Antonio Fagundes
Antonio FagundesFoto: TV Globo/Divulgação

Talvez por isso, ele esteja tão à vontade na pele de seu atual papel. De forma leve, “Bom Sucesso” levanta uma importante reflexão: a finitude do ser humano. E o assunto é representado, principalmente, por Alberto, que descobriu ter apenas seis meses de vida. Dono de uma editora, o personagem começou seu império vendendo enciclopédia de porta em porta. Com o tempo, passou a enfrentar uma crise no mercado editorial. Mesmo assim, é contra mudanças na linha editorial de sua empresa. Mas o baque maior é a notícia de que tem pouco tempo de vida. “Logo no começo, ele recebe um exame dizendo que está bom e curado. Isso lhe dá um alívio muito grande, até descobrir que o exame foi trocado”, conta.

Antonio Fagundes é um personagem importante da teledramaturgia brasileira. Mas também é um espectador atento das transformações que o gênero passou ao longo do tempo. Aos 50 anos de carreira na tevê, o ator viu de tudo um pouco. E se surpreende com as mudanças na linguagem das novelas. No ar em “Bom Sucesso”, nova trama das 19h, e na reprise de “Por Amor”, na Globo, ele percebe como o antigo ainda pode cair no gosto popular. Ao mesmo tempo, não descarta o frescor das histórias contemporâneas, que trazem uma agilidade em sua narrativa.

Mas Fagundes não esconde sua preferência. “Eu estou até com medo do público falar que não me aguenta mais, mas isso é uma forma de vermos a evolução de algumas coisas e a involução de outras. Algumas novelas antigas fazem sucesso por causa de um tipo de ritmo que as pessoas dizem que hoje em dia ninguém quer suportar. Mas, ao meu ver, as pessoas estão precisando de mais tempo, silêncio e calma. Eu gosto das coisas que fazem a gente pensar”, analisa o intérprete de Alberto.

 

O ator também está no ar na reprise de

O ator também está no ar na reprise de "Por Amor" - Crédito: Divulgação 

Talvez por isso, ele esteja tão à vontade na pele de seu atual papel. De forma leve, “Bom Sucesso” levanta uma importante reflexão: a finitude do ser humano. E o assunto é representado, principalmente, por Alberto, que descobriu ter apenas seis meses de vida. Dono de uma editora, o personagem começou seu império vendendo enciclopédia de porta em porta. Com o tempo, passou a enfrentar uma crise no mercado editorial. Mesmo assim, é contra mudanças na linha editorial de sua empresa. Mas o baque maior é a notícia de que tem pouco tempo de vida. “Logo no começo, ele recebe um exame dizendo que está bom e curado. Isso lhe dá um alívio muito grande, até descobrir que o exame foi trocado”, conta.

Logo no início de “Bom Sucesso”, acontece uma troca entre os exames médicos de seu personagem e de Paloma, interpretada por Grazi Massafera - por um curto período, ela pensa que tem seis meses de vida e Alberto acredita que está curado. Como essa confusão vai impactar o restante da trama?

Logo que eles descobrem essa troca, fica uma curiosidade da parte dos dois: um querendo saber quem vai viver e o outro querendo saber quem vai morrer. Eu acho que esse é o grande interesse da novela porque aborda esse aspecto da vida e da morte de uma forma diferenciada, com um certo frescor. É uma coisa que a gente quase nunca fala.

Por que você acha que é um assunto pouco abordado?

É gozado isso porque não falamos de duas coisas: da velhice e da morte. Se a velhice chegar é porque nós não morremos. Se não chegar é porque morremos antes. Essas duas coisas são bastante presentes na vida da gente a partir dos 20 anos de idade. A partir dos 20 anos, as nossas células começam a envelhecer e a gente não se prepara para isso. Tem até uma frase do Goethe (escritor alemão) que diz: “a velhice nos pega de surpresa”. É uma loucura porque estamos envelhecendo a cada minuto da vida. Então é bom que a gente se prepare e organize.

E como você encara o envelhecimento?

