MC Tha evoca as suas crenças e vivências em "Rito de Passá"
MC Tha evoca as suas crenças e vivências em "Rito de Passá"Foto: Jr. Franch/Divulgação

Dona de uma voz suave e versos acidamente sensíveis, MC Tha, de 26 anos, é artista confirmada no Festival Coquetel Molotov, que rola no dia 16 de novembro, no Caxangá Golf & Country Club. Com exclusividade à Folha de Pernambuco, a produção adiantou o nome da paulista, natural da Cidade Tiradentes, periferia do extremo leste de São Paulo. Thaís da Silva, como é menos conhecida pelo Brasil, é filha do funk, apaixonada por música brasileira e tem ido cada vez mais fundo dentro de si através do seu fazer artístico, num mix quase transcendental entre som e religião.

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"Cantar e dançar pra saudar/O tempo que virá/Que foi que está/Tocar pra marcar/O rito de passá". É o que diz a música que dá nome ao seu primeiro álbum, "Rito de Passá" (2019). "É a faixa que resume o álbum e o processo todo que eu passei até chegar nele”, explica a cantora em entrevista a esta jornalista. MC Tha vem se descobrindo pelas entranhas das suas melodias. Se quando começou, aos 15 anos, era o funk que lhe atraía, agora, ela ressignifica o que está posto e acha o seu lugar e o seu público. “Quando o funk veio do Rio de Janeiro e passou para a Baixada Santista, eu me arrisco a dizer que o meu bairro foi o primeiro a começar a organizar o funk em São Paulo (capital). Comecei a cantar por influência de amigos. Eu já escrevia algumas coisas, mas sempre fui muito tímida. Quando vi, eu já estava frequentando o baile funk”, lembra. Ao talento, foi somado o apoio da sua mãe, que deu à filha o pouco dinheiro que tinha guardado para que ela pudesse gravar canção no estúdio Power Som. “Era em São Vicente, no bairro do Humaitá. Todo mundo queria gravar lá”.

A foto feita para a música

A foto feita para a música "Coração Vagabundo" - Crédito: Jr. Franch/Divulgação

Não foi daí, no entanto, que a carreira seguiu um caminho. Thaís precisou se afastar. Recuar. Enxergar e entender outros universos. Nessa tentativa, começou a faculdade de jornalismo e trabalhou em um projeto social e cultural de São Paulo. “Só que a música sempre me fez muita falta”, recorda. Foi difícil ficar distante da sua paixão. Compensou pelo leque de referências que se abriu à sua frente. Quando resolveu voltar à cena, encontrou no cantor Jaloo um grande parceiro. Dividiu apartamento com o paraense por cinco anos. Ele, aliás, assinou a produção do hit “Olha quem chegou” (2014).

A música marca uma retomada. E ainda é perceptível uma ligação com o funk ostentação, com o cenário de baile funk. Mas, ao passo que conseguia uma aproximação melódica com o gênero, estava cada vez mais distante do que se espera daquela cena: “As pessoas diziam que minha voz era suave demais, minha postura também, eu nunca fui a boazuda que chegava ao baile e fazia quadradinho”.

A partir dali, começava a ser desenhada uma certeza para MC Tha: “Eu entendia que eu não cabia mais dentro do funk [...] Eu sempre entendi que eu não queria ser uma funkeira estereotipada da periferia, nem industrializada do pop”. Foi nesse meio termo, marcado, na realidade, por uma intensa mistura, que ela se criou. Tha passou a lançar uma música por ano. As que não eram divulgadas ganhavam a gaveta, na expectativa de que pudesse ser o sucesso do ano seguinte. Muitas dessas produções vieram à tona em Rito de Passá, que marca mesmo um rito de passagem, um encontro entre artista e sua vocação.

MC Tha está confortável neste primeiro disco. Inicialmente pensado para ser um EP, ganhou corpo a ponto de ter de virar algo realmente maior. Nas 10 faixas, algumas compostas há quatro, cinco anos, a cantora não se coloca nem como funkeira nem como cantora pop. Faz jus ao seu desejo de beber nas possíveis fontes da música brasileira. “Desde pequena, minha família sempre escutou muita música brasileira. Tanto que, hoje em dia, eu não consigo ter nenhuma referência de música internacional. Geralmente as pessoas perguntam quem são as suas influências. Beyoncé? Rihanna? Mas eu não costumo ouvir”, justifica. 

