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Cenário internacional, câmbio e inflação afastam Brasil de juros mais baixos

Ao longo de 2021, a alta da comida desacelerou, mas o IPCA tem encontrado novos vilões nos combustíveis e na energia elétrica

InflaçãoInflação - Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Sensível ao cenário externo e ao câmbio e constantemente assombrado pelo fantasma da inflação, o Brasil tem dificuldade para sustentar uma taxa de juros em um patamar mais baixo por muito tempo.

Hoje, a taxa básica, a Selic, está em 4,25% ao ano. Até o começo de 2021, ela chegou a ficar na mínima histórica de 2%, e o mercado, de acordo o mais recente boletim Focus, espera que os juros fiquem em 7% ao ano.

Em março, o Copom (Comitê de Política Monetária) elevou os juros pela primeira vez em quase seis anos, em 0,75 ponto percentual, para 2,75%, e repetiu a dose nas reuniões seguintes, acompanhando a alta da inflação.

Ao longo de 2021, a alta da comida -que havia disparado na pandemia, afetando principalmente os mais pobres- desacelerou, mas o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) tem encontrado novos vilões nos combustíveis e na energia elétrica. Em 12 meses até junho, o índice oficial avançou 8,35%.

Um movimento semelhante ocorreu a partir de outubro de 2014, quando a Selic entrou em um novo ciclo de alta, chegando a 14,25% em 2015, para responder a um forte aumento da inflação no governo da ex-presidente Dilma Rousseff (PT).

"A volatilidade interna do Brasil é muito alta e por sermos bastante vulneráveis ao que ocorre no ambiente externo, isso acaba tornando difícil a manutenção dos juros em um patamar mais baixo", avalia José Julio Senna, do Ibre-FGV (Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getulio Vargas) e ex-diretor do Banco Central.

Ele, que comandava na década de 1980 a equipe que definia onde as taxas ficariam, ressalta que o BC poderia ter sido mais conservador durante o último ciclo de baixa dos juros, mas as incertezas provocadas pela pandemia de Covid-19 acabam prejudicando o planejamento da política monetária.

O economista Bráulio Borges, também do Ibre, avalia que a decisão do BC de voltar a subir juros este ano é acertada. "Após a queda provocada pela pandemia, o PIB [Produto Interno Bruto] reagiu bem no primeiro trimestre, embora alguns setores, como de serviços, estejam mal. Mas alguma normalização da política monetária era necessária."

Borges considera, no entanto, que a busca pelo juro neutro (a taxa que estimula o crescimento, mas sem resultar em um aumento da inflação), que já foi de -5% durante a crise de 2015 e 2016 e hoje está em torno de 6,5%, é muito mais uma demanda do mercado.

"Toda a discussão no mundo vai na direção de que a política monetária não pode olhar só para a inflação. O BC passou a ter como objetivo estimular a atividade econômica e o pleno emprego como parte de seu mandato, mas ele ainda não age dessa forma e o foco continua sendo a inflação. "

"É difícil dizer que a meta deveria ser o juro neutro. A ideia é ter uma economia equilibrada, mas isso se complica pelos choques que vêm tanto de fora e de dentro", avalia de Juliana Inhasz, do Insper.

Ela ressalta que o Brasil tem tido de conviver com inflação, flutuações do câmbio e baixo crescimento. "Para o crescimento, subir juros é um problema, já que isso desestimula investimentos. Mas a gente tem uma inflação que subiu muito e está apertando o bolso, principalmente na classe média baixa."

A economista avalia que a política do BC está acertada, ao tentar reduzir o impacto da alta de preços. "Se o governo tem de escolher um lado, ele tenta reduzir o desconforto para quem tem um custo de vida maior pela frente."

Já o professor da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) Pedro Paulo Zahluth Bastos argumenta que, quando o aumento da inflação não é resultado de pressões de demanda, como ocorre agora, políticas alternativas de controle são mais eficientes para antever e limitar choques de preços do que subir juros.

Isso pode ser feito por meio de outras políticas, como impostos sobre commodities e manutenção de estoques reguladores de produtos.

Ele lembra de um estudo do americano Christopher Adolph, que mostra como a origem dos presidentes dos bancos centrais tem impacto sobre a política de juros: elas são mais elevadas nos países onde o BC é comandado por alguém que veio do setor privado. Já os que vêm do setor público normalmente deixam as taxas de juros mais baixas.

"O sistema financeiro cresceu muito e para os seus agentes é importante ter uma inflação mais baixa e evitar perdas reais no rendimento de ativos. A definição da taxa de juros também é uma questão política", diz.

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