Cena do último episódio de 'Game of Thrones'
Cena do último episódio de 'Game of Thrones'Foto: HBO/Divulgação

O fim de 'Game of Thrones' veio com a grande responsabilidade de encerrar um projeto que, desde 2011, cativou fãs, gerou debates e se posicionou como uma peça fundamental da cultura pop dos anos 2010. O último episódio, exibido na noite desse domingo (19), concluiu as jornadas dos personagens principais se mantendo fiel (para o que há de bom e ruim) ao que apresentaram nos capítulos anteriores. [ALERTA SPOILER para quem não assistiu ao final].

Um dos principais arcos dramáticos desta temporada foi a transição de Daenerys: de uma mulher que lutava em nome dos oprimidos, libertando escravos das correntes de tiranos, para uma rainha capaz de qualquer atrocidade para chegar ao Trono de Ferro. Embora essa mudança tenha ocorrido de forma truncada e de certa forma brusca, foi uma transformação sugerida em outras temporadas - Daenerys sempre se mostrava impiedosa e cruel, uma rainha que matava ou exilava quem a questionasse.

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O momento em que Daenerys aparece diante de seus guerreiros, depois do massacre de Porto Real, é um instante forte e carregado de simbolismo. É o fim da transição de Daenerys para uma figura que ela parecia, em temporadas anteriores, querer combater. No instante que ela surge, o enquadramento preciso coloca as asas diabólicas do dragão em suas costas, um breve momento que parece indicar a vilania de uma personagem que se perdeu em sua busca por poder. Não apenas isso: o posicionamento de seu exército e a bandeira dos Targaryen erguida sobre as ruínas do castelo parecem sugerir conexões com registros visuais de outros regimes totalitários.

Em seu discurso de vitória, Daenerys fala sobre ir a outros lugares - Dorne, Winterfell - para "continuar libertando" a população. Esse comentário, feito em um cenário de fogo e cinzas, com uma população inocente dizimada e prédios destruídos, parece se relacionar de forma intrigante com a recente política externa de potências como os Estados Unidos, que nos anos 2000 declararam guerra ao Iraque com a justificativa de "libertar o povo". É uma forma sutil de sugerir a imensa loucura em torno da personagem, que se vê como salvadora, mesmo deixando um rastro impressionante de mortes e destruição, e de seus seguidores, que ignoram a carnificina e a repetição de tradições que ela supostamente pretendia combater.

Essa transformação de Daenerys indica uma forma interessante de debater regimes totalitários, governantes que chegam ao poder com a intenção de promover mudanças - 'quebrar a roda', nas palavras de Daenerys, se referindo ao sistema político da série -, mas que, na verdade, dão continuidade às injustiças vigentes. O problema em 'Game of Thrones' é a execução dessa ideia, a forma truncada como isso ocorre, a passividade de personagens importantes diante desse horror - Jon Snow, Tyrion -, a maneira acelerada e mal acabada como essa proposta é organizada.

Em termos de lideranças femininas fortes, Sansa e Arya não tiveram o espaço que mereciam no fim da trama, mas as conclusões de suas jornadas são impecáveis em termos de coerência com o que elas apresentaram durante a série. Enquanto Sansa se torna a Rainha do Norte, agora um reino independente, Arya decide desbravar terras desconhecidas - ‘O que tem a oeste de Westeros?’, pergunta, antes de embarcar rumo ao que não está previsto nos mapas.

Outra mudança questionável foi a de Verme Cinzento. Nesta temporada, ele se tornou um soldado que mata sem piedade pessoas que já se renderam apenas para saciar um tipo perverso de vingança - a morte de Missandei. Após ser apresentado como um homem sem sentimentos, o personagem, ao longo da série, mostrou seu gradual entendimento sobre a vida, adquirindo um sentido de amor e honra; um homem que, através do contato com Daenereys e Misandei, estabeleceu uma conexão emocional com o mundo que antes não possuía. A perda de sua amada o transformou em um louco assassino - mudança brusca demais para um personagem que parecia ter profundidade emocional.

Nesse sentido, Drogon, o único dragão ainda vivo de Daenerys, parece o ser mais sensível na legião da rainha. Ao ver sua mãe morta, Drogon foi capaz de exercer, mesmo experimentando a raiva e o luto, um julgamento sensato: destruir um símbolo de poder, o Trono de Ferro. Escolheu o lamento solitário, agora sem mãe e irmãos. Foi talvez o melhor arco dramático do episódio.