Eu sempre lidei muito bem com isso. Sempre brinquei que eu tinha uma nostalgia da velhice. Eu sempre queria ser mais velho porque achava que a velhice seria uma coisa interessante. Agora que estou mais velho, estou confirmando isso. É muito bom! Claro que não se pode subir mais a escada de três em três degraus, mas dá para subir de dois em dois. Depois, a gente sobe de um em um e depois não sobe escadas (risos). De qualquer forma, lido muito bem.

Você tem algum cuidado especial com sua saúde?

Eu confesso que sempre fui muito preguiçoso, nunca fiz exercícios. Mas agora faço um pouquinho porque começou a dor nas costas. Tem uma frase do Oscar Wilde, que eu adoro, em ele dizia assim: “tudo com moderação, inclusive a moderação”. Essa frase define o que eu quero para a minha vida. Eu quero fazer as coisas que tenho de fazer, mas moderadamente, inclusive, dentro da própria moderação. Eu quero fazer exercícios, mas não quero ser um atleta. Eu quero ter um cuidado alimentar, mas não quero me restringir e deixar de comer algumas coisas gostosas. Estou me cuidando assim.

Você divide grande parte das cenas com Grazi Massafera. Como está sendo essa parceria?

Grazi é uma gracinha de pessoa e uma atriz ótima. A personagem dela é muito boa e a relação dos dois vai ser muito interessante. Eu gosto sempre de falar de um livro da Ana Claudia Quintana Arantes, que praticamente está nos estimulando nessa novela, chamado “A Morte É Um Dia Que Vale A Pena Viver”. Ele fala sobre cuidados paliativos e que é uma forma diferenciada de encararmos a morte. A morte não como doença, mas como um limite para a sua vida. Então, em vez de tratar a doença até a hora da morte, vamos tratar da pessoa enquanto ela está viva. Isso é uma coisa que a novela vai passar muito bem. Essa coisa de que é interessante você estar bem quando morrer. Eu quero estar bem de saúde quando morrer.

Aliás, a literatura está bastante presente na trama de “Bom Sucesso”. É um universo que interessa bastante a você, certo?

Inclusive, eu já falei que vai ficar um buraco na estante porque vou roubar uns livrinhos de vez em quando (risos). Temos tudo ao alcance das mãos, inclusive esses celulares. Se for parar para pensar, o tempo que você leva limpando o WhatsApp - e tem de fazer isso, senão o aparelho fica muito carregado -, dá umas duas ou três horas por dia. Se você ler durante duas ou três horas por dia qualquer livro, vai ler dois ou três livros por semana. E vai sobrar muito mais do que uma limpeza do WhatsApp. A limpeza do WhatsApp é nada, é uma limpeza mecânica. A leitura faz você sair com alguma coisa.

Atualmente, “Por Amor” é reprisada na Globo. O público voltou a chamar você de Atílio, nome do seu personagem na novela de Manoel Carlos?

Parece que é a quinta vez que passa essa novela, que tem um ritmo diferenciado. Outro dia, eu vi uma cena minha com a Regina Duarte que tinha 15 minutos, era quase um bloco inteiro. Era eu e ela na cama, conversando. Era uma cena deliciosa porque você permite ao público ir devagar junto com o personagem. Você não encaminha o público para aquilo que você quer que ele pense. Ele que vai pensando de acordo com o que vai sendo mostrado para ele.

Agora as tramas costumam ser bem mais aceleradas...

Sim, acho que isso era um ganho que as novelas tinham antigamente e que perdemos um pouquinho. Seria bom se conseguíssemos recuperar. Não é à toa que as pessoas se reconhecem na novela, curtem e que ela está dando o ibope que dá em um horário completamente louco, à tarde (em torno de 17 pontos). Isso vai acontecer com todas as novelas daquela época que têm esse tipo de ritmo. Aconteceu com “A Viagem”, “Renascer” e “O Rei do Gado”. Eu estou falando das novelas que fiz, mas acontece com as outras novelas também daquela época. São novelas que fazem o público pensar e não se distrair totalmente. 



 

veja também

comentários

comece o dia bem informado: