Copom prevê queda forte do PIB no primeiro semestre e retomada com idas e vindas

O Copom avaliou, ainda, que o impacto da pandemia sobre a economia brasileira será deflacionário -com inflação negativa -, em razão da diminuição de demanda

DinheiroDinheiro - Foto: AFP

Para o Copom (Comitê de Política Monetária), do Banco Central, a menos que haja avanços médicos no combate à pandemia do novo coronavírus, a retomada da economia depois da crise, além de mais gradual do que a considerada, deverá ter "idas e vindas".

Segundo o comitê, o cenário básico considerado passou a ser o de uma queda forte do PIB (Produto Interno Bruto) na primeira metade deste ano, seguida de uma recuperação gradual a partir do terceiro trimestre deste ano.

A avaliação foi publicada na ata da reunião, publicada nesta terça-feira (12), que decidiu pelo corte de 0,75 ponto percentual da Selic, para 3,00%. A reunião ocorreu na última quarta-feira (6). A decisão surpreendeu analistas, que esperavam corte mais ameno, de 0,5 ponto.

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Na ocasião, o BC indicou novo corte, de no máximo 0,75 ponto percentual, na próxima reunião (junho) "para complementar o grau de estímulo necessário como reação às consequências econômicas da pandemia da Covid-19".

O Copom avaliou, ainda, que o impacto da pandemia sobre a economia brasileira será deflacionário -com inflação negativa -, em razão da diminuição de demanda. Com as pessoas em casa e aumento do desemprego devido ao fechamento do comércio, a tendência é que as pessoas tenham menos dinheiro para consumir, então a demanda por produtos diminui.

"A elevação abrupta da incerteza sobre a economia deve resultar em aumento da poupança precaucional e consequente redução significativa da demanda agregada", destacou o comitê.

A inflação oficial brasileira já recuou 0,31% em abril, segundo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). É a segunda maior deflação mensal registrada pelo IPCA desde o início do Plano Real -a queda anterior era de 0,51%, em agosto de 1998.

Os membros do Copom discutiram se existe um limite mínimo para a taxa básica de juros. Por conta das incertezas fiscais, entenderam que a Selic deve ficar em patamar mais elevado que a taxa de juros básica de outras economias emergentes.

"A maioria dos membros ponderou que o limite seria significativamente maior em economias emergentes do que em países desenvolvidos, devido à presença de um prêmio de risco. Foi ressaltado que esse prêmio tende a ser maior no Brasil, dadas a sua relativa fragilidade fiscal e as incertezas quanto à sua trajetória fiscal prospectiva", trouxe o documento.

A piora da trajetória fiscal se deve ao aumento dos gastos públicos e do rombo nas contas do governo em razão das medidas de enfrentamento à Covid-19, além de possíveis frustrações em relação à continuidade das reformas.

A queda na taxa de juros brasileira, que levou a Selic à mínima histórica, foi associada a uma agenda de reformas que permitiriam o reequilíbrio das contas públicas. Após as novas regras de aposentadoria, porém, não foram aprovadas novas medidas. E, com a pandemia, a discussão de reformas no Congresso deve ser completamente interrompida.

Nesse contexto, os membros do Copom analisaram que já estaríamos próximos do nível em que reduções adicionais na taxa de juros poderiam gerar instabilidade nos mercados financeiros e nos preços de ativos. O Comitê destacou a importância do gradualismo na condução da política monetária para responder à essa volatilidade.

Na reunião, dois integrantes ponderaram que, mesmo com a possibilidade de elevação da taxa de juros estrutural, poderia ser oportuno prover todo o estímulo necessário de imediato (com corte maior), com a indicação de manutenção da taxa para a próxima decisão, com o objetivo de reduzir os riscos de descumprimento da
meta para a inflação de 2021.

O juro estrutural é aquele considerado neutro, que não estimula e nem reduz a atividade econômica. Os membros optaram, no entanto, por fazer os cortes de forma gradual.

O colegiado reconheceu que, neste momento, a diminuição de demanda, ainda que associada a uma maior fragilidade fiscal, iniciou um processo de revisão das expectativas de inflação para níveis abaixo da meta fixada pelo CMN (Conselho Monetário Nacional), de 4% em 2020, 3,75% para 2021 e 3,5% para 2022, com intervalo de tolerância mantido em 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.

O diretor João Manoel Pinho de Mello não participou da reunião, seguindo orientação da área de gestão de pessoas do BC. Na semana passada, todos os membros do Copom foram testados para Covid-19. O primeiro resultado do diretor foi positivo. O segundo, negativo, mas foi recomendado um terceiro para a contraprova.

Especialistas alertaram que uma queda brusca na Selic poderia elevar ainda mais o valor do dólar. Quando há crise, investidores buscam ativos mais seguros, com baixa volatilidade, e aplicam em títulos norte-americanos.

Assim, as outras moedas, principalmente as de países emergentes, tendem a se desvalorizar. Com a queda na taxa básica, os títulos brasileiros rendem menos ao investidor, que tem mais um motivo para retirar seus recursos do país.

No dia seguinte à reunião do Copom, o dólar fechou em alta de 2,3%, a R$ 5,8360, novo recorde nominal (sem contar a inflação). Segundo a ata do Copom, "como em outras crises internacionais, o aumento da aversão ao risco e a consequente realocação de ativos tornam o ambiente desafiador para os países emergentes. Em contraste com outras crises mais recentes, em que o epicentro estava localizado no Hemisfério Norte, nessa ele se desloca para todos os países, juntamente com a pandemia."

Além disso, de acordo com o comitê, projeções apontam para uma recessão global. Esses dois fatores explicam uma saída de capitais de países emergentes significativamente superior à ocorrida em episódios anteriores. O colegiado ressaltou que, entre os emergentes, aqueles com maior vulnerabilidade fiscal tendem a ser os mais prejudicados.

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