Ações da Petrobras caem quase 15%, e estatal perde R$ 40 bi em valor de mercado

Em um dia, a Petrobras perdeu R$ 40,3 bilhões em valor de mercado. Desde que teve início a paralisação de caminhoneiros, em 21 de maio, perdeu R$ 126 bilhões

PetrobrasPetrobras - Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

As ações da Petrobras fecharam em queda de quase 15% na Bolsa brasileira nesta sexta-feira (1º), após o então presidente da Petrobras, Pedro Parente, anunciar pela manhã que entregou o cargo. Ivan Monteiro, diretor-executivo da área financeira e de relacionamento com investidores da estatal, foi indicado pelo conselho da petroleira para a presidência.

Os papéis preferenciais (mais negociados) recuaram 14,86%, cotados a R$ 16,16. Os ordinários (com direito a voto) caíram 14,92%. As ADRs (recibos de ações negociadas nos Estados Unidos), perderam 14,59%, para US$ 10,13.

Em um dia, a empresa perdeu R$ 40,3 bilhões em valor de mercado. Desde que teve início a paralisação de caminhoneiros, em 21 de maio, perdeu R$ 126 bilhões. Agora, a Petrobras vale R$ 231 bilhões. "Para se ter uma ideia de grandeza, o valor de mercado do banco Santander no Brasil é de aproximadamente R$ 125 bilhões", aponta Einar Rivero, da empresa de informações financeiras Economática.

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Apesar de a Petrobras ter um peso de cerca de 12% do Ibovespa, índice que reúne as ações mais negociadas da Bolsa, o indicador conseguiu subir 0,63% nesta sexta, para 77.239 pontos, segurado pelo bom humor no exterior. "A Bolsa poderia ter subido mais se a Petrobras não puxasse para baixo", avalia Vinicius Freitas, economista da Ativa Investimentos.

As ações da Petrobras chegaram a abrir em alta na casa de 2%. Por volta de 11h20, o mercado foi comunicado da renúncia de Parente, e os papéis entraram em leilão -as negociações ficam suspensas por atingirem oscilações máximas. A B3, dona da Bolsa, explica que este é um procedimento comum e previsto pela regulação da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) quando um comunicado de empresa de capital aberto é publicado com o mercado em funcionamento.

Quando voltaram a serem negociados, os papéis da Petrobras reabriram caindo 14%, e chegaram a perder 20%. "O mercado via com bons olhos a gestão de Pedro Parente, com um histórico de melhor governança e resultados operacionais e financeiros", aponta Freitas.

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Estranho
O mercado estranhou o anúncio da demissão de Parente com o pregão aberto: "A gestão dele foi marcada por colocar ordem na empresa e caprichar na comunicação com o mercado. Se a Bolsa fechasse às 18h, às 18h10 saía o balanço, quando era época de divulgação de resultados. E agora ele sai numa sexta-feira, emenda de feriado, com a Bolsa aberta?", reclamou um gestor de recursos.

Ele acredita que o "susto" com o pregão aberto também alimenta as perdas de hoje, já que semana passada os papéis saíram da casa do R$ 26 para ao redor de R$ 19, com a expectativa de mudança na política de preços da empresa e a saída de Parente, o que acabou se confirmando. "Hoje as ações foram para a casa dos R$ 16, me parece exagerado", avalia.

Desde o início da paralisação dos caminhoneiros, há rumores no mercado de que Parente poderia renunciar, apesar dos esforços do governo e do próprio comando da Petrobras para garantir que não haveria interferência política nas decisões da estatal. Em teleconferência em inglês com investidores no dia 24, após anunciar que a Petrobras cortaria o preço do diesel em 10% por 15 dias, Parente afirmou que se o governo voltasse a controlar a política de preços da estatal, teria que encontrar "outra diretoria alinhada a essa decisão".

