Jornalsta Aline Feitosa  ressignificou a casa em mora há 18 anos, no Espinheiro.
Jornalsta Aline Feitosa ressignificou a casa em mora há 18 anos, no Espinheiro.Foto: Arthur Mota/Arquivo Folha

As fronteiras entre o público e o privado às vezes se tornam tênues, em nome da arte e do fazer cultural. Alguns espaços do Recife e de Olinda funcionam desse jeito: ampliando o olhar sobre o que seria um espaço voltado para shows. Recriando essa noção, sem concorrer com as casas tradicionais, a Casa Balêa, o Pequeno Latifúndio e O Mundo lá de Casa atraem público e vêm proporcionando novas vivências, ajudando também a firmar nomes da cena independente da região.

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Em nome da amizade

Em 2013, três amigas resolveram morar juntas: Jacque, enfermeira apaixonada por música; Lu, pediatra louca por casa cheia e mesa farta; e Manu, bancária e aventureira das palavras. "A gente percebeu que vivíamos como caramujos, cada uma carregando sua casa nas costas", lembra Manu.

Primeiro, partilharam um apartamento antigo e imenso, que vivia cheio de amigos. Viraram uma pequena comunidade, e um dia, elocubrando sobre o que mais queriam fazer na vida, lançaram ideias. "Jacque queria abrir um hostel no coração do Recife Antigo, eu queria rodar pelos bairros com uma biblioteca ambulante sobre uma bicicleta e Lu queria abrir um café colaborativo, desses 'pague quanto achar que deve'", descreve.

De Lu, veio a ideia de abrir a casa para fazer tudo isso, contando ainda com a ajuda de sua mãe, Maria, cozinheira de mão-cheia que estava concluindo a faculdade de Gastronomia aos 60 anos e topou a empreitada junto com Vinicius, um colega de turma.

Cinco anos depois, O Mundo Lá de Casa agora funciona em uma casa também no Hipódromo. São quatro moradoras, mais dois cachorros, quatro gatos e muitos amigos. "Costumamos dizer que o projeto não é mais nosso. A casa abriga um monte de ideias lindas de gente que termina descobrindo que fazer da sua casa o espaço para a realização das coisas que lá, no fundo, você mais acredita, faz todo sentido", comemora.

"Somos uma casa comunitária
, com a missão de acolher e de valorizar os talentos humanos, e nos tornamos um espaço para discussões significativas sobre micropolítica, nova economia, sustentabilidade e modos de vida. Viver desse modo e estar aqui, em um dos poucos bairros tombados no Recife, não algo é sobre empreender em um novo negócio, e sim sobre atuar politicamente em uma comunidade que repensa as barreiras das nossas zonas de conforto e se abre a discussão sobre o que é servir e ser servido", analisa Manu.

O espaço recebe pessoas pessoas para jantar, um vez por semana, a cada quinta-feira, em uma proposta de experimento gastronômico sem menu fixo, onde os chefs podem dar vazão a toda a sua criatividade. Nas quartas-feiras, a casa vira um café aberto para encontros, trocas e co-working. Às segundas e terças, toda a dinâmica muda para acolher um curso de meditação Mindfulness. E nos finais de semana, abre-se uma agenda flutuante com apresentações intimistas na sala (com capacidade para acolher apenas 50 pessoas), dando voz a artistas locais e à música autoral. A programação está disponível no Instagram @omundoladecasa e no Facebook.

Por lá, já passaram gente do naipe de Raphael Costa, Lucas do Prazeres, Isaar, Isadora Melo, PC Silva, Gean Ramos, Isabela Moraes, Publius e vários outros. "Com o couvert, quem chega por aqui contribui não só com os artistas, mas também com a casa enquanto espaço artístico e de resistência. Acreditamos que assim estamos desenvolvendo uma cultura de comprometimento mais direto com a arte, o artista e com diversidade musical", finaliza.

O Mundo Lá de Casa, no Hipódromo, se coloca como um espaço artístico e de resistência

O Mundo Lá de Casa, no Hipódromo, se coloca como um espaço artístico e de resistência - Crédito: Ed Machado/Folha de Pernambuco

 União como palavra-chave

"O Pequeno Latifúndio
é um lar, não um bar", defende a jornalista Aline Feitosa. Surgiu de seu desejo de ressignificar a casa em mora há 18 anos, no Espinheiro. Festeira por natureza, ela está envolvida há mais de 15 anos com a cena musical da Cidade, trabalhando com assessoria, produção e prestando consultoria em comunicação a festivais e artistas. O acesso aos músicos da cena independente, por isso, é algo direto e simples para ela.

Foi também com simplicidade que o projeto de abrir a casa para a arte foi surgindo. "Abro sempre às quartas-feiras, mas algumas vezes não abro. Geralmente quando tenho outras atividades profissionais para dar conta ou não estou a fim mesmo", ri Aline. Ela gosta de frisar que não tem um espaço comercial, nem a pretensão de abrir um. "O Pequeno Latifúndio é a minha casa, o meu lar, onde vivo com meus filhos, meus cachorros, meu papagaio e, mais recentemente, com minha mãe".

 A gestão funciona como a de uma casa de uma pessoa que gosta de receber amigos.
"Não preciso fazer estoque de bebidas e comida. A produção é muito simples", sintetiza. Às vezes ela também empresta o quintal para projetos no fim de semana, como o Pequeno Forró e o Pequeno Samba. No último dia 12, ela organizou a primeira edição do D-Djia, que se resume a um DJ tocando quando o dia ainda está claro. O convidado da primeira tarde foi o DJ 440.

