Vida Saudável

Ney Cavalcanti e Solange Paraíso

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Alimentação consciente
Alimentação conscienteFoto: Ed Machado/Folha de Pernambuco

A prática de hábitos saudáveis de alimentação é um grande desafio da vida adulta, no mundo contemporâneo. Como toda metrópole, Recife é heterogênea em seus aspectos sociais e estruturais, e nela o desafio transcende a esfera familiar e se projeta quando o indivíduo vai à luta - na escola, no trabalho, no lazer, etc. Quando crianças, estamos ainda na tutela dos adultos que, mais ou menos conscientes, nos repassam os seus conhecimentos, crenças e valores acerca do que julgam mais saudável. Nesta fase absorvemos os hábitos alimentares, que se cristalizam até a vida adulta.

O marco mais importante na absorção de novos hábitos fora de casa, na infância, é a vida escolar. Neste tópico, já é notória a preocupação dos governos, dos técnicos em saúde e dos pedagogos para que a escola funcione, antes de tudo, como incentivador dos hábitos alimentares saudáveis: na teoria, adotando em seus currículos os conteúdos de alimentação e nutrição, e, na prática, criando atividades como o cultivo de hortas, cantinas saudáveis, etc.

E na vida adulta, como se comportam os indivíduos, na escolha de seus alimentos e refeições? Como gerenciam sua prática alimentar, no ir e vir de atividades competitivas e permeadas por deslocamentos caóticos, seja a pé, de carro, de ônibus, de metrô, ou de bike (esta alternativa de mobilidade ainda tão incipiente e arriscada)?

Observo que, na prática, há um relativo contingente de pessoas que prezam (e se esforçam para manter) a rotina de realizar a maioria de suas refeições diárias no âmbito doméstico. Elas parecem um remanescente ousado, que resiste aos insistentes apelos da festejada praticidade de não ter trabalho com as compras, com o fazer comida e com o lavar as louças. Gostaria que as pessoas, em geral, compreendessem o valor deste custo-benefício: há recompensas diretas para a saúde e o bem-estar quando comemos de forma saudável, e isto inclui estar em casa, num lugar que é seu, longe do burburinho e da impessoalidade dos estabelecimentos comerciais.

Para muitos, atribulados pelo acúmulo de tarefas e pelo estresse de vencer as distâncias, a falta de tempo para preparar suas refeições é um sério fator limitante. Para outros, não há atrativo algum em planejar refeições, ou preferem gastar o tempo com outros cuidados (com a aparência física, p. ex.). Aí, na esteira de opções tem de tudo: encomendar marmitas, ir a restaurantes ou lanchonetes, pular refeições ou substituí-las por “shakes”, viver beliscando guloseimas, etc.

Nesses casos, incentivo para o almoço e jantar a adoção de refeições saudáveis e variadas, e mesmo que terceirizadas, sejam de procedência conhecida. Além disso, oriento o planejamento de lanches simples e nutritivos que podem ser levados de casa, ou mesmo providenciados coletivamente no grupo de colegas de trabalho ou de escola. Com alguma criatividade e conhecimento do valor nutritivo podem ser escolhidos lanches bem gostosos, saudáveis, e viáveis, economicamente.

Acima de tudo, é importante refletir sobre o empoderamento da população, no tocante à própria saúde. Ter uma alimentação digna é direito de todos e dever do Estado, segundo nossa Constituição. Quando, porém, o básico já está garantido, cabe aos indivíduos gerenciar as próprias escolhas com foco no bom senso, a exemplo do que fazem nas outras áreas em que se relacionam. Aí, sim, estarão agindo como adultos responsáveis pelo bem inalienável de que dispõem, desde antes do nascimento: a saúde.

*É nutricionista, atua no Tribunal de Justiça de Pernambuco no Núcleo do Programa Saúde Legal.

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