Heitor Villa-Lobos
Heitor Villa-LobosFoto: Reprodução

Desde o início de 2019, uma série de homenagens pelos 60 anos da morte de Heitor Villa-Lobos vem ocorrendo ao redor do Brasil. A efeméride - cuja data exata é neste domingo, 17 de novembro - coloca em evidência o legado de um dos maiores compositores brasileiros. Regravado incontáveis vezes por cantores populares, como Ney Matogrosso, Maria Bethânia e Djavan, o carioca segue como referência da nossa música no cenário internacional, influenciando maestros e músicos eruditos da geração atual.

Até seu falecimento, aos 72 anos de idade, o músico compôs mais de 2 mil obras orquestrais, de câmara, instrumentais e vocais. Por incrível que pareça, as bases para esse numeroso repertório de criações foram construídas no ambiente doméstico. Filho de um músico amador, Villa-Lobos aprendeu a tocar violoncelo e clarineta com o pai, ainda criança. Aos 13 anos de idade, após a morte do pai, ele passou a se apresentar na noite, em bailes, teatros e cafés, para ajudar no sustento da família. O interesse pela musicalidade dos grupos de choro do Rio de Janeiro e a amizade com músicos importantes, como Ernesto Nazareth e João Pernambuco, nasceram neste período.

O ano de 1905 pode ser compreendido como o início de um movimento que colocaria o nome de Villa-Lobos na história da música nacional. Foi quando ele começou as suas famosas expedições pelo Brasil, coletando toda a musicalidade que encontrasse pelo caminho para, mais tarde, usar esse material para as suas peças. Seu primeiro destino foi o Nordeste, passando pelo Recife, por Salvador e cidades do Sertão. Esse contato com a cultura local influenciou a elaboração do "Guia Prático - 1º Volume", lançado em 1932, com 137 canções folclóricas arranjadas pelo compositor.

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"Há registros de que, na Capital pernambucana, Villa-Lobos fez um concerto no Teatro de Santa Isabel. Por aqui, ele chegou a reger músicas de 'Magdalena', uma das tantas óperas que ele criou e que fez muito sucesso posteriormente, em 1948, com um versão na Broadway", conta o professor e maestro Wendell Kettle. Fã de Villa-Lobos, ele dedicou sua pesquisa de doutorado, produzida na Rússia, a analisar "Magdalena". Regente e diretor artístico da Sinfonieta e da Academia de Ópera e Repertório da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o músico conduziu uma grande apresentação em comemoração aos 130 anos de nascimento do compositor carioca, em 2017, no Teatro Luiz Mendonça.

"Villa-Lobos é o grande responsável por tornar a música erudita brasileira conhecida internacionalmente. Ele deixou uma série de obras muito significativas, como as Bachianas, que hoje são famosas no mundo inteiro, mais ainda do que as sinfonias que ele compôs", comenta Wendell. O reconhecimento internacional levou o músico a receber o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Nova Iorque e, em 1940, a aparecer em uma cena da famosa animação "Alô, amigos", contracenando com o próprio Walt Disney.



Para José Renato Accioly, maestro da Orquestra de Câmara de Pernambuco (OCPE), Villa-Lobos colocou a alma brasileira na música clássica. No mês de julho, durante o Festival de Inverno de Garanhuns, a OCPE se uniu à soprano Carmen Monarcha para homenagear o compositor carioca, interpretando trechos de algumas de suas obras mais famosas. A apresentação foi repetida em agosto, na celebração de 89 anos do Conservatório Pernambucano de Música.

"No início do século, seria muito difícil ouvir algo das raízes brasileiras em uma sala de concerto, até mesmo dentro do país. O que o Villa fez? Ele trouxe as nossas melodias, ritmos e harmonias para dentro desses lugares. Isso era uma coisa que já acontecia em outros países, mas por aqui não. Ele fez isso para que a gente conseguisse se reconhecer na música erudita. Chegou a criar uma canção de parabéns, para fazer a gente criar uma identidade até nos cantos mais simples, inclusive numa comemoração de aniversário", aponta Accioly. Vale lembrar que o compositor integrou, em 1922, a Semana de Arte Moderna, cujo pensamento de "antropofagia cultural" casava perfeitamente com o que ele experimentava em sua música.

A educação foi outro aspecto intensamente trabalhado por Villa-Lobos. Durante o governo de Getúlio Vargas, ele se tornou diretor da Superintendência de Educação Musical e Artística (SEMA), criando um programa de educação musical nas escolas. A ideia era usar o canto orfeônico (canto coletivo amador) para ensinar às crianças algumas noções musicais básicas. "É muito interessante perceber que esse projeto tinha como principio a vivência musical acima de tudo, não só a teorização", observa Wendell Kettle.



O legado artístico continua inspirando novos artistas, como o grupo de balé do Aria Social, projeto social com sede em Piedade, Jaboatão dos Guararapes. Com o musical "Nosso Villa - Um musical Villa-Lobos", jovens alunos e ex-alunos da escola de dança e música já passaram por diversas cidades brasileiras e abocanharam alguns prêmios, como os da Associação de Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco (Apacepe) e o Prêmio do Público de Melhor Espetáculo do Ano, pelo Guia Folha de São Paulo, em 2014. "O aspecto mais importante do espetáculo é, justamente, levar até o público a obra e a história de um artista fundamental para entender a nossa história como país", defende Rosemary Oliveira, regente e diretora musical da peça.

Apesar de tantas reverências, músicos criticam a falta de cuidado com a memória de Villa-Lobos. "Na Rússia, os grandes compositores têm suas obras completamente editadas pelo governo. Aqui nós não temos isso. Infelizmente, o Museu Heitor Villa-Lobos trabalha de forma heroica em termos de preservação e divulgação, mas muitas das obras dele ainda estão manuscritas. Falta visão do poder público em relação à obra não só Villa-Lobos, mas de também de outros compositores importantes", lamenta Wendell.

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