Lígia Câmara, da Lígia Tortas
Lígia Câmara, da Lígia TortasFoto: Alfeu Tavares/Folha de Pernambuco

A imagem da cozinheira que inspira homens a virarem chefs renomados ou empresários de gastronomia bem-sucedidos está mudando de leiaute. Ela agora é a protagonista dessa história. Não deixa de produzir as receitas que ninguém resiste, mas divide essa função com o desafio de gerir o próprio negócio. Coloca uma mão na massa e a outra na pilha de documentos e faz a gestão seguir adiante sem medo de errar. E como acertam. Tanto que são inúmeras as empreendedoras a lançar mão de um cardápio que vai à mesa com a mensagem subentendida do empoderamento.

Quem experimenta a grife de bolos Lígia Tortas, por exemplo, nem imagina que, ao longo dessas duas décadas de mercado, a confeiteira responsável pela marca quase não se desligou um dia sequer da produção. Repassa e acompanha as suas receitas originais para a equipe de boleiras seguir o padrão que colocou na preferência dos clientes verdadeiros campeões de venda. São os bolos brownie, generosamente cobertos de chocolate, e de laranja, com calda de açúcar caramelizado por cima. Eles saem aos montes por encomenda no seu ateliê montado no bairro de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes. “Para chegar até aqui, não tive o que escolher. Sou eu quem abre e fecha a empresa todos os dias, mas também sou eu quem lida com o coração desse trabalho, que é a cozinha”, diz Lígia Câmara, antes de sinalizar o que aprendeu desde quando o termo empreendedorismo feminino era algo incomum. “É preciso força de vontade, engajamento e jogo de cintura em tudo o que faz”, completa.

De acordo com dados nacionais do Sebrae, ano passado eram quase oito milhões de mulheres empreendedoras no Brasil, distribuídas em diferentes mercados. No que diz respeito ao ramo da alimentação, muitas preservaram as aptidões operacionais pelo prazer no trabalho artesanal e o talento reconhecido em executar as receitas. “Mas essa mulher, assim como qualquer empresário que fica na linha de frente da operação, confeccionando o produto, tem que ter o seu tempo para fazer marketing e gestão financeira, por exemplo”, sugere o analista Danilo Lopez.

Hoje, em um ambiente onde a maioria ainda é formada por homens, lá seguem elas. Circulam pelo salão do restaurante, chefiam a brigada de cozinha e recebem os clientes, numa clara demonstração de que fragilidade e instabilidade são rótulos ultrapassados. É matar um leão por dia. A chef de culinária natural Manu Tenório, à frente de um café com seu nome em Boa Viagem, na Zona Sul do Recife, confirma que o cenário vem mudando em meio aos esforços sempre vinculados à boa gastronomia. “Minha equipe tem apenas três homens e as mulheres também são maioria entre os clientes - representam 90%. Ainda mais por se tratar de um lugar voltado para um tema que interessa muito a elas, que é a alimentação saudável”, afirma.

Quando precisa reformular o cardápio, Manu se dedica quase que exclusivamente aos afazeres culinários. Não deixa de executar as receitas até tudo ficar tinindo. Assim que a equipe ganha segurança, volta a percorrer as outras áreas da sua cafeteria-bistrô, e o salão é uma delas. Entre as pedidas que mais vê chegar às mesas, a salada com nuts fornece a leveza que toda mãe, empresária e gourmet em geral adora ver no mesmo prato. Leva mix de alface, cenoura, beterraba, queijo de cabra, uva passa e nuts caramelizados da casa (R$ 32).

   Muito além da cozinha

Quando o assunto é confeitaria, vincular a imagem afetiva de bolos, tortas e outros doces dos tempos da vovó a um contexto profissional é o mesmo que trabalhar duas vezes. Por isso, as sócias Paula Ardanza e Joanna Alexandre cercaram a Cake & Bake, instalada no Shopping Recife, de cuidados operacionais que deixam a marca com uma linguagem universal e não uma ‘casa de meninas’. “Queríamos preservar a mensagem artesanal, sem abrir mão de ser algo profissional. Então, cuidamos de toda parte operacional, desde a execução de ficha técnica das receitas até a decoração do espaço, que fugisse da criação de gêneros”, diz Paula. O resultado é um cardápio de sabores democráticos que remetem à infância, mas recebem acabamento de gente grande, no estilo naked.

Mulheres empreendedoras

Mulheres empreendedoras - Crédito: Ed Machado/Folha de Pernambuco

Ao fugirem de qualquer rótulo, elas conseguiram dialogar com um público heterogêneo e driblar aquele olhar curioso sobre duas mulheres coordenando a própria empresa. “É algo tão livre, que os clientes quase não nos identificam como donas”, completa Joanna. Para as duas, a vantagem de comandar tudo isso, sem a clássica figura de um homem envolvida - sim, a equipe é toda feminina - está na sensibilidade nata de criar e interagir com as pessoas envolvidas.

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Já para a barista Natália Valença, à frente do Café com Dengo, na Zona Norte do Recife, ouvir de uma cliente um: “você, tão novinha, toca tudo isso sozinha?”, é a deixa perfeita para uma resposta elegante de quem há três anos lidera o projeto do jeito que sempre sonhou. Mesmo que a sociedade ainda “cobre” a presença de um marido ou namorado na administração, Natália tira de letra qualquer atividade dentro da cafeteria, a começar pelo lado mais importante do seu segmento: a especialização como barista. “Esse é um setor em que elas seguem muito unidas, trocando informações de mercado. Tanto que grandes baristas no Brasil são mulheres”, aponta.

Para a cliente com TPM, que procura uma sobremesa para chamar de sua, e o executivo apressado para provar algo na hora do almoço, o discurso de Natália começa na porta. “Tem a ver com afeto. E isso a gente sabe passar tão bem. Ainda mais com o talento de sermos múltiplas, de acumular tarefas como ninguém e de sermos reconhecidas por tudo isso ao mesmo tempo”, diz.

Lígia Câmara, da Lígia Tortas
Lígia Câmara, da Lígia TortasFoto: Alfeu Tavares/Folha de Pernambuco
Com a mão na massa
Com a mão na massaFoto: Ed Machado/Folha de Pernambuco

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