Após oito anos, pessoas físicas voltam a ser 20% na Bolsa

Aumento advém não só de mais pessoas que investem em ações, mas, principalmente, da saída de estrangeiros.

Bolsa de valoresBolsa de valores - Foto: Reprodução/Internet

Em julho, 20% do volume de compra e venda da Bolsa brasileira veio de pessoas físicas. Tamanha fatia não era alcançada desde 2011, quando a movimentação vinda de CPFs era de 21,44%.

O aumento advém não só de mais pessoas que investem em ações, mas, principalmente, da saída de estrangeiros.

Neste ano, a B3 bateu a marca de cerca de um milhão de CPFs cadastrados, recorde histórico. O número não é preciso pois aproximadamente 5% do total são de pessoas que possuem conta em mais de uma corretora.

De 813 mil investidores pessoa física em 2018 (17% do total) a Bolsa brasileira conta agora com 1,16 milhão.

Já a participação dos estrangeiros saiu de 47,2% para 43,7%, com saldo de investimentos negativo em R$ 10,4 bilhões ao fim de julho. O número se aproxima da balança de 2018, quando R$ 11,5 bilhões deixaram a Bolsa.

Leia também:
Bolsa de Valores atinge 1 milhão de investidores pessoa física
No exterior, Bolsas têm pior semana do ano com guerra comercial

"O estrangeiro tem saído desde a segunda metade de 2018, que foi o primeiro ano que tivemos mais saída de fluxo do exterior do que entrada, devido a uma grande incerteza com as eleições", afirma Victor Cândido, economista-chefe e sócio da Journey Capital.

"Havia a dúvida se Jair Bolsonaro iria conseguir implantar um governo liberal."
Segundo Cândido, a menor diferença da história entre os juros brasileiro e americano também impulsiona essa saída. Com os cortes da semana passada, as taxas de juros agora são de 6% no Brasil e de 2% a 2,25% nos Estados Unidos.

A queda na Selic brasileira, por outro lado, contribuiu para que a pessoa física migrasse o investimento da renda fixa para a variável, o que explica a maior participação na Bolsa. "Esse aumento vem de pessoas que já investem em outras classes de produtos. Um cara que estava no fundo de DI e foi para ações. Temos que ver se essa mudança é permanente ou passageira."

"Dada a reforma da Previdência, a classe média deve buscar mais a previdência privada, e esses fundos, por sua vez, têm mais alocações em ações. Pode ser que a compra direta de brasileiros caia, mas a participação deles nas carteiras que contam com ações cresça", diz Cândido.

Outro catalisador da entrada de pessoas físicas no mercado de ações são as corretoras e fintechs (startups do setor financeiro), que ampliaram a atuação nos últimos anos com uma oferta maior de produtos, em movimento puxado pela XP Investimentos.

"As plataformas digitais permitem a quem tem pouco recurso investir. Mas a abertura do mercado, com bancos digitais e novas corretoras, além de oportunidades, traz golpe e nem todo mundo percebe esses riscos", diz Bruno Mori, planejador financeiro certificado (CFP) pela Planejar.

Mori cita campanhas publicitárias de investimentos que não são prefixados e mesmo assim garantem rentabilidade, o que é ilegal. A dica do planejador é se atentar a reputação da corretora, há quanto tempo ela está no mercado e se tem autorização da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) e do Banco Central para atuar.

Ele também recomenda investir em ações só após ter uma reserva de emergência garantida. Segundo Mori, o ideal é acumular uma quantia equivalente à totalidade de gastos em um ano.

"Há uma valorização burra do mercado financeiro. As pessoas olham ganhos dos outros, veem filmes sobre o mercado de ações, e falam 'quero isso para mim' sem pensar nas consequências, no risco".

Para Raymundo Magliano Filho, presidente da Bolsa de 2001 a 2008, a educação financeira dos brasileiros também é uma responsabilidade da B3. "A imagem de casa de jogo, coisa de risco, ainda não se dissipou e isso depende do esforço da Bolsa de se aproximar da população. Mas isso não muda rápido, especialmente o valor cultural", afirma Magliano.

Para ele, o desenvolvimento do mercado de capitais depende do aumento da participação da população e da quantidade de companhias de capital aberto. No momento, são 608 empresas listadas na B3. "Tínhamos que ter 2 mil para nos aproximarmos das Bolsas estrangeiras".

Magliano defende que a aplicação em ações na Bolsa de Valores seja vista como uma forma de inclusão social, com a distribuição de dividendos –lucro das empresas repartido entre os acionistas.

"Mas o dinheiro do brasileiro vai para o consumo, não para o investimento. Já a renda média nos Estados Unidos é muito maior, não dá pra concorrer de igual para igual".

Veja também

BB formaliza parceria com suíço UBS para banco de investimentos

BB formaliza parceria com suíço UBS para banco de investimentos

Experience Club expande operação para o Nordeste
Lideranças

Experience Club expande operação para o Nordeste