“Agora, nem a CPMF nos salva”, diz Zena Latif

Confira uma entrevista com Zena Latif, economista-chefe da XP Investimentos

Danilo Cabral (PSB)Danilo Cabral (PSB) - Foto: Sérgio Francês/Divulgação

 

Apesar de a confiança do mercado na economia brasileira ter crescido após o impeachment de Dilma Rousseff, ainda vai demorar para que frutos palpáveis desta melhora apareçam para a população. O desemprego, por exemplo, ainda deve crescer por mais dois trimestres. Já o Produto Interno Bruto (PIB) nacional só deve voltar a crescer em 2018. É nisto que a economista-chefe da XP Investimentos, Zena Latif, acredita. Ela expôs suas projeções e preocupações com a economia brasileira durante evento promovido pelo LIDE Pernambuco e pelo LIDE Mulher, nesta última semana, no Recife. Em conversa com a Folha de Pernambuco, Zena ainda disse que a missão do Governo Temer é arrumar a macroeconomia e combater a crise fiscal, porque isso está “sufocando o País” e, se não for tratado, ainda pode trazer mais revezes para os brasileiros.

Indicadores mostram um aumento da confiança na economia brasileira, mas já há resultados concretos dessa melhora?
Por hora, a gente vai ter que se contentar em interromper a trajetória que o País seguia em direção ao colapso, porque os sinais de estabilização que começam a surgir ainda não são tão sólidos. Eles se baseiam muito em expectativa. Prova disso é que o mercado de trabalho ainda está se ajustando, a taxa de desemprego ainda sobe e as demissões continuam fortes. O mercado de crédito também não se estabilizou. Então, a economia ainda vai demorar a ganhar tração. O importante é que, apesar disso, a gente conseguiu evitar um mal maior.

Que mal seria esse?
A gente começou o ano discutindo um risco de espiral inflacionária. Muitos analistas estavam com medo de um calote da dívida pública. O mercado chegou a precificar uma inflação de dois dígitos e uma taxa de câmbio de R$ 6 para 2018. De fato havia o risco de a inflação subir ainda mais por causa da crise fiscal. E a gente não via perspectiva de solução para esta crise fiscal. Agora, porém, o País ganhou uma agenda e está tentando entrar nos trilhos novamente. Estamos tocando em reformas estruturais, o que era impensável há um tempo. Então, já é uma transformação, há coisas para serem celebradas. Agora, para ver um impacto concreto, em termos de emprego e atividade econômica, infelizmente, ainda vai demorar. A redução da inflação precisa avançar, para que o Banco Central possa reduzir mais a taxa de juros e a gente possa colher frutos disso de forma mais palpável.

Então, quando a população poderá sentir a melhora da economia?
Tudo isso dando certo, só em 2018, em meados de 2018. Até porque muitas empresas, principalmente as de pequeno e médio porte, não terminaram de ajustar seus quadros e ainda precisam demi­­­­­tir. Também há muitos empregados ociosos. Então, a gente precisa completar este ciclo do emprego. Quanto mais confiança houver na economia, mais rápido este ciclo vai terminar. Porém, ainda devemos ter mais dois trimestres de demissões. E daí para voltar a contratar ain­­­­da vai demorar. Vamos fi­­­­car mais um tempo sem ge­­­rar emprego porque o estrago foi muito grande e a gente vai passar por um período de cica­­­­trização de feridas, o que vai exigir paciência e perseverança. O positivo é que te­­­­­mos um governo mais consciente, que sabe que se errar pode ter novas recaídas.

Qual a principal missão do governo neste cenário?
O País está mergulhado em uma crise muito séria, sem precedentes. Então, a missão de Temer é arrumar a macroeconomia. Uma pena que a gente esteja de novo discutindo dívida pública, déficit público, inflação e recessão. São temas do passado que, por erros da política econômica, infelizmente voltaram. Então, agora, é preciso dar um passo atrás e discutir macroeconomia porque ela está sufocando o País. A grande missão do governo é trazer de novo normalidade à economia e essa volta aos trilhos também é muito importante para a estabilidade política do País.

