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Dólar bate R$ 5,67 após Guedes pedir licença para furar teto por Auxílio Brasil de R$ 400

O mercado de câmbio reflete os temores do risco fiscal representado pela intenção do governo em aumentar os gastos com a aproximação da corrida eleitoral de 2022

Ministro da Economia, Paulo GuedesMinistro da Economia, Paulo Guedes - Foto: Edu Andrade/Ministério da Economia

O dólar bateu a máxima de R$ 5,6750 na abertura do pregão da manhã desta quinta-feira (21), uma alta de 2% em relação ao fechamento da véspera. O mercado de câmbio reflete os temores do risco fiscal após o próprio ministro da Economia, Paulo Guedes, nesta quarta-feira (20), falar em licença para gastar fora do teto, regra que limita o crescimento das despesas públicas.

Os juros futuros também abriram com forte aumento nos prêmios, com o DI janeiro 2025 em alta de 60 pontos-base, a 11,50% ao ano. A Bolsa de Valores brasileira iniciou pregão em queda de 2,09%, atingindo 108.462 pontos, a mínima até as 11h01 desta quinta.

O ministro afirmou ainda que o governo quer ser popular, não populista, e que a decisão de furar o teto é política.


Investidores já estavam preocupados com a saúde das contas públicas brasileiras desde que o governo sinalizaou a intenção de romper o teto para garantir um novo Bolsa Família de R$ 400. Alguns analistas já projetavam que o dólar passaria a testar a barreira dos R$ 6 diante desse cenário.

O valor de R$ 400, acima dos R$ 300 estimados anteriormente, é uma exigência do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), preocupado com a popularidade às vésperas da campanha eleitoral. A adesão do próprio Guedes à proposta de furar o teto de gastos, no entanto, piorou o cenário na avaliação dos investidores.

Ativos brasileiros cotados no exterior também registraram queda devido à fala de Guedes na véspera.
Contratos de real transacionados na CME (Bolsa Mercantil de Chicago) caíam 1,4%, com US$ 1 valendo R$ 5,63. Em Paris, um ETF (Exchange Traded Fund, também conhecido como índice de fundo) que acompanha o Ibovespa, principal indicado da Bolsa brasileira, perdia 3,4%, maior queda desde o início de setembro e indo em direção ao menor patamar desde março passado.

O ministro afirmou que a discussão sobre o Auxílio Brasil envolve duas possibilidades no momento: revisar os índices de correção que impactam o teto de gastos ou pedir uma licença para fazer um gasto temporário até o fim de 2022.

Na terça-feira (19), quando a determinação do presidente para o aumento de gastos veio à tona, o Ibovespa, índice de referência da Bolsa, caiu 3,28%, a 110.672 pontos, chegando a recuar 3,91% durante a tarde, quando atingiu a mínima de 109.947 pontos.

E o exterior tampouco ajuda, num dia de queda das bolsas de valores e de moedas emergentes, em meio a renovados temores relacionados ao mercado imobiliário chinês.

Para piorar, o BC (Banco Central) não anunciou venda líquida de dólares, seja na forma de swap cambial, seja de moeda física, para esta quinta (21), mas dada a disparada do dólar agentes financeiros não descartam que o Bacen intervenha de surpresa no mercado.

Para analistas, Guedes jogou a toalha ao abrir espaço para a ala política do governo decidir sobre o aumento de gastos, deixando de ser a última barreira para a implosão do alicerce fiscal do país.

A disparada do dólar e dos juros futuros, além do aumento do risco-país, são as consequências imediatas da percepção do mercado sobre o desequilíbrio das contas públicas, levando o país a um conhecido ciclo que combina inflação e baixo crescimento, segundo Rodrigo Marcatti, especialista da Veedha Investimento.

"Os juros futuros estão explodindo a patamares inimagináveis há dois meses", diz Marcatti. "A situação de perda do alicerce fiscal pode gerar mais inflação, que gera mais alta nos juros, e a gente entra naquele ciclo conhecido de Brasil", afirma.

O aumento dos gastos do governo obrigará o Banco Central a continuar acelerando a alta da taxa básica de juros (Selic) até as eleições em outubro de 2022, avalia Paulo Duarte, economista-chefe da Valor Investimentos. "Até pela queda da popularidade do presidente Jair Bolsonaro, a tendência é isso se intensificar com a aproximação das eleições", diz.

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