'Das Quadras para o mundo' conta a trajetória de vida de Preto Zezé
'Das Quadras para o mundo' conta a trajetória de vida de Preto ZezéFoto: Divulgação

"Este é um momento histórico. Gente negra comprando livro era algo impensável há alguns anos. A gente está escrevendo, produzindo, consumindo e colocando publicamente nossa leitura de mundo. Isso é novo, e deve ser comemorado". A fala é do cearense Preto Zezé, representante brasileiro na Central Única das Favelas (Cufa) Global - uma articulação internacional que liga dezessete países com sede das Nações Unidas (Onu). Ele vem ao Recife no início de outubro, participar da 12ª Bienal Internacional do Livro de Pernambuco e lançar aqui seu segundo livro, "Das Quadras para o Mundo" (Editora Cene, 192 págs, R$ 39,90).

"Esse livro nasceu da necessidade de registrar algo que não é bem uma biografia. Era preciso compartilhar experiências que tive nessa minha caminhada de luta social. Porque isso não se dá através de uma pessoa só, é uma série de parcerias", pontua.

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Nascido em Fortaleza, "uma das cidades mais desiguais do planeta", Preto Zezé viu o mundo a partir de um lugar bem singular: as Quadras, uma favela situada no meio do bairro de Aldeota, onde há trechos de altíssimo poder aquisitivo. Assim, o adolescente Zezé podia trabalhar como lavador de carros, mas tinha acesso à praia, onde surfava, a poucos minutos de caminhada. "É uma coisa muito marcante. Não é só a desigualdade, em si, mas a naturalização dessa desigualdade", analisa ele, que desde cedo tinha "o sonho de sair desse lugar, de mudar, de se vingar da miséria daquela situação".

A história narrada no livro começa com seus pais, migrantes da região do Cariri, no interior do Ceará, e passa também pelo processo de invasão do espaço onde a favela foi construída. "Falo de minha vivência ocupando as ruas, lutando pela sobrevivência. Tive que fazer uma escolha terrível, comum entre quem é jovem na periferia, que é decidir entre estudar ou trabalhar. As notas azuis do boletim não empolgam tanto quanto as de dinheiro", relata.

Livro será lançado durante a Bienal Internacional do Livro de Pernambuco

Livro será lançado durante a Bienal Internacional do Livro de Pernambuco - Crédito: Divulgação

 Preto Zezé conta a trajetória percorrida por aquele menino "tímido, invisível, que se achava menor que todo mundo", até se tornar um ativista da cultura Hip Hop, e na sequência uma das mais importantes lideranças sociais e políticas do Ceará. "Montamos o Movimento Cultura de Rua para resgatar a tradição dessa cultura de bairro, de fazer trabalho comunitário, melhorar a qualidade de vida local", relembra ele. Produtor artístico e musical, lançou sete discos, sendo que um deles foi premiado como revelação Norte e Nordeste no maior prêmio de Hip Hop do Brasil, o Hutuz.

Ele relembra momentos difíceis que precisou enfrentar, sendo o pior deles a perda de seu filho mais velho, assassinado em 2015. Fala também sobre a chegada inesperada e reanimadora de seu filho mais novo, atualmente com dois anos e quatro meses. Ligado à Cufa desde 2002, quando assumiu a presidência da Central Única no Ceará, Preto Zezé passou à Cufa nacional em 2012 e à Cufa Global em 2015.

"Considero muito importante poder compartilhar experiências reais, para que elas possam ajudar a dar luz e inspirar outras vidas", resume. Segundo ele, no fim da obra há um "manifesto", "uma espécie de injeção de investimento emocional". "Fiz isso para que as pessoas acreditem que precisam sair dessa frequência da tragédia, do ódio em que o país está submerso. A gente está vivendo um momento político particularmente difícil. Há um segmento político que tem extrema dificuldade de conviver com o pensamento oposto", critica.

Para Preto Zezé, esta é uma característica antiga da sociedade brasileira que só agora está vindo à tona. "Houve uma época em que se acreditava que aqui era um país cordial, onde as raças eram tratadas de maneira igual. Agora se provou que o Brasil é algo bem diferente", pontua. "É preciso criar estratégias para combater isso, caso contrário se instalam o imobilismo, a descrença, a depressão". Ele destaca o fato de que quem vive na favela já experimenta esse processo há muito tempo, e de forma constante. "É violência policial, assassinato, morte, droga, muito desemprego... A nossa vida já era meio que um golpe sob um golpe".

Criticando o episódio de homofobia protagonizado pelo prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (que recentemente, durante a Bienal do Livro daquela cidade, mandou apreender revistas em quadrinhos onde dois super heróis se beijavam), Preto Zezé adverte para "não tentar se igualar a esses caras no ódio e na bizarrice". "A gente deve buscar outras frequências, criar e buscar espaços de cuidado, construir vivências sociais que estejam baseadas em afeto, em respeito e principalmente, em valorização das diferenças".

 

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