Bong Joon Ho, diretor de "Parasita", foi o destaque do Oscar 2020
Bong Joon Ho, diretor de "Parasita", foi o destaque do Oscar 2020Foto: Richard Harbaugh / AMPAS / AFP

Entre tantas mudanças que ocorreram no Oscar nos últimos anos, uma foi menos comentada: a alteração do nome da categoria filme estrangeiro para filme internacional. Parece uma troca simples, mas na verdade caracteriza uma transformação na forma como a Academia de Hollywood observa o mercado do cinema além de suas fronteiras.

O cineasta Bong Joon Ho chamou a atenção para essa mudança quando começou seu discurso ao receber o Oscar de filme internacional, com ‘Parasita’. ‘Apoio o que essa mudança simboliza’, disse Bong, que falou em coreano, com a ajuda de uma tradutora. Ao fim, disparou em inglês: ‘I’m ready to drink now’ (estou pronto para beber agora).

Bong, que já tinha conquistado o Oscar de roteiro original, subiria ao palco outras duas vezes: para receber a estatueta de melhor diretor e também o maior prêmio da noite, melhor filme. “Depois de ganhar o Oscar de filme internacional, achei que minha noite tinha terminado. Estava pronto para relaxar”, disse, ao receber a estatueta de melhor diretor.

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“Quando eu era jovem e estudava cinema, estudava Scorsese. Só de ser nomeado junto a ele foi uma honra. Não achava que ia ganhar. Quando as pessoas dos Estados Unidos não eram familiares ao meu trabalho, Quentin [Tarantino] sempre colocava meus filmes em suas listas. Quentin, eu te amo. Todd [Phillips], Sam [Mendes], admiro vocês. Se a academia permitir, gostaria de pegar uma serra elétrica e dividir a estatueta com vocês”, disse o diretor, elogiando os outros cineastas que disputavam na categoria.

A conquista do prêmio de melhor filme sinaliza que Hollywood passa a enxergar que existe cinema de excelente qualidade sendo feito em outros países – um pensamento que é óbvio mas que, pela maneira como a cerimônia ocorria em edições anteriores, através dos filmes indicados e premiados, parecia ser ignorado. A vitória de ‘Parasita’, então, é uma conquista, sim, do cinema sul-coreano, mas também das cinematografias de países que não desfrutam de certa visibilidade internacional. O filme venceu em quatro das seis categorias que disputou.

Brasil
Uma das expectativas em torno desta edição do Oscar era a participação do filme brasileiro ‘Democracia em vertigem’, que disputou na categoria documentário. O filme chegou ao Oscar e foi elogiado e criticado de maneira ampla e emocional.

Bolsonaro criticou e revelou não ter visto; Pedro Bial chamou o documentário de uma “ficção alucinante”; Chico Buarque disse que “o filme, para além de seus méritos cinematográficos, que são muitos, tem um grande valor histórico. A diretora Petra Costa soube captar, no calor da hora, com sensibilidade, com senso de oportunidade, os bastidores da cena política”.

No fim das contas, ‘Democracia em vertigem’ perdeu para o filme ‘Indústria americana’ (ambos estão no catálogo da Netflix). Quem subiu ao palco para receber a estatueta foi uma das diretoras do longa, Julia Reichert.

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“Antes de abrir esse envelope, já me emociono só de estar perto de pessoas que arriscam suas vidas para trazer histórias. Sobre o Brasil, sobre a Macedônia, sobre a Síria. Somos inspirados por vocês”, disse Julia. “Nosso filme é sobre Ohio, sobre a China, mas podia ser sobre qualquer lugar onde pessoas colocam uniformes e batem cartão. Acreditamos que as coisas vão melhorar quando os trabalhadores do mundo se unirem”, concluiu.

Antes da cerimônia, ainda no tapete vermelho, Petra Costa, diretora de ‘Democracia em vertigem’, falou sobre a maneira como seu filme reflete suas percepções sobre as mudanças recentes na política brasileira.

“O filme é uma carta de amor ao Brasil, ao país que eu cresci, tendo a democracia como uma coisa certa. Meus pais participaram da luta para chegarmos na democracia. Foi muito triste ver o que está acontecendo. Eu acredito que isso não é da alma brasileira, a gente é um povo que consegue lidar com as diferenças. Esse ódio não é nosso. A gente pode se curar disso. Eu acho que a cura do brasil depende do voto de cada um, não aguento mais o povo falando que político é tudo. É assim que se perpetuam as desigualdades”, disse a diretora.

Atores
Em uma noite em que os discursos não pareciam tão inspirados, talvez pela própria dinâmica do Oscar, que vem tentando diminuir sua gigantesca duração (neste ano, assim no anterior, passou das três horas), os melhores momentos vieram nos discursos de melhor ator e atriz.

Renée Zellweger, que interpretou a atriz, cantora, dançarina Judy Garland no filme “Judy: Muito Além do Arco-Íris”, falou sobre a importância dos heróis. “Esse último ano, conversando tanto sobre Judy Garland, e sobre gênero, acho que é uma lembrança que nossos heróis nos unem, nos inspiram, definem o melhor em nós. Quando olhamos para os heróis, concordamos. E isso importa. Vênus, Serena, Bob Dylan, Scorsese, quando celebramos nossos heróis, somos lembrados de quem somos, como uma pessoa, unidos. Tenho certeza que esse momento é uma extensão do legado de Judy Garland, o legado dela, única, transcende todos”, disse a atriz.

Joaquin Phoenix recebeu o prêmio de melhor ator por seu trabalho em ‘Coringa’, reforçando seu amplo favoritismo. Ao subir ao palco, Joaquin se emocionou ao fazer um impactante relato sobre questões que o acompanham nos últimos tempos.

“Me sinto muito grato”, disse. “Não me sinto acima dos atores que disputaram comigo, e de ninguém aqui, porque compartilhamos o amor ao cinema. Essa forma de expressão me deu uma vida extraordinária. Não sei o que faria sem isso. O maior presente que o cinema me deu foi a oportunidade de usar minha voz em nome daqueles que não têm”, disse o ator.

“Tenho pensado bastante sobre alguns problemas frustrantes que estamos encarando coletivamente. Às vezes sinto, ou nos fazem sentir, que defendemos causas diferentes, mas acho que são causas comuns a todos. Seja se estivermos falando sobre gênero, desigualdade, racismo, direitos LGBT, indígena, animal. Estamos falando sobre a luta contra injustiça, sobre o direito de um explorar o outro com impunidade. Acho que nos desconectamos com o mundo natural. A crença que somos o centro do universo nos faz acabar com os recursos. Acho que nos desconectamos com o mundo natural. A crença que somos o centro do universo nos faz acabar com os recursos”, continuou.

“Achamos que temos que sacrificar as coisas, mas humanos são tão criativos. Se usarmos o amor e a compaixão conseguimos melhorar esse sistema. Já fui egoísta, cruel, difícil de trabalhar. Mas sou grato por tantos aqui terem me dado uma segunda chance. Quando nos ajudamos, nos educamos, guiamos para um caminho melhor. Isso é o melhor para a humanidade. Quando tinha 17 anos, meu irmão [o ator River Phoenix, que morreu aos 23 anos] escreveu: ‘Run to the rescue with love, and peace will follow’ (‘Corra para o resgate com amor, e a paz vai seguir’)”, concluiu.

Curiosidades
Esta edição não teve um apresentador fixo, como no ano passado, o que fez aumentar a rotatividade de estrelas do cinema chamando os diversos segmentos. Dessa forma, a cerimônia perde uma espécie de unidade, um senso de estilo, que, goste ou não, tinha com apresentadores como Chris Rock (2016) e Jimmy Kimmel (2017 e 2018).

Assim, a cerimônia acabou alternando momentos bons e outros esquecíveis. Entre os bons momentos esteve a participação dos comediantes Julia Louis-Dreyfus e Will Ferrell na apresentação das categorias fotografia e edição. Na primeira (vencida por Roger Deakins, de ‘1917’), eles brincaram com a maneira como os cinematografistas não costumam ser reconhecidos por seus trabalhos.

Em seguida, para criticar a maneira como a edição pode afetar um filme, Louis-Dreyfus brincou que estava em ‘Parasita’ (e foi cortada!) e Ferrell comentou como o nome original do filme era na verdade ‘Ford vs Ferrari vs Ferrell’. O Oscar de edição foi justamente para 'Ford vs Ferrari'.

Homenagens
Steven Spielberg apresentou a parte em que a Academia presta homenagens aos que se foram. Ao som de ‘Yesterday’, cantada por Billie Eilish, foram lembrados nomes como o atleta Kobe Bryant, o diretor Terry Jones, a diretora Agnès Varda, as atrizes Anna Karina, Bibi Anderson e Doris Day, os atores Rutger Hauer e Peter Fonda. O ator Kirk doulgas, um dos nomes mais importantes da história do cinema norte-americano, foi o último nome a aparecer na tela.

Confira a lista completa dos vencedores do Oscar 2020

Filme
"Parasita" (vencedor)
"Ford vs Ferrari"
"O irlandês"
"Jojo Rabbit"
"Coringa"
"Adoráveis mulheres"
"História de um casamento"
"1917"
"Era uma vez em... Hollywood"

Ator
Antonio Banderas - "Dor e Glória"
Leonardo DiCaprio - "Era uma vez em... Hollywood"
Adam Driver - "História de um casamento"
Joaquim Phoenix - "Coringa" (vencedor)
Jonathan Price - "Dois papas"

Atriz
Cynthia Erivo - “Harriet”
Scarlett Johansson - “História de um casamento”
Saoirse Ronan - “Adoráveis Mulheres”
Charlize Theron - “O escândalo”
Renée Zellweger - "Judy: Muito Além do Arco-Íris" (vencedor)

Diretor
Martin Scorsese - "O irlandês"
Todd Phillips - "Coringa"
Sam Mendes - "1917"
Quentin Tarantino - "Era uma vez em... Hollywood"
Bong Joon Ho - "Parasita" (vencedor)

Atriz coadjuvante
Kathy Bates - "O caso Richard Jewell"
Laura Dern - "História de um casamento" (vencedora)
Scarlett Johansson - "Jojo Rabbit"
Florence Pugh - "Adoráveis mulheres"
Margot Robbie - "O escândalo"

Ator coadjuvante
Tom Hanks - "Um lindo dia na vizinhança"
Anthony Hopkins - "Dois papas"
Al Pacino - "O irlandês"
Joe Pesci - "O irlandês"
Brad Pitt - "Era uma vez em... Hollywood" (vencedor)

Roteiro adaptado

"O irlandês" - Steven Zaillian
"Jojo rabbit" - Taika Waititi (vencedor)
"Coringa" - Todd Phillips e Scott Silver
"Adoráveis mulheres" - Greta Gerwig
"Dois papas" - Anthony McCarten

Roteiro original
"Entre facas e segredos" - Rian Johnson
"História de um casamento" - Noah Baumbach
"1917" - Sam mendes e Krysty Wilson-Cairns
"Era uma vez em... Hollywood" - Quentin Tarantino
"Parasita" - Bong jooh Ho e Han Jin Won (vencedor)

Documentário

"Indústria americana" (vencedor)
"The cave"
"Democracia em vertigem"
"For Sama"
"Honeyland"

Edição
"Ford vs Ferrari" (vencedor)

"O irlandês"
"Jojo rabbit"
"Coringa"
"Parasita"

Fotografia
"O irlandês"
"Coringa"
"O farol"
"1917" (vencedor)
"Era uma vez em... Hollywood"

Maquiagem e cabelo
"O escândalo" (vencedor)

"Coringa"
"Judy: Muito além do arco-íris"
"1917"
"Malévola: Dona do mal"

Mixagem de som
"Ad astra - Rumo às Estrelas"
"Ford vs Ferrari"
"Coringa"
"1917" (vencedor)
"Era uma vez em... Hollywood"

Edição de som
"Ford vs ferrari"
"Coringa"
"1917" (vencedor)
"Era uma vez em... Hollywood"
"Star Wars: A ascensão Skywalker"

Curta-metragem
“Brotherhood”
“Nefta football club”
“The neighbors’ window” (vencedor)
“Saria”
“A sister”

Figurino
“O irlandês”
“Jojo rabbit”
“Coringa”
“Adoráveis Mulheres” (vencedor)
“Era uma vez em… Hollywood”

Canção original
“I can’t let you throw yourself away” - “Toy Story 4” - Randy Newman
“(I’m gonna) love me again” - “Rocketman” - Elton John e Bernie Taupin (vencedor)
“I’m standing with you” - “Breakthrough” - Diane Warren
“Into the unknown” - “Frozen 2” - Kristen Anderson-Lopez e Robert Loopez
“Stand up” - “Harriet” - Joshuan Brian Campbell e Cynthia Erivo

Trilha original
"Coringa" - Hildur Guadnotóttir (vencedora)

"Adoráveis mulheres" - Alexandre Desplat
"História de um casamento" - Randy Newman
"1917" - Thomas Newman
"Star Wars: A ascensão Skywalker" - John Williams

Animação
"Como treinar seu dragão 3"
"Perdi meu corpo"
"Klaus"
"Link perdido"
"Toy story 4" (vencedor)

Curta de animação
"Dcera (daughter)"
"Hair love" (vencedor)
"Kitbull"
"Memorable"
"Sister"

Curta documentário
"In the absence
"Learning to skateboard in a warzone" (vencedor)
"Life overtakes me"
"St Louis Superman"
"Walk run cha-cha"

Filme internacional
"Corpus christi" - Polônia
"Honeyland" - Macedônia do Norte
"Os miseráveis" - França
"Dor e glória" - Espanha
"Parasita" - Coreia do Sul (vencedor)

Design de produção
"O irlandês"
"Jojo Rabbit"
"1917"
"Era uma vez... em Hollywood" (vencedor)
"Parasita"

Efeitos visuais
"Vingadores: Ultimato"
"O irlandês"
"O rei leão"
"1917" (vencedor)
"Star Wars: A ascensão Skywalker"

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