Orun Santana
Orun SantanaFoto: Lívia Neves/Divulgação

A relação com a dança, a capoeira, a música, a cultura populas e a dança/cultura afro sempre foi algo natural para o artista Orun Santana, que começou antes mesmo dele nascer, com a influência da sua família, tendo seus pais como espelho para a arte, pois foram bailarinos do Balé Populas do Recife e fundaram, juntos, o Daruê Malungo, um Centro de Educação e Cultura que fica no bairro de Chão de Estrelas. O início de Daruê e Orun são bem próximos, tendo o espaço sido fundado em 1988, e Orun nascido em 1990. O lugar, hoje em dia, é gerido pelo artista, que tem apreço pelo espaço que deu início à sua carreira.

Pai e filho, brincantes e artistas do grupo Daruê Malungo, foram colocados em cena com o espetáculo solo "Meia Noite", apresentado em 2019, que dialoga sobre as relações de parentesco, de mestre e discípulo, abordando a capoeira como elemento criador e motivador do movimento entre o Mestre Meia Noite, nome artístico de Gilson Santana, e Orun. O Daruê passou por momentos difíceis, assim como o próprio espetáculo, saindo da programação do Janeiro de Grandes Espetáculos. Tudo o que aconteceu, de bom e de ruim, Orun conta nesta entrevista para a Folha de Pernambuco.

Pensando em retrospectiva, como você enxerga o seu ano e todos os trabalhos realizados?

Desde o Carnaval, tive a parceria com vários artistas, como Amanda Pietra; também participei em shows musicais, entre eles, com Amaro Freitas, com o Boi Marinho, com DJ Dolores e Lucas dos Prazeres, com uma viagem que foi um pouco surpresa para mim, pois fomos para a China, mas também fomos para Natal e fizemos um trabalho incrível, que, inclusive, já estamos programando fazer de novo, de uma outra forma, aqui em Recife, que merece muito; também teve um trabalho no Sinspire com o grupo Estesia, que gerou umas conversas bem bacanas com outros artistas e outras pessoas. E consegui chegar também no Festival de Arte Negra de Belo Horizonte, foi um marco, uma conquista de anos que eu projetei chegar lá. O ano começou muito no sentido de estabelecer essa ideia de rede, de fortalecimento, e de buscar outras formas de resistir e de permanecer.

O espetáculo "Meia Noite" foi reestreado em 2019, como foi essa experiência? 

Em 2018, eu resolvi estrear como artista solo, com o espetáculo "Meia Noite", no Janeiro de Grandes Espetáculos, e foi ali que vivi um pouco do processo do amadurecimento do espetáculo, e em 2019 que a gente organizou uma equipe para uma “reestreia”, com um trabalho mais maduro, como a gente acredita que ele deve ser. Esse momento foi, na verdade, o momento de colher alguns frutos que foram alimentados em 2018, relacionado às relações, a estar em alguns lugares.

Sobre a sua carreira em 2019, o que você acha que foi a maior conquista do ano? 

Umas das principais conquistas em 2019 foi alcançar lugares que eu ainda não pude alcançar com a minha arte, com o meu trabalho solo. Para além disso, o ano de 2019 foi bem difícil por conta do Janeiro de Grandes Espetáculos, relacionado à censura, que eu acabei tirando o espetáculo "Meia Noite" da programação, e, depois disso, a gente se posicionou politicamente através do Janeiro Sem Censura, evento que vai acontecer novamente ano que vem, com uma programação alternativa ao Janeiro.

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O bailarino viveu um ano intenso

O bailarino viveu um ano intenso - Crédito: Amanda Pietra/Divulgação

O espetáculo inevitavelmente trouxe muitos frutos, mas, para além das conquistas, teve algum fato que mais te marcou durante este ano? 

Foi um momento de estar em outros lugares, e acabei me apresentando em várias cidades ao longo do ano, com Caruaru, Arcoverde, Pesqueira, chegando nos interiores, que são lugares de resistência muito fortes, e, para além disso, chegamos depois em Garanhus com oficina e o espetáculo. O que marcou para mim também foi a temporada no Teatro Arraial, no meio do ano, que foi um momento muito forte de transformação, com a reestreia do trabalho, que teve 10 espetáculos, pois é muito raro a gente conseguir uma temporada tão longa, e apesar de ser um teatro pequeno, deu para muita gente assistir, e para mim foi o marco do ano.

O Daruê faz parte de você, e iniciou o ano de uma forma bem difícil, com alguns obstáculos, mas que não abalou totalmente o local e sua própria resistência. Como foi toda essa fase? 

Depois de todo o fato com o Janeiro de Grande Espetáculos, começamos uma campanha para o Daruê, que vem desde o final de 2018, pois estava sem energia, sem recursos, sem projetos, e acabamos fazendo o Coco do Candeeiro, que foi uma parceria com alguns produtores, pessoas interessadas em ajudar o Daruê, para criar um evento em prol da arrecadação. Então a gente fez uma vakinha virtual, o coco, e articulamos uma relação em rede com outros grupos como o Bongar, com outras parcerias que foram acontecendo ao longo do ano, agregando muitas pessoas para perto.

E para 2020, o que foi extraído de 2019 que vai ser levado para o ano seguinte? 

Para mim foi um ano de comunicação, de conseguir estabelecer contato com várias pessoas, e essa ideia de rede também está sendo estabelecida através da troca, que foi muito marcante para mim, e acredito que para 2020, os frutos que foram alimentados em 2019 já gerou e ainda está gerando coisas que já estão planejadas para 2020, que vão ser muito boas também. Coisas que eu nem posso contar mas que vão acontecer (risos), e que eu já estou muito feliz por iniciar o ano dessa forma, com um projeto gigante.

 

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