Petrobras

Aliados de Bolsonaro abrem fogo contra Castello Branco em redes sociais

A gestão Castello Branco promoveu mudanças na política de remuneração da estatal, privilegiando a bonificação de executivos em detrimento dos empregados sem cargo de chefia

Roberto Castello Branco, presidente da PetrobrasRoberto Castello Branco, presidente da Petrobras - Foto: Arquivo /Fabio Rodrigues Pozzebom /Agência Br

Após a reação negativa do mercado financeiro, as redes sociais bolsonaristas entraram em campanha para justificar a troca no comando da Petrobras, reforçando críticas à gestão do atual presidente da estatal Roberto Castello Branco e fazendo até acusações sobre a presença de executivos ligados ao petista José Dirceu no comando da companhia.

A estratégia é semelhante à adotada após as saídas de Sérgio Moro do Ministério da Justiça e de Luiz Henrique Mandetta do Ministério da Saúde, ambos em 2020. Em todos os casos, as redes sociais rapidamente transformaram os ex-aliados em traidores.

A deixa para o início da campanha contra Castello Branco foi dada pelo próprio presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que questionou o fato de Castello Branco trabalhar em home office desde o início da pandemia, mesmo ganhando salário de "mais de R$ 50 mil por semana".


"Está há 11 meses em casa, sem trabalhar", afirmou o presidente em encontro com apoiadores na manhã de segunda (22), quando as ações da companhia já vinham derretendo com o termo de intervenção estatal em sua gestão. Ele afirmou, no entanto, que não sabia o valor exato do salário do presidente da estatal, embora o governo tenha a última palavra sobre o assunto.

Já no fim da manhã de segunda, começaram a circular em grupos de WhatsApp um texto do site "Agenda do poder" que questiona mudança na polít ica de remuneração dos executivos da empresa feita em 2019, sob o título; "VERGONHOSO! Roberto Castelo Branco se autoconcedeu bônus milionário na Petrobras".

"Liberal em temas de interesse social, Castelo Branco transmuta-se num empedernido autoritário, quase um stalinista, quando o assunto é bônus da diretoria", diz o site.

Nesta terça, em publicação defendendo isenções tributárias para os combustíveis, o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), filho do presidente, pede a apoiadores que publiquem "matéria explicando os MOTIVOS REAIS da demissão do Presidente da Petrobras", abrindo espaço para a divulgação do texto da "Agenda do Poder".

De fato, a gestão Castello Branco promoveu mudanças na política de remuneração da estatal, privilegiando a bonificação de executivos em detrimento dos empregados sem cargo de chefia. Em caso de cumprimento de todas as metas estabelecidas, o presidente da companhia poderá ter até 13 salários a mais em um ano.

O jornal Folha de S.Paulo publicou reportagem sobre a mudança em abril de 2019. Em março de 2020, em nova reportagem, mostrou que a empresa levaria a assembleia de acionistas, mesmo durante a pandemia, uma proposta de remuneração que triplicaria os bônus aos diretores como prêmio pelo lucro recorde de 2019.

Não houve à época críticas públicas de Bolsonaro nem de sua base de apoio em redes sociais. Agora, após a decisão pela saída de Castello Branco, publicações questionando o bônus e os salários da direção da Petrobras vêm sendo replicadas por aliados e apoiadores.

As deputadas federais Bia Kicis (PSL-DF) e Carla Zambelli (PSL-SP), por exemplo, compartilharam vídeo em que o comentarista Caio Coppolla, da rede CNN, compara os salários de Bolsonaro e Castello Branco –que, ressalta antes, seria um "excelente gestor".

"Vocês fazem ideia quando recebe em remuneração esse senhor, em home office desde março do ano passado, como gosta de frisar o presidente da República, e que tratou tão desdenhosamente do problema dos caminhoneiros que enfrentam sim a pandemia de peito aberto?", pergunta.

Em nota divulgada na tarde desta terça-feira (23), após publicações dos bolsonaristas, a Petrobras destacou que a política de bônus foi aprovada pelo próprio governo em assembleias de acionistas da estatal. Em 2019, votou favorável à nova política. Em 2020, votou a favor do aumento do orçamento para pagar os bônus referentes ao lucro do ano anterior.

"O presidente e a diretoria não têm o poder de aumentar os próprios salários", diz a nota. "Qualquer eventual alteração na remuneração dos executivos passa obrigatoriamente por diversas instâncias de aprovação", completa, citando a Sest (Secretaria de Coordenação e Governança das Empresas Estatais) e as assembleias.

Em assembleias de acionistas, frisa a companhia, "o Estado brasileiro, na qualidade de acionista controlador e através da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional, votam, aprovando ou rejeitando a proposta".

A empresa defende ainda que a remuneração do presidente da Petrobras, incluindo os bônus, corresponde a 25% da remuneração total anual dos presidentes de empresas do mesmo porte. Considerando a diretoria, o valor pago pela estatal corresponderia a 72% da média do mercado.

Outras teorias vêm sendo espalhadas por meio de publicações apócrifas, principalmente pelo WhatsApp. Segundo uma delas, o aumento do preço dos combustíveis é um plano de petistas infiltrados na Petrobras para causar uma revolta popular e paralisar o Brasil com nova greve dos caminhoneiros.

Outra tese acusa funcionários da estatal de serem ligados ao petista José Dirceu e se aliaram aos governadores para elevarem os preços dos combustíveis e ajudarem os estados com o aumento da arrecadação do ICMS.

Segundo esse áudio, o presidente indicado por Bolsonaro, o general Joaquim Silva e Luna, já teria demitido 300 funcionários da Petrobras e desocupado um andar da sede da empresa para abrigar serviços de inteligência do Exército e a Polícia Federal.

Em publicação no Twitter, Zambelli reforça o discurso de que o PT ainda tem poder na empresa. "Um bom dia para comprar ações da Petrobras. Só aguardando a alta que terá depois que o General Luna e Silva limpar toda a petezada que infelizmente ainda está lá."

Silva e Luna ainda não foi nomeado para o comando da estatal. Seu nome ainda precisará ser aprovado pelo conselho de administração da companhia.

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