Folha Gastronômica

Lectícia Cavalcanti

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Oliveira
OliveiraFoto: Hehi Henri/Arte Folha de Pernambuco

A mais antiga referência escrita à oliveira está em um papiro egípcio do século XII a.C. que dizia: “Destas árvores pode ser extraído o óleo mais puro para manter acesa as lâmpadas do santuário”. Com o faraó Ramsés III (1217 - 1154 a.C) ofertando a Ra, deus Sol, os olivais da cidade de Heliópolis.

Os túmulos dos faraós eram, então, ornamentados com ramos de oliveira, para que o morto fosse capaz de se encontrar com seus deuses, na outra vida. O que não se sabia, naquele tempo, é que oliveiras poderiam atravessar milênios.

As mais antigas (com, pelo menos, 5.000 anos) estão em Bacheale (no Líbano). São 16 árvores bem próximas. Por conta disso, acabaram conhecidas como The Sisters (As Irmãs). Pouco mais nova (com cerca de 4.000 anos) é a de Luras, na Sardenha (Itália).
Seguida por uma (com 3.350 anos) descoberta, recentemente, em Portugal. Em Cascalhos, freguesia de Mouriscas, concelho de Abrantes. Neste caso, meio por acaso. Nas obras da barragem de Alqueva, maior reservatório de água da Europa Ocidental, também conhecida como Grande Lago. Muitas árvores foram abatidas. Mas aquela oliveira foi preservada, por seu aspecto estranho - tronco completamente oco, copa bem preservada e cheia de frutos.

A sombra dessa árvore portuguesa certamente acolheu muitos povos que, sucessivamente, dominaram o lugar. Todos, essencialmente camponeses e com gosto pela agricultura. Primeiro a chegar lá foram os Iberos - daí o lugar ser conhecido como Península Ibérica.

Depois vieram Celtas, que se juntaram aos primeiros, passando a ser conhecidos como Celtiberos. Dividiam-se em tribos, sendo a mais importante a dos Lusitanos. Mais tarde, Fenícios, Gregos e Cartagineses. Introduziram a noção de moeda e do alfabeto. No século III a.C., foi a vez dos Romanos.

Construíram estradas, pontes e cidades cercadas por muralhas e portas. Depois, essas cidades cresceram e escaparam das muralhas. Em italiano, cidade é borgo. E a parte que ficava dentro das muralhas passou a ser nomeada como borguetto ou, simplesmente, guetto (cidadezinha). Dando-se o nome a situações similares.

O mais conhecido foi um gueto de judeus, estabelecido pela Alemanha Nazista na Polônia - o gueto de Varsóvia. Mas essa é outra história. Voltando aos romanos, eles plantaram oliveiras, parreiras e ensinaram a fazer vinhos. Ficaram lá por mais de 400 anos.

No começo do século V, chegaram Suevos e Visigodos - conhecidos como Bárbaros, por serem bem pouco civilizados. Eram bocas ferozes, insensíveis aos encantos de uma comida suave. Mas ensinaram a fabricar queijos.

De todo tipo. São muitos os registros do cultivo de oliveiras, nesse período. Tão importante eram, para aquele povo, que severas multas eram cobradas a quem arrancasse uma dessas árvores.

Mais tarde, chegaram ainda os mouros (em 711) - árabes da Mauritânia, habitantes do norte da África. Do esforço com que se davam aos ofícios decorreu a expressão “trabalhar como um mouro”. Entre todos esses povos, foi o que mais influenciou a cultura da Península Ibérica.

Em todas as áreas: arte, arquitetura, indústria (de azulejo, de azeite, de tecido). E gastronomia. Acostumando o paladar ibérico às especiarias que traziam das Índias: anis-estrelado, canela, cravo, erva-doce, gengibre, noz-moscada; ainda arroz, aveia, trigo; e amêndoas, pistaches, nozes.

Foi em busca dessas especiarias, e também do tabaco e do açúcar que, mais tarde, se lançariam os portugueses ao mar, nas grandes navegações. Aqueles mouros plantaram algodão, arroz, cana-de-açúcar, laranja, limão, maçã, melão, tangerina. E, sobretudo, oliveiras. Muitas. Inclusive replantaram as que haviam morrido na grande seca de 846.

Foram expulsos de Portugal em 1249; e, da Espanha em 1492. Bom lembrar que o reino de Portugal só começou a existir em 1139, quando se libertou da Espanha. Esse foi o tempo em que mais se plantou oliveiras. Especialmente porque o azeite passou a ser utilizado, também, na iluminação. Das casas e das ruas.

Segundo especialistas, nada a estranhar que a oliveira de Mouriscas tivesse o tronco oco. Isso acontece com todas as que tenham mais de 150 anos. O problema é que, isso dificultava precisar a idade das árvores.

Que, só através do tronco, é possível contar os anéis de crescimento ou fazer a datação com carbono 14. Até que, em 2016, o professor da Universidade de Trás-os-Montes e do Alto Douro (UTAD) José Penetra Louzada, descobriu método científico para datar árvores antigas quando seu interior se encontrava oco (como no caso de oliveiras milenares): “Já que não podemos contar os anos pelo tronco ou fazer a datação por carbono 14, fomos encontrar um modelo matemático que relaciona a dimensão da árvore (diâmetro, altura e perímetro) com a idade”, diz o professor Louzada. Com margem de erro de apenas 2%.

Muitas outras oliveiras foram encontradas com mais de 2000 anos. Como a do concelho de Tavira, freguesia de Santa Luzia (2.210 anos). A de Reguengos de Mosaraz (2.450 anos). E a de Santa Iria de Azoia, em Loures (2.850 anos). Todas consideradas, pelo ICNF (Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas), “Arvoredo de Interesse público e Árvores monumentais de Portugal”.

Plantamos, em nossa casa de Gravatá algumas oliveiras, trazidas de Portugal. Na esperança de que, daqui a alguns milênios, elas ainda estejam por lá. Com suas sombras acolhendo os bisnetos de nossos bisnetos. E os bisnetos desses bisnetos. Por muitas gerações. Até o fim dos tempos. Amém.

*É pesquisadora de Gastronomia e escreve quinzenalmente neste espaço


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