Na capa do álbum, a artista representa a orixá Iansã

Na capa do álbum, a artista representa a orixá Iansã - Crédito: Jr. Franch/Divulgação

Também é o seu lugar de fala, enquanto mulher negra e periférica, que ganha espaço no Rito de Passá. Em “Oceano”, por exemplo, ela fala das suas relações amorosas e da solidão da mulher negra, “que sempre fica num posto de segunda opção, e às vezes, nem é opção”. Outro ponto importante que pode ser identificado logo na capa e fotos de divulgação do trabalho é a ligação de MC Tha com a religião de matriz africana Umbanda. 

Para além do que as músicas possam transmitir, em junho, também nasceu um editorial sobre o álbum, no qual cada faixa ganhou uma capa representante. Produzidas em uma parceria entre o fotógrafo Júnior Franch e o diretor criativo Vitor Nunes, com assistência de Fi Ferreira e beleza de Pedro Simi. Na capa oficial do álbum, MC Tha representa Iansã, orixá mulher do movimento, fogo, que auxilia no despertar da consciência e no equilíbrio das ações humanas.

“Há uns três anos, senti necessidade de me cuidar espiritualmente. Aí eu visitei um terreiro de umbanda. Isso foi importante porque eu acho que o Candomblé e a Umbanda são religiões que nos ajudam a entender nossa natureza e não a reprimem. Isso ajuda muito na autoestima, na confiança”, afirma, certa de passou a se culpar menos. Abraçou a sua natureza por completo. “Isso passou a se refletir nas minhas músicas. Isso pode ser visto em 'Valente', acho que é a que eu mais gosto”, pontua.

Dose dupla

MC Tha já foi confirmada, também, para animar o Reveião da Golarrolê, no dia 31 de dezembro, que rola no Catamaran e no Espaço Almirante, como já virou tradição. Antes, o encontro é com o público do Molotov. Para as apresentações, a cantora garante: “Podem esperar muita felicidade”.

Coquetel Molotov

O festival, que já havia anunciado Liniker, Black Alien, Sevdaliza e Gop Tun, também confirma, além de MC Tha, a cantora Drik Barbosa e a banda Rosa Neon.

Drik é destaque na cena rap nacional

Drik é destaque na cena rap nacional - Crédito: Bruno Trindade/Divulgação

Drik Barbosa 

Revelada por Emicida na música “Mandume”, em 2015, Drik Barbosa se prepara para lançar o seu primeiro álbum e chegará com um show fresquinho ao festival. Com um discurso feminista eloquente, “Rosas” é o primeiro single do disco, que será lançado em breve pela Laboratório Fantasma e com apoio da Natura Musical. “Estou feliz demais de voltar em Recife pra cantar, e agora com a minha banda! Ansiosa pra mostrar as novas músicas e pisar novamente na terrinha onde minha mãe nasceu. Vai ser maravilhoso!”, comenta a artista.

A banda Rosa Neon também se apresenta no Molotov

A banda Rosa Neon também se apresenta no Molotov - Crédito: Sarah Leal/Divulgação 

Rosa Neon

Formada por Luiz Gabriel Lopes, Mariana Cavanellas, Marina Sena e Marcelo Tofani, a banda Rosa Neon chega ao Recife depois de uma turnê na Europa. O grupo se apresenta pela primeira vez no Nordeste e vai celebrar no palco o disco homônimo, que será lançado em setembro, com os oitos singles já lançados pela banda entre novembro do ano passado e junho deste ano. Entre eles está “Vai Devagar”, em parceria com o rapper Djonga, além de mais três músicas inéditas. "A gente já tá doido pra circular de novo no Brasil. É outra vibe, tem uma temperatura especial. Estamos indo pro Nordeste pela primeira vez com a banda”, comentam. 

 



 

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