Brasil vê brecha para ampliar exportação para China, mas teme tarifas sobre aço nos EUA
Com taxação de alimentos, país poderia elevar vendas para o mercado asiático para substituir fornecimento americano. Mas efeitos danosos do protecionismo são maiores que ganhos
O governo brasileiro acompanha com atenção os desdobramentos da aplicação de tarifas pelos Estados Unidos sobre produtos importados de China, Canadá e México, bem como a retaliação desses países. Ainda que a medida não afete o Brasil diretamente, as movimentações podem abrir oportunidades de negócio para os produtos nacionais.
Por outro lado, a confirmação da ofensiva protecionista do governo de Donald Trump, nos EUA, traz receios em relação a alíquotas que poderão afetar o Brasil, sobre aço e alumínio, previstas para entrar em vigor ainda neste mês.
A reação chinesa de taxar alimentos americanos, entre eles frango, carne e soja, que são itens de destaque na pauta de exportações brasileiras, pode acabar beneficiando o Brasil, pois Pequim terá de buscar esses produtos em outros mercados. Além disso, Trump também ameaçou aplicar tarifas sobre alimentos a partir de abril.
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— De modo geral, o Brasil tem capacidade de atendimento (a um possível aumento de demanda pela China), sobretudo se o mundo conseguir avançar no acordo de paz entre Rússia e Ucrânia. Isso poderia reduzir o preço de insumos importantes, como fertilizantes, e contribuiria para aumentar ainda mais a oferta no Brasil no médio e longo prazo — diz o economista André Galhardo, da consultoria Análise Econômica.
O presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, pondera, no entanto, que esse ganho tende a ser passageiro:
— Quando um dos dois principais produtores mundiais de soja, carne bovina e frango (EUA e Brasil) encontra dificuldades para exportar, a tendência natural é que os compradores busquem o outro fornecedor. No entanto, essa situação não costuma se sustentar por muito tempo. Medidas comerciais são constantemente revistas e, dada a importância econômica dos Estados Unidos e da China, é provável que ajustes ocorram.
Imprevisibilidade
O especialista destaca que, caso haja um aumento significativo das exportações de commodities brasileiras, a oferta interna de alimentos pode ser reduzida, o que pode pressionar os preços no Brasil e a inflação. Já Galhardo avalia que a chance é reduzida, pois um eventual aumento das exportações brasileiras seria gradual.
Para pessoas envolvidas nas conversas entre o governo brasileiro e empresários para conter a alta dos alimentos, as medidas protecionistas não devem afetar no curto prazo o preço da comida por aqui. As reuniões com o setor privado para tratar de possíveis ações que possam dar um alívio no bolso do consumidor devem prosseguir nesta semana.
José Augusto ressalta que a imprevisibilidade do atual cenário exige que o Brasil aja com prudência:
— O Brasil precisa adotar uma posição neutra. Até o momento, a Europa, que tem mais peso político e econômico que o Brasil, também não tomou partido. O ideal é evitar declarações ou medidas que possam ser vistas como alinhamento a um dos lados.
Segundo interlocutores do Itamaraty, é necessário mais tempo para avaliar a movimentação das peças no comércio global. Há preocupação em relação à tarifa de 25% sobre as importações de aço e alumínio. A promessa é que ela entre em vigor no próximo dia 12. Em 2024, o Brasil foi o segundo maior fornecedor de aço para os EUA, em volume, atrás apenas do Canadá.
O governo brasileiro está tentando uma aproximação com o governo Trump. O vice-presidente da República e ministro do Desenvolvimento, Comércio e Indústria, Geraldo Alckmin, pediu uma conversa com o secretário de Comércio, Howard Lutnick. Ela estava prevista para a sexta passada, mas deve acontecer nos próximos dias.
O governo brasileiro estuda a redução das tarifas de importação do etanol como uma moeda de troca contra a taxação do aço e alumínio.
Impactos na indústria de carros
Uma das indústrias mais afetadas pelas tarifas de Trump é a automotiva. Metade dos cerca de 16 milhões de carros leves vendidos nos EUA em 2024 é importada, e muitos deles vieram de México e Canadá. Esses produtos passaram a ser taxados em 25% ontem.
Segundo Bruno Corano, economista da Corano Capital, o Brasil poderia até se beneficiar exportando carros para os Estados Unidos. No entanto, ele observa que a vantagem brasileira pode ser limitada pela diferença nos custos de produção:
– No setor automotivo, há uma interdependência entre o modelo do carro, a unidade industrial e o local de fabricação. Dessa forma, os modelos produzidos no México não podem ser substituídos pelos fabricados no Brasil, pois não é possível transferir uma linha de produção de uma unidade para outra em curto prazo.
Além disso, com o aumento dos custos das autopeças vindas do México, a cadeia automotiva global pode sofrer um efeito "cascata", impactando os preços no mundo todo.
Corano acredita que a política tarifária de Trump não deve se sustentar por muito tempo:
– As tarifas impostas no primeiro governo Trump duraram apenas quatro meses, o que mostra que essas ações são mais um artifício de negociação do que um mecanismo para gerar arrecadação real para o país.

