Folha Gastronômica

Lectícia Cavalcanti

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Chá contra ressaca
Chá contra ressacaFoto: Arte/Folha de Pernambuco

Para curar ressaca o melhor remédio foi, durante muito tempo, apenas chá. Tem mil e uma utilidades. Chá de alecrim, pela manhã, para recuperar a voz. De moela de galinha com alfazema, antes das refeições, para lavar o estômago. De boldo, depois delas, para recuperar o fígado. De folhas de mamão, no meio da tarde, para aquietar a cabeça. De mulungu, à noite, para dormir pesado e esquecer os pecados. Essa preferência por curar com chás, especialmente no nordeste brasileiro, é hábito que remonta a nossos índios. Ao longo do dia, tomavam vários banhos de ervas. Afastando doenças e maus espíritos. Para curar ressaca de açuí, alué, cauim, ou tiquira, usavam ajucá, ayahuasca ou caxixi feito com casca de cipó. Em cultos religiosos, abusavam de chás quase sempre alucinógenos - amatita muscaria, cânhamo, psilocibe.

Era a medicina da época. E com ela curavam quase tudo. Guilherme Piso (em 1637), médico de Nassau, conheceu aqui esses chás. E logo proclamou, com humildade, “a superioridade da terapêutica indígena”. Também assim fez o colonizador português, logo abandonando os tradicionais chás de cura que se usava na distante Europa. Chás eram então feitos de quase tudo - inclusive pó de crânios humanos, fezes de ovelhas e restos de múmias. O jesuíta (por vocação) e boticário (por profissão) Manuel de Carvalho por exemplo oferecia, a quem lhe procurasse, chá para todos os gostos - até, como prometia, para virgindade perdida. Mas todos esses chás eram então usados apenas como remédio. E assim foi até quando por aqui chegou Dom João VI - mais por força das legiões napoleônicas de Junot que por vontade própria, em verdade se diga.

Com a corte portuguesa, nos veio também um outro jeito de tomar chá. Não para curar, como se remédio fosse. Mas para dar prazer, por ser saboroso e apascentar os espíritos. Dom João bem que tentou produzir algum chá de qualidade, em terras brasileiras. Inclusive determinando o plantio de 6.000 mudas de thea sinensis, no Jardim Botânico do Rio de janeiro (1812). Depois José Arouche de Toledo, empresário que dedicou toda sua vida à produção e ao comércio de chá, fez novas tentativas. Em descampado que hoje leva seu nome, Largo do Arouche; e no centro da cidade de São Paulo - em lugar que acabou depois conhecido como Viaduto do Chá. Mas nenhuma dessas experiências deu certo. Nem poderia dar. Que a planta do chá requer altitude, solos e climas especiais - nenhum deles encontrados no Brasil. Vindo os melhores chás, não por acaso, dos altiplanos Himalaios.

Chás industrializados já vêm em saquinhos, com misturas de até 15 ou mais folhas, com diferentes procedências. Entre eles os mais famosos, English Breakfast Tea - combinação de chás fortes e encorpados da Índia e do Ceilão; Earl Grey Tea - combinação de chás pretos Keeman e Darjeeling, aromatizado com óleo de tangerina; Rússia Caravan Tea - chás finos da China, Formosa e Índia; Jasmine - chá verde perfumado com flores de jasmim; e Vintage Darjeeling - considerado néctar dos deuses, combinação de puros chás Darjeeling, cultivados nas encostas do Himalaia. Esse chá é usualmente classificado a partir do processo de tratamento das suas folhas. Verde é mais suave, de cor clara, feito a partir de folhas não fermentadas (Gunpowder grees). Oolong tem a cor do cobre que as folhas adquirem, ao passar por rápida fermentação (oolong peach) - os chineses o chamam de “chá vermelho”.

E preto é o que passa por fermentação mais longa. Por alguns entusiastas britânicos, dado seu sabor, é definido como o “vinho tinto” dos chás. Talvez esperando que algum enólogo devolva a gentileza; dizendo, por exemplo, que um Bordeaux seja “o chá dos vinhos”. Mas essa esperança, própria talvez de quem bebeu outras bebidas, parece francamente exagerada. Vão esperar sentados. De preferência, tomando chá.

RECEITA: COMO PREPARAR O CHÁ
· Use sempre água fria e pura. Ferva a água, mas não por muito tempo - para evitar perda de oxigênio, o que tornaria o chá insípido. Assim que a água começar a ferver, desligue o fogo e coloque dentro o chá. Faça repousar, por 3 a 5 minutos, para ocorrer a infusão. Mexa só uma vez e sirva
· Evite bules de alumínio. Os melhores são de louça. Ao lavar os bules, nunca use detergente. Apenas bastante água. Antes de servir o chá, escalde a xícara com água bem quente
· Evite usar tampa ou abafador, que fazem o chá ficar muito forte
· Paladares mais exigentes desaprovam o uso do açúcar
· A melhor medida é um saquinho por xícara
· Há certos chás que melhoram o gosto com o acréscimo de leite. Coloque então, primeiro, o leite na xícara. E só depois o chá. Ficam bem com leite “Assam”, English Breakfast e Irish Breakfast. Sem leite sirva Chummee, Jasmine, Lapsang Souchong, Rouse Pouchong, Sichuan, Traditional Gunpowder, e Vintage Darjeeling. Também deverão ir sem leite as infusões herbáceas e os chás com aromas de frutas.

*É especialista em Gastronomia e escreve quinzenalmente neste espaço


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