Biu Roque era conhecido por sua voz incomum e musicalidade incomparável
Biu Roque era conhecido por sua voz incomum e musicalidade incomparávelFoto: Nara Cavalcante / Divulgação

Foi uma espera de quase dez anos, mas enfim saiu o álbum de Biu Roque. Para quem já conhecia sua voz maravilhosa e sua habilidade rítmica, é uma chance de reencontrar sua música. E para quem não teve o privilégio de vê-lo se apresentar ao vivo, é uma oportunidade de descobrir seu talento. O mestre morreu há oito anos e este é seu primeiro e único disco solo, que permaneceu inédito desde que a gravação foi finalizada, em 2009.

Com produção de Alessandra Leão, Rodrigo Caçapa e Missionário José, o álbum "A noite agora é a maior" foi lançado pela Garganta Records e conta com participações especiais de outros artistas, como Siba Veloso, Renata Rosa, Iara Rennó, Cláudio Rabeca, Luiz Paixão, Juliano Holanda e Helder Vasconcelos.

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A ideia, agora, é conseguir verba para realizar o lançamento no Recife, em São Paulo e em algumas cidades da Zona da Mata Norte pernambucana, região onde ele nasceu e viveu. Por enquanto, o álbum está disponível no YouTube e pode ser comprado nos shows de Alessandra, Caçapa e Luiz Paixão, ou na loja Passa Disco, no Espinheiro.

Trajetória

Mestre de maracatu, cavalo marinho, coco e ciranda, João Soares da Silva, mais conhecido como Biu Roque, atuava na região de Aliança e ganhou mais destaque no Recife ao acompanhar o grupo Fuloresta do Samba, liderado pelo músico Siba Veloso (ex-Mestre Ambrósio). "Ele tinha uma voz aguda e absolutamente singular. Era inesquecível, não só no timbre como na forma de cantar. E era incrível também do ponto de vista percussivo, tinha técnica e graça na mão, um jeito de tocar que era ao mesmo tempo preciso e solto", relembra Alessandra, que conheceu Biu ainda na adolescência e desde então, convive com a família.

Ela e seu marido, Rodrigo Caçapa, além de produzir o disco também gravaram faixas. E ele foi o responsável por todos os arranjos do disco, num trabalho de paciência, amor e respeito: mesmo tendo uma formação mais erudita, o diálogo entre músicos demonstra que o sentimento é um só.





 Todos os que participaram da gravação, aliás, eram pessoas muito próximas a Biu Roque, que organizou seu repertório com base nas músicas que ouvia desde criança, cantadas por sua própria mãe, e outras ouvidas ou compostas ao longo da vida.

A família do mestre é outra forte presença no disco: seu filho, Mané Roque; suas filhas, Lurdinha e Maíca; e seu genro, Luiz Paixão (um dos mais talentosos rabequeiros de Pernambuco)."O velhinho era meu sogro, meu pai, meu mestre, meu amigo, tudo. Era tão bom que eu entrei pra família. Deus quis levar embora, e eu fiquei levando o cavalo marinho dele. A gente estava esperando este disco há muito tempo, e estamos felizes. Tá bonito demais", comemora Luiz.



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"Não consigo falar de Biu Roque de forma isenta. Ele me formou, mais ainda como pessoa do que como artista. Não conheço quem tenha chegado perto dele e não tenha ficado profundamente marcado. A gente tinha muita conexão... Meses antes, ele gravou várias bases prévias com o repertório, e eu escolhi aleatoriamente uma faixa para cantar. Era um coco que eu já conhecia e gostava, mas fui para o estúdio sem ter ideia do que ia gravar. Caçapa chegou a me mostrar várias músicas, e eu escolhi essa. Quando eu já estava terminando de gravar, na faixa guia tinha uma voz soando meio distante. Aumentamos para ouvir o que ele dizia, e era Biu dando um grito, 'olha o coco, Sérgio'!", conta Siba Veloso, emocionado.

Durante oito anos, ele conviveu de forma intensa com Biu, que era um dos integrantes do grupo Fuloresta do Samba, formado por diversos músicos da Zona da Mata. "Participar do disco foi uma inversão na relação, já que eu não estava envolvido na produção", aponta. "É um disco importante e único por tudo o que agrega. É uma colaboração horizontal entre todos os envolvidos. Não há hierarquia de conhecimento, tudo flui. É uma obra emblemática, que junta mundos diferentes que não deveriam, jamais, estar separados", aponta.



Biu Roque ainda chegou a ver o álbum ser finalizado e aprovou a arte da capa. Mas morreu em 2010, e desde então, por dificuldades variadas e promessas de apoio que não se cumpriram, a edição final e prensagem demoraram para ocorrer. "Tudo aconteceu dentro da ordem do tempo. Agora é hora de celebrar e não de rememorar os percalços", contemporiza ela, enfatizando que este não é um disco póstumo. "É dele. Foi feito por ele, do jeito que ele queria", destaca.

"Para a gente, apesar de todas as dificuldades de se produzir um material como este, trabalhando com música independente e sem ter verba para investir, ter feito esse trabalho foi um privilégio. Foi um presente incrível estar com uma pessoa que detinha uma carga de conhecimento nesse nível", reforça o músico Missionário José, que editou e mixou a obra. Segundo ele, sobraram faixas com músicas e depoimentos que não foram utilizados. "É um registro precioso e temos vontade de, um dia, lançar um material extra", planeja.

Serviço: 
"A noite hoje é a maior", de Biu Roque
Gravadora: Garganta Records
Preço médio: R$ 24,90
Onde comprar: Passa Disco (rua da Hora, 345, Espinheiro)
Informações: (81) 3268-0888 / www.passadisco.com.br 

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