Com isolamento, Ipea prevê queda de ao menos 0,4% do PIB

Recuo da economia e tempo de recuperação vão depender da duração das medidas restritivas de convívio social

Ruas vazias em período de combate à Covid-19 no BrasilRuas vazias em período de combate à Covid-19 no Brasil - Foto: Marcello Casal/Agência Brasil

O Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) avalia que as medidas de isolamento social para enfrentar o novo coronavírus levarão o PIB brasileiro a uma queda de 0,4% a 1,8%, dependendo da duração das restrições à mobilidade das pessoas.

O cenário mais brando considera que o isolamento durará um mês. Já o mais forte, três meses. Um cenário intermediário, de dois meses, levaria a economia a recuar 0,9% em 2020. Os dados são parte do documento Carta de Conjuntura, divulgado nesta segunda-feira (30).

Em entrevista nesta segunda, o ministro da saúde, Henrique Mandetta, defendeu a manutenção das medidas de isolamento, alvo de críticas pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido). No domingo (29), em nova ação para questionar as medidas, Bolsonaro fez um passeio por ruas e lojas do Distrito Federal.

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No documento divulgado nesta segunda, o Ipea reconhece que é difícil fazer projeções macroeconômicas, "dado o ineditismo do choque sobre a economia mundial". Economistas consultados pelo Banco Central para o boletim Focus reduziram suas projeções de crescimento de 1,48% para recuo de 0,48%.

Os autores da carta do Ipea dizem que, em todos os três cenários analisados, consideraram a hipótese de rápida recuperação parcial da economia no terceiro trimestre, que depende do sucesso das medidas mitigadoras que estão sendo adotadas no País.

"A economia brasileira enfrenta a crise em um momento em que se observava uma retomada gradual do crescimento depois de um bimestre negativo no final de 2019", diz o documento assinado pelo diretor de Estudos e Políticas Macroeconômicas do instituto, José Ronaldo de Souza Júnior, por Paulo Mansur Levy, Francisco Eduardo de Santos e Leonardo Mello de Carvalho.

Para eles, um complicador inicial é que a posição de partida para o enfrentamento da crise é delicada, com déficit primário elevado e relação dívida/PIB alta. Por isso, dizem calibrar os necessários instrumentos de resposta é importante para evitar que a deterioração das contas públicas se torne um obstáculo à recuperação.

Em dezembro de 2019, o Ipea projetou crescimento de 2,3% para o PIB de 2020, valor revisto para 2,1% depois do resultado mais fraco do quarto trimestre - em 2019, a economia cresceu 1,1% com sinais de desaceleração do investimento e da indústria no fim do ano.

O estudo considera impactos internacionais, como choque das commodities e efeitos na balança comercial e no risco-país, e os impactos nacionais na redução da atividade econômica. Responsável por cerca de 60% do PIB, o setor de serviços, por exemplo, sofre os maiores efeitos.

O comércio, onde estão 18,29% dos trabalhadores ocupados, também sofrerá fortes perdas, assim como setores industriais, como bens de consumo duráveis, têxteis, confecções e calçados. Já a agricultura, que ajudou a manter o PIB em anos recentes, deve perder pouco com a crise e deve crescer 3,8% no ano. As indústrias extrativas, apesar dos choques de commodities, devem crescer 2,5% - o setor sofreu em 2019 com a suspensão de atividades de minério de ferro após a tragédia de Brumadinho (MG).

"A dúvida aqui é a velocidade da recuperação, que depende do tempo de isolamento: quanto maior a duração, tudo mais constante, maior seria a dificuldade de a economia se recuperar", diz o texto, ressaltando que não faz juízo de valor sobre a necessidade das medidas.

Para 2021, o crescimento projetado situa-se entre 2,7% e 3,1%, dependendo do tempo de duração do isolamento. O Ipea reviu também suas projeções de inflação, que caíram de 3,3% para 2,9% em 2020, com desaceleração em todos os segmentos projetados.

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