Qual o instrumento para a arrumação da economia?
O ajuste fiscal, porque a mãe de todas as crises é a questão fiscal. Claro que muitos eventos não econômicos, como a Lava Jato, agravaram o quadro econômico; mas a raiz de tudo é a crise fiscal, que nos jogou neste quadro inflacionário. No ano passado, também perdemos o grau de investimento por conta da dívida pública. Então, não há como escapar do ajuste fiscal. É preciso corrigir os excessos. E, apesar de esta não ser a primeira crise fiscal do País, é bom lembrar que talvez esta seja a mais grave e que os instrumentos fiscais do passado já não estão mais disponíveis. No passado, fechávamos as contas aumentando a inflação, mas a sociedade quer ver a inflação de volta à meta. Também já aumentamos a carga tributária, mas a sociedade não tolera mais aumento de imposto. Aumentar a dívida pública também não pode. Então, não tem jeito, tem que cortar despesa, corrigir os excessos. O problema é que temos um orçamento excessivamente rígido. Cerca de 90% das despesas do Governo Federal já vêm carimbadas. Então, só uma reforma estrutural vai conter os agravantes dos gastos públicos. Se pensarmos historicamente, o PMDB nunca foi um partido que defendia veementemente uma reforma estrutural. Hoje, porém, está propondo isto porque não há outra opção. Agora, nem a CPMF nos salva.

A aposta do Governo Temer para o ajuste fiscal é a PEC dos Gastos. Você acha que esta medida é suficiente?
A PEC do Teto é muito importante, porque impõe uma disciplina fiscal e força o governo a respeitar uma restrição orçamentária. Mas, sozinha, a PEC não consegue fazer o ajuste fiscal. Para isso, é preciso avançar em mudanças estruturais e o primeiro passo é a Reforma da Previdência. Já estamos atrasados em relação à reforma. Então, por mais desagradável que seja, já que mexe com a vida das pessoas, a reforma precisa vir e de forma bastante ambiciosa, para que lá na frente não falte dinheiro para a aposentadoria. Acho difícil, no curto espaço de tempo, avançarmos em mais agendas. Mas não tenho dúvida de que a PEC do Teto, uma vez sendo aplicada, também vai forçar os governantes a reavaliarem políticas públicas, passando o pente-fino e melhorando a locação dos recursos públicos. E isso é muito importante, porque a gente gasta muito mal nossos recursos.

Com isso, como devem ficar os indicadores econômicos neste ano?
Vai demorar para completar a volta na economia. Então, devemos levar mais dois trimestres para enxergar de fato um reflexo da melhora da política monetária. A Selic tem que abaixar muito mais, mas o caminho de redução de juros tem que vir de forma segura, enxergando a inflação na meta novamente. Hoje, a inflação é de 8,4%, muito acima da meta de 4,5%, mas há sinais e espaço para a queda da taxa. É por isso que o Banco Central começou a redução dos juros, mas ele vai ser cauteloso. Então, só deve cortar a Selic até 13,5% neste ano. Sobre a inflação, o Ilan Goldfajn (presidente do Banco Central) fala em entregar 4,5% no ano que vem. É difícil, ambicioso, mas é possível, apesar de componentes como os alimentos serem muito voláteis, causando incerteza. O importante é que há espaço para a desinflação. Isso ajuda muito porque a inflação corrói renda e assusta o empresário. Mas, para termos investimentos de longo prazo, precisamos de uma agenda mais ambiciosa. E, quanto mais rapidamente arrumarmos a macroeconomia, mais chances teremos de construir uma agenda mais ambiciosa no próximo governo.

E o crescimento da economia?
Ainda deve ser muito baixo no ano que vem. Hoje, a projeção do PIB (Produto Interno Bruto) é de 1,2% para 2018, mas acho que o mercado vai rever esta projeção para abaixo de 1%. Eu acredito mais em 0,5%. Já neste ano a queda é entre 3% e 3,5%. A grande questão seria ver se o governo conseguiria estabilizar a economia até o fim do ano. E, pelo visto, o terceiro trimestre ainda vem com queda de PIB. Vamos torcer para que o último trimestre venha estabilizado, mas ainda não dá para garantir que isso vai acontecer. Afinal, a gente ainda vai demorar a ter uma economia ganhando tração. Então, só devemos colher os frutos desse ajuste de forma mais clara, crescendo e gerando emprego, mais para o fim do ano que vem. E isso ainda vai depender da política. É importante que o governo entregue bastante coisa para ter um quadro político mais favorável em 2018, porque se tivermos um processo eleitoral turbulento, com candidatos esquisitos surgindo no próximo ano, os investidores podem puxar o freio de mão novamente para esperar um momento melhor para investir.

 

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