Uma Série de Coisas

Fernando Martins

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Em "Euphoria", Zendaya interpreta uma garota que tenta lidar com o vício em drogas
Em "Euphoria", Zendaya interpreta uma garota que tenta lidar com o vício em drogasFoto: Divulgação/HBO

Relacionamentos, sexo e drogas. Esses assuntos parecem estar ficando cada vez mais triviais, principalmente entre os adolescentes. A mídia pode ter parte da responsabilidade sobre a banalização dessas questões (na publicidade, por exemplo), mas tenta contornar a problemática lançando conteúdos que expõem as consequências de se ingressar cedo demais na sexualidade e no caminho sem volta dos entorpecentes químicos.

A nova série da HBO, “Euphoria”, insere o público na realidade dos millennials e destaca as consequências do desenfreio de jovens nas drogas e na construção da sexualidade no colegial. Histórias teen, geralmente, servem para levantar discussões e reflexões sobre as questões que permeiam a adolescência, ajudando o telespectador a compreender gatilhos e tentar remedia-los.

Em contrapartida, a emissora é conhecida por produzir conteúdo adulto, muitas vezes com nudez e cenas de sexo sem censura constatado em célebres produções como “Girls” e “Game Of Thrones”. Caminhando entre mostrar a realidade e estimular comportamentos abusivos, as cenas de “Euphoria” podem acabar tirando a atenção para o que a série se propõe como objetivo: a conscientização do sexo seguro e o combate às drogas.

Desde sua estreia, “Euphoria” enfrenta duras críticas justamente por explicitar cenas ditas como “impróprias” e “desagradáveis” para os mais conservadores. Com produção executiva do cantor Drake, acompanhamos a história de Rue Bennet (Zendaya) e sua luta para se manter sóbria. A série também foca em outros estudantes e em como cada um lida com relações sexuais e o consumo de drogas. Como consenso geral, posso concordar com a revista norte-americana TV Guide quando ela afirma que a série é “perturbadora de assistir”, mas “inegavelmente linda”. Em termos técnicos, a HBO nunca deixou a desejar.

Mas a série não carrega só elogios. Tendo lançado três episódios até o dia da publicação deste artigo, não teve sequer uma semana em que o nome da produção não estivesse atrelado a repercussões negativas. O primeiro episódio, talvez por ser a primeira impressão, gerou, inclusive, uma comoção entre pais pedindo para que a emissora tirasse “Euphoria” do ar. Fato que, particularmente, não concordo e que justifico no final do texto.

A série tem sua estreia marcada pela apresentação dos personagens e dos conflitos que cada um terá que lidar ao longo da temporada. Além da nudez já mencionada no início, o piloto também contém uma cena de estupro entre um homem de aproximadamente 40 anos (muitos irão reconhecer o ator Eric Dane como o Mark Sloan, de “Grey’s Anatomy”) e uma jovem transgênero. No segundo episódio, uma cena precisou ser encurtada, já que na original continha 80 pênis a mais do que a exibida. O terceiro mostrou, através de uma rápida animação, o mundo das fanfictions (histórias criadas por fãs), contendo uma cena de sexo ilusório entre Harry Styles e Louis Tomlinson, ex-colegas da banda One Direction. Inclusive, Tomlinson expôs sua opinião no Twitter afirmando que não aprovou tal abordagem.

A personagem Kat, interpretada pela atriz Barbie Ferreira, é um dos casos que indica a dualidade de interpretações. Após ter sua primeira experiência sexual compartilhada em um site pornô sem sua aprovação, Kat, primeiro, se desespera, mas logo muda de ideia quando percebe que grande parte dos comentários são positivos. Diante disso, ela acaba se tornando um “fenômeno” entre os internautas que consomem esse tipo de produto. O fato acaba criando certa segurança na garota ao ponto dela passar a se exibir anonimamente para homens desconhecidos e com gostos estranhos em troca de dinheiro.

A maioria das experiências sexuais mostradas em “Euphoria” não é saudável e o questionamento sobre até que ponto a nudez é necessária em uma história, provavelmente, renderá muitos debates. Antes da estreia, Zendaya disse em seu instagram que a série era feita para o público adulto: “Só um lembrete antes da estreia de hoje, ‘Euphoria’ é feita para o público adulto. É um retrato honesto e cru de vício, ansiedade e as dificuldades da vida hoje. Há cenas que são gráficas, difíceis de assistir e podem ser um gatilho. Por favor, só assista se sentir que pode lidar com isso. Faça o que é melhor para você. Eu ainda vou amar e sentir o apoio de vocês. Com amor, Daya”.

Se a série se ambienta no universo sexual dos adolescentes, mas é feita para adultos, deve causar, no mínimo, um desencontro no que diz respeito à mensagem versus público, o que dificulta que a comunicação aconteça de maneira benéfica.

Um escritor chamado Max Beerbohm disse, em um conto de 1919, que a verdade é mais estranha que a ficção. Pode ser verdade, mas a censura da série – em petição solicitada pelos pais – não é uma solução válida neste caso. Os temas podem e devem ser discutidos não só entre rodas de amigos e debates acadêmicos, mas dentro do âmbito familiar, principalmente. Pais e filhos precisam sentar e desenvolver uma conversa franca e instrutiva sobre sexo e drogas sem transformar o momento em tabu. Esconder a realidade não isenta o adolescente à exposição dos males do mundo, mas contribui para que ele continue vulnerável.

Euphoria” é exibida na HBO aos domingos e também está disponível na HBO GO. Confira o trailer:



*Fernando começou a assistir a séries de TV e streaming em 2009 e nunca mais parou. Atualmente ele acompanha mais de 200 produções e já assistiu mais de 6 mil episódios. A série mais assistida - a favorita - é 'Grey's Anatomy', à qual ele reassiste com qualquer pessoa que esteja disposta a começar uma maratona. Facebook: Uma série de Coisas. Instagram: @umaseriedecoisas. Twitter: @seriedecoisas_ YouTube: Uma Série de Coisas. Podcast: Pocbuster. Portal: umaseriedecoisas.com.br.

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