Folha Gastronômica

Lectícia Cavalcanti

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A Páscoa do cordeiro de Deus
A Páscoa do cordeiro de DeusFoto: Arte/Folha de Pernambuco

Cada família judia sacrificava um cordeiro, no equinócio da primavera do hemisfério norte, marcando a porta da casa com seu sangue. À noite, se reunia em volta do cordeiro assado. Enquanto, pelas ruas, um anjo exterminador dizimava a população, poupando apenas os ocupantes das casas assinaladas. Tudo segundo o Antigo Testamento. Era a noite da passagem, em hebraico Pesach (donde a própria palavra Páscoa). Essa ceia, o seder, obedecia cardápio obrigatório - cordeiro macho, de um ano e sem defeito (“absque macula, masculus, anniculus” - Êxodo, 12, 5), assado inteiro, sem quebrar os ossos, acompanhado de ervas amargas e pão ázimo. Mais caldo de maçãs, amêndoas, figos e outras frutas cozidas no vinho. Sendo a refeição feita de pé, como quem tem pressa.

O carneiro bíblico ainda resiste, na Páscoa pernambucana. Hoje misturado a camarão, lagosta e peixes de todos os tipos. Especialmente bacalhau. De preferência no coco, acompanhado de feijão (também de coco). Com bredo - erva só usada nesse período da Semana Santa. E quibebe - purê de jerimum parecido com o de Angola, só que lá acrescido de azeite de dendê e guisado de peixe, algumas vezes substituindo jerimum por batata doce. Por fim, na sobremesa, bolo de frutas, tortas e ovos de chocolate. Em Portugal além do carneiro, também se come borrego, carne de boi, pão-de-ló, bolo-rei e amêndoas (confeitadas e coloridas). E mais folar, que pode ser doce ou salgado e ter diferentes formas, dependendo do lugar. No Domingo um pouco de tudo. Menos peixe - porque o jejum da quaresma, segundo a tradição, já era farto deles. Sendo esse jejum aos poucos, por razões práticas, reduzido à quarta-feira de cinzas e à Sexta-feira Santa.
No fundo, as mais expressivas tradições da Páscoa são religiosas.

Quaresma é o período de 40 dias que separa a quarta feira de Cinzas do domingo de Páscoa. Repetindo, simbolicamente, os 40 dias do jejum de Cristo; e os 40 anos em que libertos da escravidão no Egito e guiados por Moisés, vagou no deserto o povo de Deus. É período de penitência e preparação da festa da Páscoa; em que judeus celebram esse êxodo à terra prometida, enquanto cristãos a ressurreição de Jesus (três dias depois de sua crucificação). No período de Páscoa, mesmo antes de Moisés, já por essa época pastores nômades comemoravam a chegada da primavera. Com celebrações que têm em comum, inclusive, a maneira de festejar - em volta de mesa farta, com comidas cheias de simbolismo e tradição, reunião de família e amigos. O cristianismo recebeu, do judaísmo, essa maneira de celebrar a Páscoa. Não por acaso reunindo o próprio Cristo, à me­sa, todos os seus apóstolos. Na Santa Ceia. E morreu depois oferecendo-se como o Cordeiro de Deus, Agnus Dei, aquele que veio para tirar o pecado do mundo e ter piedade de nós. Amanhã celebramos mais um Domingo de Páscoa. À mesa, pois.


RECEITA: CARRÉ DE CORDEIRO COM CROSTA
INGREDIENTES:
4 carrés de cordeiro (o lombo, junto com o osso)
Sal, pimenta, alecrim, alho, cebola, vinho e azeite
6 fatias de pão de forma, sem casca
Raspas de 1 laranja e de 1 limão
2 colheres de sopa de salsinha picada
2 colheres de sopa de manteiga derretida
4 colheres de sopa de mostarda

PREPARO:
· Tempere os carrés com sal, pimenta, alecrim, alho, cebola, vinho e azeite. Deixe na geladeira, por 12 horas.
· Refogue tudo até que fique bem macio. Reserve.
· Processe as fatias de pão. Junte as raspas de laranja e de limão, a salsinha picada e a manteiga derretida.
· Pincele os carrés com a mostarda. Distribua a mistura de pão por cima da mostarda, pressionando levemente.
· Coloque os carrés em assadeira e asse em forno pré-aquecido, até que a crosta doure.

*É especialista em Gastronomia e escreve quinzenalmente neste espaço


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