A face real do mercado de trabalho

A nova abordagem da Pnad Contínua amplia o monitoramento da subutilização da força de trabalho no Brasil

Circo Turma da Mônica será apresentado no Teatro RioMarCirco Turma da Mônica será apresentado no Teatro RioMar - Foto: João Caldas Filho

 

Há nove meses desempregado, Erik Barros, de 20 anos, vai à Agência do Trabalho pelo menos três vezes por semana em uma busca incansável por emprego. Sua pouca idade e a falta de experiência seriam os motivos para nunca passar da fase de entrevistas em uma seleção. Na mesma fila está Maria José Alves, de 50 anos, desempregada há um ano. Para ela, no entanto, o motivo da não contratação é o oposto: o excesso de experiência. O que iguala os dois no mesmo patamar é a dura realidade que o mercado de trabalho formal do País vem mostrando no decorrer dos últimos anos: que não há vagas seja qual for o perfil de profissional. Eles fazem parte do contingente alarmante formado por 22,7 milhões de pessoas inseridas no quadro geral da subutilização da força de trabalho no Brasil.
O resultado, divulgado ontem pelo IBGE, é parte do complemento da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua e estará presente na Pnad ao fim de cada trimestre a partir de agora. Nele, compreende além do número de pessoas desocupadas no Brasil, a análise do contingente formado pelos que estão subocupados (que trabalham menos do que gostariam de trabalhar) e os que estão fora da força de trabalho, mas que tem potencial para estar dentro. “Antes só era possível conhecer parte da força subutilizada através da taxa de desocupação, que neste segundo semestre encerrado em julho foi de 11,6 milhões de pessoas”, comenta o coordenador da pesquisa, Cimar Azeredo.
De acordo com ele, no que tange à subocupação da mão de obra, também foram analisadas a quantidade de pessoas que trabalha menos de 40 horas por semana, mas que poderiam e gostariam de trabalhar mais. No estudo, um total de 4,8 milhões de pessoas estiveram nessa condição ao fim do segundo trimestre deste ano, o que representa alta de 17% em relação ao primeiro trimestre de 2016, que foi de 4,1 milhões de pessoas.
No outro ponto, está a força de trabalho potencial, que compreende quem tem a partir de 14 anos e não estava ocupado e nem desocupado, mas tinha potencial para o emprego.

“São pessoas que realizaram uma busca efetiva de trabalho, mas não estavam disponíveis para trabalhar na semana, como, por exemplo, grávidas e estudantes”, explica o coordenador.
Também foi analisado o grupo de pessoas que, apesar de não terem realizado uma busca efetiva por emprego, estavam disponíveis para o mercado e queriam trabalhar.

 O somatório desse contingente foi de 6,2 milhões de pessoas, de acordo com a análise.

Nesse quantitativo, antes ignorado, entra exemplos como o do desempregado Gustavo Silva, de 43 anos. Após quatro meses colocando uma faixa procurando emprego em um sinal da avenida Abdias de Carvalho, perdeu o fôlego e não tem mais nem como arcar com a rotina diária de exposição. “Estou há 1 ano e 4 meses sem trabalhar. Sai do sinal por uma promessa de emprego que não se concretizou. Hoje, além de não ter mais condições de estar saindo para distribuir currículos pelos cantos, tenho vergonha de voltar ao sinal, pois acho que quem me ver por lá novamente pode achar que eu sou ruim e não sirvo para emprego nenhum”, desabafa.

 

Veja também

Fala de fundadora do Nubank sobre negros mostra incompreensão, dizem especialistas
economia

Fala de fundadora do Nubank sobre negros mostra incompreensão, dizem especialistas

STF inicia julgamento sobre ICMS de gás importado da Bolívia
economia

STF inicia julgamento sobre ICMS de gás importado da Bolívia