Karla Gnom é DJ e produtora
Karla Gnom é DJ e produtoraFoto: Leo Malafaia

Karla Raissa tem só 20 anos e uma trajetória de luta percorrida em diversas áreas vulneráveis do centro do Recife, como Coelhos, Santo Amaro e Brum. Aos nove, pela força de sua dança em apresentações na comunidade, ficou conhecida como Karla Jackson. Aprendeu a tocar bateria para acompanhar o irmão nos cultos de uma igreja pentecostal. Saiu de casa aos 14, fugindo de uma série de problemas dolorosos, e, enquanto sobrevivia entregando panfletos de uma loja de tatuagem e piercing, entrou em contato definitivamente com os manos do hip hop.

Aos 17, resolveu se tornar DJ, mesmo sem ter acesso aos equipamentos necessários. Mas conseguiu. Ela, Karla Gnom, vai abrir, no dia 5 de outubro, o show que comemora os 30 anos do grupo paulista Racionais MC, no Classic Hall, em Olinda. E esta não é a única novidade que está na agulha. Seu primeiro videoclipe do projeto "Fábrica de Hino", com participação da rapper MC Nany Nine, está prestes a ser lançado. E no dia 11 de outubro, ela participa como jurada na batalha de beatmakers que vai acontecer durante a 12ª Bienal Internacional do Livro de Pernambuco.

Aos 20 anos, ela tem acumulado experiência nas picapes

Aos 20 anos, ela tem acumulado experiência nas picapes - Crédito: Leo Malafaia

 

Autodidata, Karla Gnom estudou apenas até a oitava série e aprofundou seus conhecimentos sobre produção musical, mixagem e beatmaking através de vídeos no YouTube. Mas é inegável que a moça tem talento, e isso é ratificado pelos feitos que acumula em pouquíssimo tempo. De posse do notebook velho do irmão e de uma mesa controladora usada, ela começou a experimentar sonoridades e, na sequência, com o apoio dos manos de sua quebrada, começou devagarzinho a tocar em boates eletrônicas e eventos ligados ao hip hop.

Até que participou de uma oficina de DJs ministrada pelo DJ Balu durante o Festival Pré-AMP. Considerada a melhor aluna, a menina foi convidada a se apresentar no evento. Na sequência da ralação, terminou dando as caras em duas edições do Festival de Inverno de Garanhuns (FIG), no Abril pro Rock, no festival RDV e no Pólo Hip Hop, em Jaboatão. Ganhou visibilidade também via redes sociais, onde tem seguidores como o MC Leozinho e o cantor Otto, que já a convidou para fazerem um som juntos.

 

Karla é dona de uma história marcada por esforço e dedicação

Karla é dona de uma história marcada por esforço e dedicação - Crédito: Leo Malafaia

 

Karla gosta de explicar que se divide em quatro atuações: além de baterista (experiência que traz da infância e lhe dá lastro para toda a sua atuação musical), é beatmaker, produzindo instrumentais para que o mestre de cerimônia (MC) utilize como base. Ela é DJ e produtora. "Como DJ, normal, eu toco sets de outras pessoas. Já como produtora, eu componho, toco e mixo meus próprios trabalhos", diferencia.

Sobre o fato de ser beatmaker, ela pontua que não sabe se é a única pernambucana a atuar na área. "Mas sou uma das poucas", admite. Ao contrário da maioria, que simplesmente sampleia ritmos compostos por outros beatmakers do exterior, ela produz pessoalmente cada batida de suas composições, sendo que seu ritmo favorito é o trapp, uma vertente do hiphop. "Já cheguei até a vender um beat para uma menina de Belém do Pará", revela.

Karla Gnom

Karla Gnom - Crédito: Leo Malafaia

 

Levou um tempo para ela conseguir melhorar seus equipamentos e, assim, obter melhores resultados. "A pessoa não pode só ser boa no que faz, é preciso profissionalizar o bagulho", afirma. Atualmente, ela conta com a assessoria da produtora independente Aqualtune, que se dedica ao protagonismo de mulheres negras na cena cultural e busca fortalecer artistas da periferia. "Karla Gnom é mais um exemplo de como as nossas favelas são celeiros culturais que precisam ser desbravados e valorizados. Ela contou com a arte para se manter viva. É muito focada e criativa e tem conquistado espaços historicamente dominados por homens", avalia Lenne Ferreira, co-fundadora da Aqualtune.

Lenne Ferreira é um dos nomes da Aqualtune Produções

Lenne Ferreira é um dos nomes da Aqualtune Produções - Crédito: Arthur de Souza

 

Para o futuro, os planos são ampliar o projeto "Fábrica de Hino", no qual convida MCs para cantar suas próprias composições. "Estou investindo em mim, e fazendo parceria com algumas minas. Quero dar visibilidade ao meu trabalho. Eu canto, mas sou tímida. Prefiro me expressar de outras formas. E, assim, tanto divulgo a mim, como a uma mana MC", descreve. A proposta de Karla é dar prioridade às vozes femininas. "A gente está lançando o primeiro de muitos clipes. É muito raro você ver uma mina no rap. Meu projeto vai dar visibilidade a essas artistas, e fazer com que os caras entendam que a gente pode atuar lado a lado com eles".

Karla Gnom é DJ e produtora
Karla Gnom é DJ e produtoraFoto: Leo Malafaia
Karla Gnom
Karla GnomFoto: Leo Malafaia
Karla Gnom
Karla GnomFoto: Leo Malafaia
Karla Gnom
Karla GnomFoto: Leo Malafaia
Karla Gnom
Karla GnomFoto: Leo Malafaia
Karla Gnom
Karla GnomFoto: Leo Malafaia
Karla Gnom
Karla GnomFoto: Leo Malafaia
Karla Gnom
Karla GnomFoto: Leo Malafaia
Karla Gnom
Karla GnomFoto: Leo Malafaia
Karla Gnom
Karla GnomFoto: Leo Malafaia
Karla Gnom
Karla GnomFoto: Leo Malafaia
Karla Gnom
Karla GnomFoto: Leo Malafaia

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