A procura por  espumantes com uva orgânica  aumentou 30%  nos primeiros seis meses deste ano
A procura por espumantes com uva orgânica aumentou 30% nos primeiros seis meses deste anoFoto: Ed Machado/Folha de Pernambuco

Assim como o setor de alimentos artesanais e orgânicos ganha seu espaço na vida das pessoas, o mercado de vinhos com esse mesmo conceito de sustentabilidade cresce em todo o mundo. Para se ter uma ideia, os rótulos feitos a partir da uva orgânica, que você conhecerá ao longo desta reportagem, representam cerca de 2,8% do mercado mundial, cuja comercialização cresceu em média 20% nos últimos cinco anos, segundo dados da empresa de pesquisa Wine Intelligence.

As opções estão nos empórios especializados, nas cartas dos restaurantes e, finalmente, na adega de casa. Quem ainda não se deparou com uma garrafa dessas, é questão de tempo. Só precisa abrir os olhos para o que diferencia em outras classificações ainda inéditas para muita gente. São os chamados vinhos biodinâmicos e naturais, que também pregam por menos impacto ambiental e mais autenticidade da bebida.


Quando a uva é orgânica
A preocupação está no cultivo da uva, quando o agricultor utiliza a­pe­nas produtos naturais para comba­ter as pragas, ficando longe de pes­ticidas, fertilizantes e outros componentes químicos utilizados na lavoura. Com o solo preservado, as videiras crescem sem a intoxicação de fungicidas que esses fabrican­tes acreditam acompanhar toda a cadeia, quando a produção é tradicional.

Segundo a sommelière Fabiana Gonçalves, muitos produtores já utilizam essa prática em todo o mundo, “mas seus vinhos muitos vezes vêm sem atestado, pois a certificação em qualquer País envolve burocracia e altos custos”, resume, lembrando que no mercado nacional vale o selo “Produto Orgânico Brasil”. Nesse caso, uma certificadora credenciada pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) e Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro), assegura que a uva obedece às normas da produção orgânica. Há, contudo, algumas permissões em relação ao uso de antifúngico, conservantes e adição de leveduras específicas, que esquentam as discussões entre os mais puristas no assunto.

De acordo com a especialista em vinhos e gerente regional da Zahil Importadora, Rafaella Barros, regiões de clima úmido são as mais propensas a desenvolver pragas, facilitando assim a entrada de agrotóxicos. “Fora desse cenário, temos a Argentina, que já desenvolve um trabalho interessante de orgânicos, por conta do clima quente e seco, no entanto, poucas vinícolas apresentam a certificação específica, devido à burocracia”, afirma.

Na taça, é desafiador reconhecer as diferenças da bebida logo no primeiro gole. “Só conseguimos identificar uma ‘evolução’ no sabor comparando um mesmo vinho que era elaborado sem essas práticas com outro que passou a ser orgânico”, aponta Fabiana Gonçalves. Mas no geral, tende a oferecer pouca transparência por ser um produto com menor manipulação e, segundo a maioria dos enólogos, representa mais fielmente o seu terroir.

Biodinâmicos, orgânicos e naturais têm em comum a mensagem da sustentabilidade

Biodinâmicos, orgânicos e naturais têm em comum a mensagem da sustentabilidade - Crédito: Ed Machado/Folha de Pernambuco


E o biodinâmico?
Muito além das práticas agrícolas livres de agrotóxicos, aqui entra o conceito de que a natureza deve ser respeitada como um todo. Soou estranho? Pois imagine o vinhedo como um ser vivo, que se alimenta de compostos vegetais e minerais, mas também é diretamente influenciado pelas fases da lua, energias do sol e alinhamento dos planetas. Se eles são capazes de influenciar a tábua de marés e até pessoas, por que não interferir no equilíbrio do campo?

Assim defendem os produtores que seguem o conceito criado nos anos 1920, a partir de teorias levantadas pelo filósofo austríaco Rudolf Steiner. Fala de viticultura, mas também de técnicas agrícolas em um sistema interconectado por energia cósmica. O resultado disso, para os e­nólogos, é um produto de sa­bor per­sistente. “O selo de certifi­cação biodinâmica mais conhecido é internacional, concedido pelo Instituto Demeter. No Brasil, não há selo específico”, destaca Fabiana. Os produ­tores mundiais mais atuantes nes­se conceito são França, Itália, Espa­­nha e Alemanha. No Brasil, a viní­­­cola Don Giovanni, em Pinto Bandei­ra, na Serra Gaúcha, vem aderin­do ao manejo biodinâmico aos poucos.

