Queijo de castanha de caju é leveza na opção de entrada
Queijo de castanha de caju é leveza na opção de entradaFoto: Ed Machado/Folha de Pernambuco

Já foi o tempo em que o caju era apenas aquele do gosto travoso. O culpado pela nódoa cruel deixada na roupa. Ou aquele tira-gosto rançoso para servir só com cachaça. Hoje, ele é mais. Soma o repertório polêmico ao protagonismo comum de um item em tempos de safra, quando aparece vistoso, perfumado e nutritivo entre os meses de julho e novembro. Época para lembrar que a gastronomia nacional tem nas mãos um produto genuinamente brasileiro com força para atender qualquer demanda na cozinha.

A começar pelo fato intrigante de que o caju não é uma fruta propriamente dita. Mas tudo nele se aproveita. É que esse título oficial vai para a castanha, sustentada por uma espécie de pedúnculo inchado e carnudo, popularmente consumido como se fosse uma opção no estilo de maçã, pêra ou banana. No entanto, mesmo com essa parte robusta, que varia entre amarelo e vermelho, recebendo o nome de pseudofruto, em nada ela tem seu valor desmerecido ao longo do tempo.

No livro História da Alimentação do Brasil, Câmara Cascudo diz que esse era um dos alimentos mais importantes dos indígenas, muito antes de os portugueses pisarem por aqui, sendo a castanha uma espécie de marcadora dos anos com referência no período de floração dos cajueiros. “Portanto, em cada ano, guardavam uma castanha da fruta em uma cabaça, sabendo assim a quantidade de anos já vividos. Daí veio a sinonímia popular para caju igual a ano”, diz um trecho da publicação. Só então no século XVI, os colonizadores levaram a planta, seu fruto e a haste paras as colônias na Ásia e na África, popularizando ainda mais o produto até o que se vê nos dias de hoje.

De acordo com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a região Nordeste, com destaque para o Ceará, atende mais de 90% da produção nacional, além de exportar para lugares como Canadá e Estados Unidos. No Centro de Abastecimento e Logística de Pernambuco (Ceasa), o quilo do caju sai, em média, a R$ 3 neste período.

Nutritivo 

Mas a protagonista dos próximos meses ganha méritos que vão além da aparência vibrante nesta época do ano. É rica em fibras, vitaminas, potássio e proteínas, além de carboidrato e aminoácidos. Segundo a nutricionista Juliana Neves, um verdadeiro combo de propriedades úteis ao bom funcionamento do corpo. “Como vitamina C e do complexo B, somados a minerais importantes para a manutenção da saúde, como cálcio, cobre, ferro, magnésio, zinco e fósforo, que melhoram a aparência da pele por auxiliar na produção da melanina”, resume. Graças a presença do zinco, ele também ajuda a fortalecer o sistema imunológico e protege o corpo de problemas mais simples, como gripes ou resfriados. “Sem falar que é uma ótima opção aos diabéticos, por conta da baixa quantidade de açúcar”, completa.

É tempo de caju

É tempo de caju - Crédito: Ed Machado/Folha de Pernambuco

Quando os benefícios parecem suficientes para um produto só, a nutricionista ainda lembra que seu teor de magnésio ajuda a melhorar o sistema nervoso e auxilia na produção da dopamina, que é capaz de amenizar os efeitos da TPM por conta do seu efeito relaxante no corpo. O cuidado, no entanto, vai para quem tem doenças gastrointestinais, que podem sofrer com os efeitos da casca rija e seu demorado tempo de digestão.


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   Na mesa, o alimento completo

Você pode não ser fã do caju, mas, certamente, tem várias lembranças afetivas relacionadas a ele. Compota, passa cristalizada e até cajuzinho de festa surgem de pronto na memória dos mais velhos. Isso sem falar no suco gelado, feito da polpa carnuda, como clássico de todo verão. Época em que licores e drinques à base de vodca ou cachaça também destacam a parte mais fibrosa na receita. O Ursa bar, na Zona Norte do Recife, por exemplo, faz a mistura com gin, citrus mix, tônica e hortelã. Tudo para controlar o tanino adstringente do pseudofruto e facilitar os bons goles.

“Mas ele vai além. Se você olhar para a história, verá que, por décadas, serviu como proteína principal. A minha mãe fazia bife de caju sem a gente saber o que era. Ela aprendeu isso com minha avó e assim sucessivamente. Então, quantas receitas não existem à base da ‘fruta brasileira’?”, explica o chef do Oleiro Cozinha Artesanal, Claudemir Barros, com a expertise de quem já criou um ossobuco vegetariano com base de caju, fazendo dele a referência regional perfeita para o intercâmbio com outras cozinhas.

Já para o chef Carlos Vinícius Campos, a castanha é produto tão versátil quanto a polpa, indo além da preparação de farinhas e leites. Razão para ele sugerir um queijo de castanha de caju, acompanhado de geleia de tomate e pimentão pelado, servido como uma pedida marcante de entrada. “Embora goste muito, não é um produto que eu use tanto quanto gostaria. Mesmo polêmico, vale aproveitá-lo de diversas formas e condições”, diz o chef. Na culinária em geral, quanto mais ácida a polpa, mais apropriada para pratos salgados, enquanto o inverso é ótimo para fazer sobremesas.


Vegano, sim!

A carne do caju é uma velha conhecida dos veganos. A textura fibrosa, semelhante a qualquer outra carne, faz desse ingrediente a queridinha de quem aboliu a proteína de origem animal do cardápio. É, inclusive, a opção mais procurada por quem está na etapa de transição e ainda busca referências antigas no paladar. Eis que surgem coxinha, moqueca e até hambúrguer com a pseudofruta desta estação.

Cajuína com status

Há quatro anos, o Iphan junto à Unesco incluiu no seu Livro de Registro dos Saberes a produção tradicional e as práticas socioculturais associadas à cajuína no Piauí. Na prática, significa que a forma como a bebida é feita se trata de um trabalho tombado. Isso garante que o líquido doce, tradicionalíssimo pelas bandas de lá, perpetue suas características de cor e sabor ao longo do tempo. Quem não teve a chance de provar, ela é uma bebida elaborada com o suco clarificado do caju, cozido em banho-maria. A produção original não leva álcool ou açúcar.

 

Queijo de castanha de caju é leveza na opção de entrada
Queijo de castanha de caju é leveza na opção de entradaFoto: Ed Machado/Folha de Pernambuco
Castanha é produto versátil
Castanha é produto versátilFoto: Ed Machado/Folha de Pernambuco

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