Alexandre começou a publicar histórias em quadrinhos em 1998
Alexandre começou a publicar histórias em quadrinhos em 1998Foto: Amana Salles/Divulgação

 

O movimento expressionista alemão no cinema, nas primeiras décadas do século 20, gerou filmes intrigantes e visualmente desafiadores que ainda hoje influenciam a criação artística. Eram obras que - através do preto e branco, recursos de fotografia, cenários e perspectivas - expressavam perturbações e refletiam sobre sentimentos e loucura de forma fascinante. Um dos principais filmes dessa época foi “O gabinete do doutor Caligari” (1920), do diretor Robert Wiene.

O filme ganha uma interessante adaptação feita pelo artista Alexandre Teles, que lança o quadrinho “Caligari!”, pela editora Veneta. A HQ recorre ao filme como inspiração e homenagem, recriando em imagens detalhadas e misteriosas o ambiente sinistro do filme alemão. A história permanece a mesma, o que chama a atenção são o olhar e a interpretação de Alexandre, que refaz o percurso de Robert Wiene com precisão. O enredo trata das ações suspeitas do Doutor Caligari e do sonâmbulo Cesare, que chegam a um vilarejo alemão.

“Já havia visto o filme, mas em 2003, quando trabalhei como maquiador e aderecista do grupo de teatro Canhoto Laboratório de Artes da Representação (que tinha como estética principal de referência o teatro expressionista alemão), comecei de fato a conviver com o filme”, diz Alexandre. “Fiz frames de ‘O gabinete do doutor Caligari’ por ser um magnífico laboratório de estudos de luz e sombra. Fiz um quadro, depois outro, então uma cena inteira. Optei por representar os gestos dos atores, recontar a história e, por fim, adaptá-la”, detalha o artista.

As imagens são resultado de processos e técnicas de impressão. “Desde 2005 fiz parte do ateliê coletivo Prensa, onde desenvolvia meu trabalho de gravura. Em 2010, estava trabalhando com calcogravura à maneira negra. O processo consiste na abertura de sulcos em uma chapa de cobre com uso de uma ferramenta chamada berceaux, para conseguir na impressão uma textura homogênea preta e em seguida, com o uso de um brunidor, polir a chapa onde se quer o branco”, explica Alexandre.

“Por se tratar de um processo lento e trabalhoso, após conversas com outros artistas gráficos, percebi que chegaria num resultado semelhante ao que eu almejava com a gravura por meio da monotipia - método de impressão com tiragem única, que à maneira negra não necessita a gravação na chapa de fato, mas apenas a remoção da tinta preta aplicada na superfície, com o uso de hastes flexíveis com pontas de algodão, tecidos, palitos”, detalha.

Trajetória
Alexandre começou a publicar histórias em quadrinhos em 1998, no fanzine Sociedade Radioativa. “Fiz algumas histórias de humor e então comecei a priorizar as experimentações gráficas e narrativas. Em 2008, publiquei de forma independente o fanzine ‘A barca dos loucos’, no qual os textos eram criados a partir das imagens. Em 2011, seguindo esse mesmo critério, publiquei pela Editora Balão o livro ‘O.’”, diz.

“Caligari!” é uma peça experimental que ao mesmo tempo em que aproxima as linguagens do cinema e dos quadrinhos presta homenagens a um clássico. “Eu me voltei novamente para a experimentação gráfica, tentando encontrar um espaço comum entre as histórias em quadrinhos, o cinema, a fotografia e as artes plásticas, o lugar da arte sequencial”, ressalta.

 

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