira.

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Ele vem se dedicando há pouco mais de um ano ao projeto da exposição "Sesi Durval Pereira - Impressões brasileiras/ 100 anos". Do Recife, onde fica em cartaz até 22 de abril, a mostra segue para Ouro Preto, em Minas Gerais, onde ocupa quatro casarões; São Paulo e Brasília.

Lut Cerqueira elogia a capacidade de Durval em dar às telas o efeito da tridimensionalidade

Lut Cerqueira elogia a capacidade de Durval em dar às telas o efeito da tridimensionalidade - Crédito: Mandy Oliver/Folha de Pernambuco


Um dos desafios de Lut Cerqueira e da equipe envolvida foi em como trazer as marinas, casarios, cenas rurais, naturezas mortas e boiadas das pinceladas fortes de Durval Pereira para os dias atuais. A saída foi usar novas tecnologias, levando aos quadros recursos da realidade virtual (com óculos em 3D), holografia e animação.

"Também criamos um álbum de figurinhas através de um aplicativo, que vai sendo completado à medida em que se visita cada fase da exposição. Quem completa o álbum, tem uma premiação ao final do passeio. E ainda um quebra-cabeças de fotografias, que era outra paixão de Durval, que mantinha um estúdio de revelação em casa", conta o curador. Somente na última década de vida, o artista assumiu uma tendência mais expressionista e oito peças deste espatulado mais abstrato também estão na mostra.

Embarcações também foram tema de telas de Durval Pereira

Embarcações também foram tema de telas de Durval Pereira - Crédito: Reprodução


Outro empecilho a ser vencido era a falta de organização de Durval Pereira em relação à sua própria obra. Tanto que, do acervo do colecionador pernambucano Hebron Oliveira, apenas três telas tinham etiquetas com seus nomes. "Ele foi um dos maiores impressionistas de nossa era, expôs em Nice (França) e Miami (EUA). Conviveu com a rainha Sílvia, da Suécia, e artistas como Manabu Mabe. Ficou rico vendendo suas obras", argumenta Lut.

Mas por ter dado aulas e por fazer temas facilmente vendáveis, os organizadores desconfiam que parte das telas que Hebron adquiriu em leilões na internet ou por outros meios tenha sido falsificada. Por isto, para a exposição, houve o cuidado de verificar a autenticidade dos trabalhos e descartar as cerca de 80 telas falsas encontradas no acervo. "Era uma arte de apelo popular muito grande, mas que conseguia passar cheiro, movimento e até trilha sonora", elogia Cerqueira.

Serviço:
Exposição "Sesi Durval Pereira - Impressões brasileiras/ 100 anos"
Centro Cultural dos Correios (Av. Marquês de Olinda, 262, Bairro do Recife)
Abertura nesta quarta-feira (28), às 19h, para convidados. Visitação: de segunda a sexta-feira, das 10h às 17h. Sábados e domingos, das 12h às 18h
Entrada franca

 

Detalhe de casario em tela de Durval Pereira, considerada o marco zero da coleção
Detalhe de casario em tela de Durval Pereira, considerada o marco zero da coleçãoFoto: Reprodução
Detalhe de tela com boiada, pintada por Durval Pereira
Detalhe de tela com boiada, pintada por Durval PereiraFoto: Reprodução
Detalhe de marina, pintada por Durval Pereira
Detalhe de marina, pintada por Durval PereiraFoto: Reprodução

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