"Foi um golpe muito forte, mas de certa forma não foi uma surpresa. Mas a saída dele é uma sinalização muito forte para o mercado de que talvez a Petrobras não consegui permanecer com sua política de preços atual", diz Bruno Foresti, gerente de câmbio do banco Ourinvest. Os analistas destacaram a frase "não serei empecilho para que alternativas sejam discutidas" na carta de demissão de Parente.
"As ações da Petrobras agora vão voltar a ser o que eram na época do governo do PT", afirmou um gestor, referindo-se aos tempos em que a empresa era utilizada para compor interesses do governo.

Em nota, a agência de classificação de risco Moody's disse que a saída de Parente é um sinal ruim. "O pedido de demissão de Pedro Parente da presidência da Petrobras é negativo para o perfil de crédito da companhia. A saída de Parente pode indicar que a tendência de melhoras nas políticas financeiras da Petrobras está comprometida", disse Nymia Almeida, vice-presidente sênior da Moody's.

Até o momento, no entanto, a queda das ações não aponta para problemas na estrutura de capital da estatal, ou seja, na relação de quanto ela vale, versus seu endividamento. "A desalavancagem deverá continuar, porém com velocidade menor, e os próximos 24 meses já estão equacionados", afirmou um analista.

Para André Perfeito, economista-chefe da Spinelli Corretora, a renúncia de Parente respinga não só nos papéis da Petrobras, mas também na imagem do governo.
"A situação demonstra uma fragilidade gigantesca do governo. A impressão é que isso pode se reverter nas perspectivas das reformas. Não que a política de preços da Petrobras fosse uma reforma, mas ela estava dentro desse mesmo espírito", diz.

Futuro
Depois da renúncia de Pedro Parente, a atenção do mercado agora é para eventuais mudanças no conselho da Petrobras e também para a escolha de quem assumirá a companhia interinamente. O conselho, em particular os integrantes independentes, era alinhado com Parente e eventuais substituições podem evidenciar o tamanho das mudanças pretendidas pelo governo na administração da empresa.

A "torcida" do mercado é para que a presidência fique com Ivan Monteiro, atual diretor financeiro, que assumiria a companhia nessa fase final do governo Temer. "De qualquer forma deve ser um mandato tampão, porque estamos em ano de eleições, falta pouco mais de metade do ano para acabar e não sabemos se o próximo governo vai manter a mesma presidência na estatal", diz Freitas.

Contribuíram também para segurar o Ibovespa a recuperação de ações que perderam nos últimos dias, como as do setor financeiro e de siderúrgicas, e a alta de 9,2% da BRF. O mercado especula que, com sua saída da Petrobras, Parente poderia ir para a gigante de alimentos. Ele assumiu recentemente o comando do conselho de administração da empresa no lugar do empresário Abilio Diniz
"Isso é mais especulativo, não acredito que as coisas sejam rápidas assim, que amanhã ele estaria na BRF. O mercado começa a especular em cima disso e tenta ganhar sobre esse fato", diz Freitas.

Câmbio
O dólar, que já poderia ganhar força com os dados bons de emprego nos Estados Unidos, firmou em alta com investidores buscando proteção às quedas das ações da Petrobras. O dólar comercial fechou em alta de 0,82%, cotado a R$ 3,768. O dólar à vista subiu 0,79%, para R$ 3,7585.

O crescimento do emprego nos EUA acelerou em maio e a taxa de desemprego caiu para uma mínima de 18 anos de 3,8%, apontando para um rápido aperto nas condições do mercado de trabalho, o que pode gerar preocupação com a inflação.
Foresti explica que a perspectiva de uma alta na inflação reforça a expectativa de aumento de juros nos Estados Unidos. "O resultado prático é um dólar mais apreciado globalmente", diz.

A queda nas ações da Petrobras intensificou a tendência. Com Bolsa e dólar subindo na mesma sessão, fica o indicativo de que investidores não estão saindo do mercado acionário brasileiro, mas estão buscando proteção no câmbio. "As ações despencaram, as negociações travaram e o dólar começou a subir com mais força, mesmo com o Banco Central colocando todo o seu estoque de swap", afirma Foresti.

O Banco Central manteve sua atuação no mercado de câmbio e vendeu 15 mil novos contratos de swap cambial tradicional –equivalente à venda futura de dólares.

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