O roteirista Alexey Dodsworth descobriu que é descendente de Branca Dias
O roteirista Alexey Dodsworth descobriu que é descendente de Branca DiasFoto: Jose Britto/Folha de Pernambuco

Branca Dias é uma das personagens que povoam o rico universo fantasmagórico pernambucano. Diz a lenda que o espírito da judia portuguesa, julgada e condenada à morte pela inquisição católica, sempre reaparece no Açude do Prata, em noites de lua cheia. Mas, para além do mito, a senhora de engenho é considerada uma heroína do povo judeu. É misturando realidade e fantasia que a revista em quadrinhos "A máscara da morte branca", lançada pela editora Draco (R$ 11,90), resgata uma figura histórica repleta de mistérios.

O interesse por transformar a saga de Branca Dias surgiu quando o baiano Alexey Dodsworth, roteirista da obra, descobriu ser descendente da lendária mulher. Ao digitar nome de sua trisavó paterna em uma plataforma online de árvores genealógicas, ele chegou até Branca e seu esposo, Diogo Fernandes, separados dele por quinze gerações. A informação fez o escritor se interessar por pesquisar mais sobre a história do casal. "Até então, eles eram para mim apenas parte de uma lenda. Depois disso, soube até que o governo de Portugal concede cidadania para quem conseguir comprovar que descende deles. Existem, inclusive, grupos e mais grupos de pessoas fazendo essa investigação", aponta.

Com base em registros históricos e estudos realizados por pesquisadores como Cândido Pinheiro Koren de Lima, Alexey reuniu dados pouco divulgados sobre o passado de Branca. "Ela foi a primeira professora de meninas do Brasil. Também fundou a primeira sinagoga do país, que funcionava de forma secreta, em Olinda. Apesar de tudo isso, é triste como não há nomes de ruas, bustos ou outras homenagens a ela", comenta o autor, que separou as últimas páginas do livro para reunir uma pesquisa resumida sobre a personagem.

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A intenção do roteirista é espalhar o conhecimento sobre a luta de Branca. "Uma história como essa tem que ser contada. Costumo dizer que o quadrinho é a porta de entrada para leituras mais profundas. Se um adolescente ler esse material, ele já vai saber quem Branca foi e pode se interessar por saber mais sobre ela", explica. Em preto e branco, os desenhos são assinados por Isaque Sagara.

A genealogia de Branca Dias é um aspecto importante dentro da narrativa criada por Alexey. "Durante 300 anos, mentiram dizendo que ela não deixou descendentes. Foi uma falsificação histórica para proteger filhos, netos e bisnetos dela, porque a inquisição foi tão virulenta que perseguiu toda a linhagem de Branca até o século 18, apesar dela ter morrido no século 16", afirma. Depois de passar pela Comic Con Experience, em São Paulo, onde todas as edições disponíveis foram vendidas, a HQ será lançada neste sábado, às 17h, no Museu da Cidade do Recife.

Dividida em dois tempos, a história imagina o Brasil de 2022, onde o fantasma da heroína desperta. O contexto atual brasileiro surge como pano de fundo da trama, em paralelo ao período colonial vivido pela protagonista. Alexey não se esquiva do teor político de sua obra, estampado nas cenas em que o espírito de Branca adentra o Palácio da Alvorada em busca de vingança. "A gente está vivendo uma época de recrudescimento. Vivemos em um país onde as pessoas se sentem autorizadas a depredar terreiros de candomblé e alunos são instruídos a filmar o que seus professores dizem em sala de aula. Temos uma nova inquisição, que expõe as pessoas a situações humilhantes", lamenta.

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