André Resende escreveu o livro em meados dos anos 1990, mas guardou manuscrito até então inédito
André Resende escreveu o livro em meados dos anos 1990, mas guardou manuscrito até então inéditoFoto: Julya Caminha/Especial para Folha de Pernambuco

Quando tinha 25 anos, André Resende se desafiou: em meio a rotina de colunas e artigos que escrevia para alguns jornais, iria escrever um romance. Assim nasceu "Diasassados", lá pelo início da década de 1990. O manuscrito, contudo, foi guardado, mantido no fundo da mente (e da gaveta) daquele que viria a ser, enfim, escritor e psicanalista, com dez livros publicados. Beirando os 54 anos — e 29 anos depois daquela primeira versão —, André volta com "Diasassados". Agora, enfim, para publicar: o livro estreia o selo da editora InMediaRes que, lá do Rio de Janeiro, viu no romance sobre o Recife uma potencialidade marcante.

A premissa do livro é, a princípio, simples: conta a história de Noam Soisa, um neurocientista que gosta de se ver como racionalista. Até que, um dia, as mulheres com quem se envolvia (pelas quais não se dignava a aprender nomes e rostos) param de olhá-lo. Noam, desamparado, perdido e confuso, esquece todo o papo de razão para colocar a culpa em um ser místico: ora, se as mulheres pararam de se atrair por ele é porque há um encosto feminino contaminando-o com seu cheiro e assustando possíveis pretendentes.

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O interessante de toda a narrativa é que ela é contada a partir dos fluxos de pensamentos de Noam que, assim como o autor do livro, evoluiu e amadureceu nos anos em que foi engavetado. “Ele vai ,com o tempo, tentar relembrar esse momento de quando ele era mais jovem dizendo que acreditava somente na razão. A razão não existe. Você pode falar de muitas coisas — racionalidade, razão —, mas isso não existe. Então, ele é do tipo que acreditava na razão, mas também acreditava em fantasmas, em almas, em espíritos”, reflete André.

"A ideia naquela primeira versão é a mesma, de certa forma, de agora: um homem refletindo sobre sua masculinidade. Na segunda versão, o que acontece é que ele já é um homem maduro e resolve contar o que acha que aconteceu. Assim, vai lembrando dos fatos, conversando sobre essa situação e sempre revelando algo da sua masculinidade", explica André. Ele acrescenta, ainda, que a versão finalizada do livro vem com mais reflexões e análises. "Hoje, ‘Diasassados’ é um romance de fato, tem maturidade, pois já tem um tempo que eu seguro a minha maneira de escrever”, conta o autor, que não lançava novos livros desde 2014.

Tributo
Recifense, André também não deixa de homenagear sua cidade nos livros que escreve. E, em uma produção permeada pela maturação e os efeitos do tempo, a comparação entre o Recife daquela época e o de hoje se torna inevitável. "É um livro sobre o Recife, de certa forma, sobre a cidade de recantos, mas também muito mal tratada, feia, destruída. Isso 25 anos atrás. Mas, agora, é a mesma coisa: a cidade evoluiu em alguns aspectos prediais, mas hoje temos uma certa vulgaridade que circula nas pessoas jogando lixo na rua e nos muitos ruídos”, critica o escritor, que referenciou bairros como Boa Vista, Santo Antônio e São José na obra. “Isso permaneceu como uma espécie de melancolia em relação à cidade. São todos bairros que estão despedaçados”, comenta.

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