Folha Gastronômica

Lectícia Cavalcanti

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Os judeus vendiam escravos a prazo
Os judeus vendiam escravos a prazoFoto: Da editoria de Arte

Escravos trazidos ao Brasil vieram primeiro da Guiné. Por conta disso passou, guiné, a ser designação genérica dada a todos os africanos. Mesmo àqueles chegados depois, de outros lugares. “Neste Brasil se há criado um novo Guiné, com a grande multidão de escravos vindos dele que nele se acham; tanto que, em algumas capitanias, há mais deles que dos naturais da terra”, assim escreveu Ambrósio Fernandes Brandão (1560-1630, em Diálogos das grandezas do Brasil). Depois também de Angola (Luanda) e Moçambique.

Todos do grupo banto - benguelas, congos (ou cabindas) e ovambo. Esses, de Angola, chamados aqui também de galinhas - galinhas de Angola. Gallinhas, só para lembrar, era nome de uma ilha do arquipélago de Bissagos e de um rio na Costa dos Grãos (parte superior da Guiné). Parte deles desembarcava ilegalmente em um porto natural, no litoral sul de Pernambuco, que acabou conhecido como Porto das Galinhas.

No séc. XVIII, passaram a vir também da Costa da Mina, eram bornus, ewes (ou jejes), hauçás, iorubás (ou nagôs), minas, tapas. Do porto iam a locais reservados para quarentena. Os de Pernambuco, levados a Santo Amaro das Salinas (atual bairro de Santo Amaro, perto ao Cemitério dos Ingleses).

Ficavam em galpões, onde recebiam tratamento médico e um farnel chamado carapetal - milho fresco ou assado, farinha de mandioca, frutas para combater o mal de Luanda (escorbuto) e tabaco para prevenir malária, estimular a circulação e (assim se acreditava) proteger os pulmões.

Cumprida a quarentena, seguiam para ser vendidos, nos lugares onde estavam os grandes comerciantes de escravos. Sobretudo judeus, que os revendiam a prazo, cobrando preço e juros elevados; ou os trocavam por açúcar, aguardente e tabaco. A rua em que residiam, do Bode, não por acaso logo acabou conhecida como dos Judeus.

Depois, com a partida destes no fim do domínio holandês, rua da Cruz, dos Mercadores e, finalmente, do Bom Jesus. Ali, antes de partir, fundaram a primeira sinagoga das Américas. No meio dessa rua, os próprios escravos preparavam suas refeições em grandes caldeirões - carne salgada, farinha de mandioca, feijão e às vezes banana.

Fim de tarde eram recolhidos e trancados em grandes armazéns, para que não fugissem ou fossem roubados. Senhoras de engenho também se davam ao prazer desse comércio. “Vão enfeitadas, sentam-se, manipulam e examinam suas compras, e levam-nas embora com a mais perfeita indiferença, como se estivessem comprando um cão ou uma mula”, escreveu o reverendo inglês Robert Walsh (em Notícias do Brasil 1828-1829).

O físico influenciava nessa escolha; sendo mais valiosos os homens altos (mais de 1,80 m) e sem defeitos. A falta de um dente, ou dedo, desvalorizava a mercadoria. E mulheres valiam menos - razão porque acabaram, no número, sendo cinco vezes menos que os homens. O lugar de origem também importava.

Os da Costa do Ouro eram apreciados por serem considerados mais bonitos e mais conformados; os de Angola, hábeis e mais trabalhadores; os da Guiné, dados aos serviços domésticos; os de Benguela e Cabinda, próprios para a dureza do trabalho agrícola; os de Moçambique, fracos e pouco inteligentes; os do Gabão, ferozes e maus.

Por conta disso, chamar negro de gabão era ofensa grande. Esses escravos eram também classificados pelo grau de domínio da língua portuguesa - boçais (os que não conheciam português), ladinos (que já falavam um pouco o idioma) e crioulos (filhos brasileiros de mães escravas, que dominavam bem a língua).

Escravos homens eram destinados aos trabalhos pesados. Nas cidades carregavam barris de dejetos, baús, caixas, comida, lenha, madeira, móveis, pedras, pianos ou terra. Transportavam cadeirinhas, canoas, liteiras e redes, em que seus senhores passeavam. Ajudavam na construção de casas como ferreiros, marceneiros ou pedreiros. E serviam, também, como “moleques de recado”.

No campo, derrubavam a mata, preparavam a terra, plantavam e moíam cana. Eram também artífices, caldeireiros, oleiros, pescadores, remeiros e vaqueiros. Alguns, conquistando a confiança de seus patrões, acabaram exercendo ofícios de capatazes, feitores e até carrascos de outros negros. Alguns chegaram mesmo ao elevado posto de mestre-de-açúcar. Trabalhavam durante todo o dia.

Comiam, no canavial, refeição preparada por negras destinadas especialmente a esse serviço, e levada ao eito por moleques. Senhores portugueses, por serem católicos, permitiam descanso nos domingos e dias santos. Os holandeses, por serem calvinistas, só aos domingos. Enquanto os judeus davam mais folga, sábados, domingos e feriados; razão porque os escravos, claro, preferiam trabalhar para eles.

Nas casas-grandes dos engenhos foram capangas, domésticos, guarda-costas, pajens, “as mãos e os pés dos senhores de engenhos”, segundo o jesuíta italiano Antonil (1649-1716, em Cultua e Opulência do Brasil). Tudo, ali, dependia deles. “Se os casarões remanescentes do tempo antigo parecem inabitáveis devido ao desconforto é porque o negro está ausente.

Era ele que fazia a casa funcionar... o negro era esgoto, era água corrente no quarto, quente e fria, era interruptor de luz e botão de campainha; o negro tapava goteira e subia vidraça quebrada, era lavador automático, abanava que nem ventilador”, segundo palavras do arquiteto Lúcio Costa (em Com a palavra Lúcio Costa).

(Continua no próximo sábado)

*É especialista em Gastronomia e escreve semanalmente neste espaço 

 

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