Boeing desiste de comprar área de aviação comercial da Embraer

Devido a crise da Covid-19, a Embraer desvalorizou brutalmente, levantando dúvidas sobre o preço a ser pago pela brasileira

Boeing e EmbraerBoeing e Embraer - Foto: Eric Piermont / AFP

A compra da área de aviação civil da Embraer pela Boeing, maior negócio aeroespacial da história brasileira, foi cancelado. O anúncio foi feito na manhã deste sábado (25) pela empresa americana, que afirmou ter rescindido o contrato porque a fabricante brasileira não teria cumprido todas as suas obrigações contratuais para executar a separação da sua linha de aviões regionais.

Mas as dificuldades financeiras da Boeing devido à conjunção de uma crise interna, com a paralisação da produção do best-seller 737 MAX por problemas técnicos que geraram acidentes fatais, com a queda de demanda mundial pela pandemia do novo coronavírus, são fatores considerados centrais para o desfecho por envolvidos nas negociações. Não só: a crise da Covid-19 desvalorizou brutalmente a Embraer também, levantando dúvidas sobre o preço a ser pago pela brasileira.

As empresas tinham até a meia-noite desta sexta-feira (24) para fechar o acordo em termos técnicos. Isso não ocorreu, com duas versões distintas para o caso. "A Boeing trabalhou diligentemente nos últimos dois anos para concluir a transação com a Embraer. Há vários meses temos mantido negociações produtivas a respeito de condições do contrato que não foram atendidas, mas em última instância, essas negociações não foram bem-sucedidas", disse Marc Allen, presidente da Boeing para a parceria com a Embraer e operações.

Segundo ele, "é uma decepção profunda". Allen não detalhou quais seriam os itens não cumpridos pelos brasileiros. A Embraer ainda não se manifestou oficialmente. Executivos da empresa afirmam que os detalhes seriam mínimos e a Boeing não renegociou o prazo porque decidiu que a compra não seria viável agora.

Eles também levantam a hipótese de que a americana quis evitar pagar as multas contratuais estimadas em até US$ 75 milhões (R$ 420 milhões nesta sexta) por conta de uma desistência –valores não são conhecidos, mas são altos segundo quem tem familiaridade com a operação.

Os americanos vivem uma crise dupla. A do 737 MAX é a maior da história da Boeing, mas a pandemia dificultou ainda mais a vida da fabricante americana devido ao tombo na demanda do setor aéreo. Sua ação custava R$ 1.820 no último dia de 2019 e R$ 716 na sexta.

Já a Embraer está sob impacto da Covid-19, com adiamentos de entregas e revisão de pedidos. Sua ação nos EUA custava R$ 109 em 31 de dezembro passado e, nesta sexta, fechou a R$ 32,50. Além disso, a União Europeia também complicava o negócio, sendo que seu órgão regulador era o último que faltava aprovar a tratativa -deixou a decisão para 7 de agosto, no que era visto por brasileiros e americanos meramente como proteção à europeia Airbus.

Seja qual for a verdade sobre o caso, a implosão do negócio é um grande revés para ambas as empresas. O negócio entre Boeing e Embraer começou a ser costurado em 2017, quando a maior rival da fabricante americana, a europeia Boeing, comprou a linha de jatos regionais C-Series, da canadense Bombardier.
A empresa é a maior rival da Embraer, ocupando o segundo posto no mercado regional. Com a absorção da linha, renomeada A220, os europeus passaram a ter uma aeronave num nicho em que não trabalhavam, contando com a enorme capilaridade comercial para vendê-la mundo afora.

Isso alarmou a Boeing e também a Embraer, que passou a contemplar opções para aumentar a sua escala de venda. Os americanos também precisavam urgentemente renovar sua área de engenharia, que vinha apresentando deficiências e lentidão em projetos antes ainda da crise do 737 MAX.

A coincidência de interesses levou ao negócio, que foi fortemente enquadrado pelo governo brasileiro, detentor então de uma ação especial ("golden share") que lhe permitiria vetar qualquer tratativa. A ação era um resquício do processo de privatização da Embraer, em 1994.

Durante um ano, o Ministério da Defesa trabalhou com as duas empresas numa fórmula que contemplasse todos os envolvidos. Inicialmente, a Boeing queria comprar toda a Embraer, inclusive sua área militar e de aviação executiva.
Para evitar perder musculatura na decisão de projetos estratégicos, os militares acabaram favorecendo o desenho final. Nele, a Boeing levaria a área de aviação civil da Embraer formando uma empresa na qual teria 80% do controle, por US$ 4,2 bilhões (R$ 23,5 bilhões).

E a área militar da Embraer ficaria com a empresa nacional remanescente, assim como o setor de jatos executivos. Além disso, uma joint-venture seria formada, com controle de 51% dos brasileiros, para a venda do cargueiro militar C-390.
O acordo teve o beneplácito do Planalto sob Michel Temer (MDB) e foi ratificado por Jair Bolsonaro (sem partido) no começo de 2019.

O ano passado transcorreu tranquilamente, com a intrincada operação para desassociar parte das empresas, um processo chamado de "destrinchamento" internamente, sendo feito aos poucos. A Boeing o considerava praticamente pronto, mas havia questões em aberto.

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A dupla crise enfrentada pela Boeing sacramentou as dificuldades. Os acidentes que levaram o modelo 737 MAX à paralisação de produção e à queda do presidente da empresa, após ser o avião com mais encomendas (5.000) da história da Boeing, criaram uma incerteza enorme sobre a capacidade de investimento da empresa. Com faturamento anual pré-crise na casa dos US$ 100 bilhões (R$ 560 bilhões), a Boeing poderia absorver a área civil sem problemas, de todo modo. Mas a chegada da Covid-19, que interditou o setor aéreo mundial, reduziu sua janela de manobras.

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