Entre as decepções desta temporada, está Jon Snow. No fim do episódio anterior, Jon parecia ter compreendido o erro gigante de ter apoiado Daenerys, enquanto ela queimava a cidade mesmo quando o inimigo estava rendido. Mesmo assim, ele inicia o capítulo final defendendo o que chama de 'sua rainha' contra os argumentos de Tyrion. Essa confusão emocional não é bem explorada porque a união entre Jon e Daenerys nunca pareceu realmente convencer - diferente do amor de Jon por Ygritte e dos sentimentos de Daenerys por Jorah e Drogo, por exemplo, que foram construídos ao longo de vários episódios.

O ápice dessa relação é quando Jon mata Daenerys, de forma bizarra, enquanto a beija. É um personagem que, vendo em retrospectiva, parece ter o potencial de uma figura de liderança - como Ned e Robb Stark -, mas que permaneceu sempre em silêncio diante de grandes momentos de decisão.

O melhor do episódio foi Tyrion. Depois de repetidos fracassos como conselheiro real, ele parece finalmente ter compreendido a dimensão de seu erro ao apoiar Daenerys. Seu entendimento vem em uma cena delicada: ao retirar as pedras que escondiam os corpos de seus irmãos, Jaime e Cersei, que foram soterrados durante o ataque de Daenerys. Seu choro silencioso enquanto afasta vagarosamente os pedregulhos indica todo o conflito emocional do personagem, seu arrependimento, seu luto. É motivado por raiva e frustração que Tyrion entrega a Daenerys o broche que indica seu cargo de conselheiro real - em seguida, é preso por traição.

A conversa entre Tyrion e Jon Snow, quando o anão esperava sua sentença, lembra o espectador a sabedoria de um personagem considerado 'o mais inteligente dos sete reinos'. Tyrion questiona a trajetória de Daenerys, dizendo que ninguém a questionou quando ela matou a elite de outras cidades, quando crucificou escravocratas, quando queimou a liderança dos dothraki. Todos a achavam uma 'pessoa boa' fazendo esses atos, e isso ajudou a chegar a este momento.

A melhor cena de Tyrion talvez seja quando, depois de tudo decidido, ele se reúne com os integrantes da comissão real na sala onde, temporadas antes, ocupou esse mesmo cargo - Mão do Rei -, orgulhoso por estar finalmente sendo aceito por seu pai. Agora, anos depois, ele volta a esse ponto ciente da ironia do destino, da importância de suas decisões, do elemento imponderável que, de certa forma, está nas relações humanas, e tem uma conversa bem humorada e agradável com os personagens durante a reunião.

Decisões
O final de GOT também respondeu à aguardada pergunta 'Quem ocupará o Trono de Ferro?' que espectadores se fizeram ao longo de oito temporadas. Não exatamente o Trono de Ferro, já que esse foi destruído, mas, sim, a liderança de Westeros. É mais uma cena preguiçosa dos roteiristas. Ao juntar as lideranças dos sete reinos, Tyrion sugere o nome de Bran, supostamente por seu poder enquanto Corvo de Três Olhos. Bran falou quase nada nesta temporada e os roteiristas nunca realmente exploraram o potencial de seu poder sobrenatural, o que tornou uma possível boa escolha como líder em algo deslocado.

A conclusão de 'Game of Thrones', série que entrou no imaginário da cultura pop de forma incontornável, parece sugerir a impossível pergunta: E se os livros de George R. R. Martin fossem adaptados para a televisão apenas quando fossem concluídos? Depois de excelentes cinco temporadas, feitas baseadas nos textos do escritor, as últimas três, que oscilaram entre bom e ruim, teriam sido diferentes? São vários incômodos nesta temporada e nas anteriores: a conclusão apressada dos Caminhantes Brancos, os enigmas em torno do Deus da Luz e dos homens sem rosto, um complexo universo de fantasia e política desperdiçado. Resta esperar o lançamento das obras restantes e guardar os momentos especiais de GOT.

Cena do último episódio de 'Game of Thrones'
Cena do último episódio de 'Game of Thrones'Foto: HBO/Divulgação
Cena do último episódio de 'Game of Thrones'
Cena do último episódio de 'Game of Thrones'Foto: HBO/Divulgação
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