Mayara fez Rebu como um trabalho para a faculdade de Cinema
Mayara fez Rebu como um trabalho para a faculdade de CinemaFoto: Arthur de Souza

Já se foi o tempo em que chamar uma mulher lésbica de "sapatão" era um xingamento. Depois de anos de preconceitos e agressões, elas ressignificaram o termo e, agora, "sapatão" virou grito de liberdade. Um elogio dos mais valiosos, o que, aliás, diz muito sobre orgulho. Uma mulher lésbica carrega o machismo e a homofobia no mesmo pacote (se for negra, também tem racismo no combo). E essas ainda são travas que impossibilitam apoio a algumas iniciativas. Ao passao que a existência ganha novo contorno, também se inova no jeito de contá-la.

A designer e videasta Mayara Santana, de 27 anos, encontrou esta lacuna. E fez, a partir da sua experiência pessoal, a websérie "Rebu - Egolombra de uma sapatão quase arrependida", pensada para o formato de IGTV do Instagram. A série documental vem de um lugar de fala específico: a realidade de Mayara enquanto mulher negra e lésbica no Recife.

A questão central e que inspirou o trabalho, feito para uma cadeira voltada para dispositivos móveis da faculdade de Cinema, foi a semelhança entre atitudes suas e as do seu pai, Pedro de Santana, o Pedro Balla. Mas como uma mulher negra, lésbica, ativista, no auge dos seus vinte e tantos anos poderia se parecer tanto com um homem hétero, branco, dos anos 1970? É essa a indagação que Mayara se faz o tempo todo. "O que me preocupou foi que eu romantizava aquela atitude de garanhão. E, mesmo uma parte de mim sabendo que aquilo era errado, outra enaltecia. E levava pra mim, pras minhas relações", explica.

A série foi pensada para o formato de IGTV do Instagram

A série foi pensada para o formato de IGTV do Instagram - Crédito: Arthur de Souza

Ao passo que é no pai que se reconhece (bem ou mal), é na mãe, Josefa Gomes, a Zefa, que Mayara encontra sustentáculo. Nos cinco episódios já liberados da série, disponíveis no perfil @rebu.doc, é Pedro Balla que aparece em frente à câmera, mas é a voz de Zefa que vaza vez ou outra, lembrando ou tirando uma onda com alguma situação, como quem está sempre longe dos holofotes, mas tem papel central na trama. "Seria leviano não citar a importância de mamãe", conta Mayara, lembrando, aliás, que o amor de Zefa foi decisivo no processo de acolhimento quando ela contou sobre a condição sexual.

Histórias

"Essa pessoa que está aqui falando cresceu sendo filha única, porém com seis irmãos. Passei a infância em Riacho de Prata, loteamento cheio de lama e sapo, longe de tudo. Cresci ouvindo Carlos Gonzaga, vendo Manoel Carlos, passando alisador no cabelo e correndo com meus primos, Bruno e Rafa. Sendo melhor na bike e na bola do que eles", Mayara introduz, assim, o primeiro episódio. E segue contando que cresceu ouvindo o pai contar as suas histórias de romances, futebol e tretas. "E falar o quanto amava minha mãe. Ouvi minha mãe, sem nenhum arrodeio, dizer: eu não como de amor".

Pedro Balla tem dois episódios para chamar de seus - diretamente (pois ele está em Mayara e nas suas relações em todos os outros). É em um deles que ele conta que "O charme do boleiro é nunca estar olhando para a frente da câmera". E revive momentos de juventude ao ser confrontado pela filha no episódio embalado pela música "Juramento de Playboy", de Carlos Gonzaga. "Tudo pra mim era brincadeira", comenta, seguido de um "Mulher tinha demais. Sempre teve". E também lembra de como a vida mudou nos últimos 30 anos, tempo de casamento com Zefa. Cita a esposa como "abençoada". E ela logo rebate: "Abençoada quer dizer tanta coisa que você não queira nem saber".

Mayara não poupa referências e dramas nos episódios, que variam entre três e seis minutos. O ponto de partida da sua auto-análise, voltando-se a olhares externos, é, na realidade, uma reflexão sobre desconstrução, principalmente da figura paterna. E isso não tem a ver com falta de admiração ou distanciamento. Diz respeito, principalmente, a como ser diferente, como minimizar sofrimentos, como ter mais cuidado. "O doc trata de como eu ressignifico essa relação de poder", justifica.

Rebu

Rebu - Crédito: Reprodução Instagram

 

A lembrança do primeiro amor aparece no 4º episódio. "A gente tinha dois sonhos. Namorar na praia, feito qualquer casal hétero. E o segundo era pode cozinhar juntas. Mas quando você é sapatão e sua mãe odeia sapatão você tem que sonhar coisas poucas", lembra, com uma carga sentida na locução. Não cita o nome da pessoa, como um sinal de respeito. E conta que o que era para ser um romance de adolescência virou uma história sigilosa, que as deixava cheias de medo. E aí Mayara revela: "Eu já superei o fato da sua mãe ter ameaçado passar o carro em cima de mim".

O processo de desconstruir verdades absolutas passa, inclusive, por uma constatação que pareceu infeliz à época: a de que sua música favorita, "Acaba a valentia de um homem", de Benito Di Paula, era, na real, uma canção sobre uma relação abusiva. Descoberta que só veio por causa de uma ex-companheira. "Eu poderia fazer três bíblias contando o quanto esta deusa é incrível", declara-se, assim, para Roberta, a responsável por fazer Mayara deixar de cantar "Levanta a voz, fala alto/Maltrata a mulher amada/E quando ela cisma e vai embora/A montanha se desmancha".

"Eu não esperava que uma experiência particular fosse envolver tanta gente", conta. A representatividade é um negócio danado. Muitas lésbicas se identificaram com as histórias de Mayara, sentiram-se representadas de alguma maneira. "O doc é sobre uma sapatão que reproduz práticas machistas. Eu me enxerguei reproduzindo isso. E, por consequência, sendo uma sapatão abusiva. Eu tive essa experiência com minhas exs. Foi muito dolorido me perceber. É uma reflexão até bem pesada", explica.

Mayara já confirmou a 2ª temporada de Rebu

Mayara já confirmou a 2ª temporada de Rebu - Crédito: Arthur de Souza


 

Vida longa

Todos os episódios de Rebu foram gravados na horizontal. A intenção é mesmo levar o trabalho a outras plataformas, mas isso ainda será digerido. "Pretendo transformar a primeira num corte de curta-metragem. Quero fazer coisas que estejam à mão das pessoas. Eu acredito no cinema, mas também eu quero que a história se espalhe não necessariamente apenas entre o público que está colado nos festivais de cinema", sentencia.

Inicialmente, seria apenas uma temporada. Mas o público pediu mais. E será atendido. Nesta semana que se aproxima, dois novos episódios serão divulgados: o 6º e um extra, este último no qual Mayara vai fazer uma reflexão a partir dela mesma. Não mais partindo de outras pessoas. A segunda temporada também virá. E é nela que Mayara pretende abrir as discussões. E não como entrevistas engessadas. "Pensei num formato mais interativo, com várias experiências", promete.

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