A ideia de abrir a casa surgiu em 2017. A primeira atração foi o músico Juliano Holanda, "um bom amigo", que também foi um dos entusiastas para que a casa fosse aberta para novos mini encontros musicais. "A partir daí, ficou muito claro que meu lar abriria as portas não apenas para suprir e acolher a grande oferta de compositores no Estado, mas também para, junto com a classe artística, criar um ambiente de união e discussões sobre o setor na música, atuando como um agente ativo de micropolítica", descreve Aline. "Eu uso o termo micropolítica desde o primeiro momento. Todo o movimento é consciente", destaca.

O ingresso costuma ter valor único de R$ 20, pois Aline gosta de pensar que não existem "eventos principais" no Pequeno Latifúndio. 80% da renda arrecadada com os ingressos são revertidos para o artista. "Abraço a ideia de que a união faz a força. Estamos em um momento em que o artista precisa entender que não é melhor ou maior do que o outro. Precisamos nos nivelar de forma igualitária para conseguirmos a visibilidade e viabilidade da arte que se propõe".

Nomes como Juliano Holanda, Jr. Black, Isaar, Almério, Lucas dos Prazeres, Gilú Amaral, Lucas Santtana (SP), Thiago Martins, Marcello Rangel, Tonfil, Isadora Melo, Sofia Freire, Juvenil Silva, Helton Moura, Raphael Costa, PC Silva, Amaro Freitas Trio, José Demóstenes, Kiko Dinucci (SP) e Karina Buhr já deram o ar da graça no espaço, que comporta até 50 pessoas. Para assistir aos shows, é preciso fazer uma reserva prévia por meio do Instagram @pequenolatifundio

Aline Feitosa não tem a pretensão de dar um tom comercial a O Pequeno Latifúndio

Aline Feitosa não tem a pretensão de dar um tom comercial a O Pequeno Latifúndio - Crédito: Arthur Mota/Arquivo Folha

Pela vontade de coexistir

A Casa Balea funciona no sítio histórico de Olinda, onde começou com outro nome, a partir de 2012. Com base na antiga Casa do Cachorro Preto (que funcionou até junho de 2017), atualmente o espaço abriga vários parceiros com atividades e propostas distintas, mas que convergem em várias ideias e aspectos. "Todos são responsáveis e colaboram com a construção das atividades e das iniciativas dessa empreitada", contextualiza Maiara Lima, uma das idealizadoras da Casa, junto com Raoni Assis e Ivo Sabino.

Funcionam no espaço o Sana Bar; o estúdio de tatuagens de Dell; a Imprevisivo (que oferece lanches e refeições rápidas); e a Loja Balea, que trabalha em parceria com as marcas Crioula (BA) e Caboklo (PE), vendendo também ilustrações originais de Shiko e Raoni Assis e livros das editoras Titivillus (PE) e Mino (SP), além de outros itens produzidos pela casa e seus parceiros.

Segundo Maiara, a ideia de juntar as forças e continuar o projeto que começou com A Casa do Cachorro Preto veio de forma fluida, "pelas necessidades de adaptação e pela vontade de coexistir". Ela conta que não existe um modelo de gestão fixo. "Todo dia é uma invenção, todos os dias surgem desafios novos. A gente leva tudo com muito carinho. Essa é a regra maior", explica.

"Abrir espaço onde parece não ter também é uma das principais vocações da Casa", defende Maiara. As apresentações ao vivo começaram a acontecer no segundo semestre do ano passado, dentro de um formato mais intimista que o utilizado na antiga Casa do Cachorro Preto.

"Tivemos apresentações de alguns projetos experimentais de artistas parceiros, como Filipe Niero com os projetos Baião de Lulas e Os Malditos; Finodrão; Joinha’s Band; Los Belotas; Gilú Amaral; Tonfil; Ednardo Dali; Cláudio Rabeca; Ágda, Almério, Joana Terra e Juliano Holanda; Ceumar (MG) com participação de Almério, Juliano Holanda e PC Silva; Gabi da Pele Preta e Isadora Melo; e Em Canto e Poesia", enumera. A programação está sempre disponível no Instagram @casabalea e no Facebook.

Além desses, foram apresentados dois cine-concertos, compondo a programação do Cine Balea: a exibição do filme “O gabinete do Dr. Caligari” (1920), do alemão Robert Wiene, com sonorização em tempo real por Claudio Merlet (Chile), Thelmo Cristovam, Tai Ramosleal e Yuri Brusky; e a exibição do filme “Catimbau” (2015), de Lucas Caminha, com trilha sonora executada ao vivo por Cosmo Grão e Samuel Nóbrega.

Esse último cine-concerto fez parte da programação do Levante Pankararu, um evento que ocupou toda a Casa no último fim de semana de 2018, e que foi realizado em parceria com o Povo Pankararu em prol da campanha pela reconstrução da escola e unidade de saúde incendiadas na Aldeia Bem Querer de Baixo (Jatobá-PE), na noite de 28 de outubro.

Casa Balea, no sítio histórico de Olinda, reúne vários projetos e conceitos

Casa Balea, no sítio histórico de Olinda, reúne vários projetos e conceitos - Crédito: Jose Britto/Folha de Pernambuco

Os horários e forma de funcionamento da Balea ainda estão sendo adaptados, mas o Sana Bar funciona com horário fixo de quarta-feira a sábado, a partir das 18h, e aos domingo, a partir das 16h. Já a Imprevisivo abre de quinta a domingo, a partir das 18h. "Aqui temos a oferecer a experimentação. A invenção. A inversão. O tentar outros caminhos. A oportunidade de trocas mais íntimas", relaciona.

Entre as principais dificuldades enfrentadas pelo espaço, Maiara cita a falta de políticas públicas direcionadas para o incentivo de atividades desse gênero. "Falta uma diretriz mais clara do que a gente tem como turismo e lazer, em Olinda e no Estado", critica. "Nunca foi fácil, mas vamos continuar existindo".

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