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A vez dos naturais
Também no conceito ecológico, os vinhos naturais são ainda mais específicos. Eles preservam a produção orgânica e, na hora de transformar a uva em vinho, usam a menor quantidade possível de maquinário e de qualquer agente químico. A forma ancestral é tão valorizada neste caso, que a uva, normalmente nativa da região, é pisada manualmente e não macerada, como no processo industrial.

Segundo o vitivinicultor e conselheiro do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), Hélio Marchioro, os produtores brasileiros estão tentando fazer o ordenamento desses produtos de nomes distintos. “Não temos um cadastro diferenciado até agora. É um item que queremos fazer com o Ibravin. Saber quantos produzem vinhos, uvas e sucos de forma natural. O problema é que esses são bastante artesanais, e não existe hoje uma legislação que aceite um certificado, perante o Ministério da Agricultura, para os vinhos artesanais. Estamos lutando para encaixá-los como produtores”, diz.


Nicho de mercado
Na tendência mundial de consumir produtos com a lógica da segurança alimentar, a Wine South America 2019, principal evento do setor na América Latina, que acontece entre 25 e 27 de setembro, em Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha, anunciou que haverá área exclusiva para esses produtores este ano. “Pela primeira vez, teremos um salão dedicado ao tema e que, até o momento, tem quatro vinícolas do Sul confirmadas. Investimos nisso porque é um setor cujo comprador tem demandado bastante”, garante o diretor do evento, Marcos Milanez.

Ainda segundo ele, a diferença para os produtores convencionais está no fato de serem micro e pequenas empresas de contexto familiar. “A gente percebe que eles fazem o vinho com a mínima intervenção possível, sem a adição de agrotóxicos. Acaba que são um pouco mais caros do que as versões tradicionais”, diz, com a expectativa de quem receberá mais de 6 mil visitantes de vários países na feira.

Para Hélio Marchioro, o valor dos vinhos orgânicos e biodinâmicos chega a ser até 15% mais caro em relação aos rótulos comuns. “Se a uva for vinífera, colocar 20% a mais no produto não paga o custo de produção”, questiona. Isso acontece pela série de restrições dentro da vinícola e, principalmente, pela capacidade de produção. “Que numa uva convencional vinífera é de 10mil kg por hectare, enquanto eu (produtor de uva orgânica) consegui 1,2mil kg por hectare. Então, como eu pago essa diferença na ponta do mercado?”, conclui.

Seleção disponível no Epório Tia Dulce:

Haras de Pirque Houssonet blend
País: Chile | Vale del Maipo
Ano: 2016
Uva: Cabernet Sauvignon e Syrah
Tipo: Orgânico
Valor: R$ 108,90

Haras de Pirque Reserva de PropRiedade
País: Chile | Pirque
Ano: 2016
Uva: Cabernet Sauvignon, Carménère e Cabernet Franc
Tipo: Orgânico
Valor: R$ 89,90

Covela Rosé
País: Portugal | Minho
Ano: 2016
Uva: Touriga Nacional
Tipo: Orgânico
Valor: R$ 65,90

Querciabella Mongrana
País: Itália | Maremma
Ano: 2012
Uva: Sangiovese, Cabernet e Merlot
Tipo: Biodinâmico
Valor: R$ R$ 182,90

Terroir d’Effervescence
País: Brasil | Serra Gaúcha
Ano: 2014
Uva: Chardonnay, Pinot Noir e Riesling Itálico
Tipo: Orgânico
Valor: R$ 74,90

Saiba mais:

Vinho orgânico não é o mesmo que vegano. Até poderia, mas nem sempre é. O primeiro caso diz respeito apenas à atenção com a uva. Quando ela está para se tornar vinho, existe a etapa chamada de clarificação capaz de deixar a bebida com aquele toque cristalino, quase transparente. Isso é é feito com o uso de uma proteína, que pode ser de origem vegetal ou animal.

No Vale do São Francisco, a vinícola Izaneti Bianchetti tem 12 hectares com seis variedades de uvas orgânicas. Mas outros terrenos, com produção familiar, utilizam o cultivo livre de agrotóxicos.

Em 2019, o Rio Grande do Sul já elaborou 42,9 mil litros de vinhos orgânicos e 628,4 mil litros de suco de uva desta categoria.

 

A procura por  espumantes com uva orgânica  aumentou 30%  nos primeiros seis meses deste ano
A procura por espumantes com uva orgânica aumentou 30% nos primeiros seis meses deste anoFoto: Ed Machado/Folha de Pernambuco
Feira Wine South America  2019 promete  um salão com os  vinhos ecológicos
Feira Wine South America 2019 promete um salão com os vinhos ecológicosFoto: Augusto Tomasi/divulgação
Rótulos no mercado
Rótulos no mercadoFoto: Ed Machado/Folha de Pernambuco

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