Pesquisa da Revista Nature aponta que fracassos no início da carreira podem contribuir com a realização profissional. Descubra como usar os revezes a seu favor
Pesquisa da Revista Nature aponta que fracassos no início da carreira podem contribuir com a realização profissional. Descubra como usar os revezes a seu favorFoto: Arte FolhaPE

Só de pronunciar a palavra fracasso, inconscientemente, a relacionamos com sentimentos de derrota ou tristeza. Isso acontece porque a cultura ocidental, acentuada pelo capitalismo, ao supervalorizar o sucesso por meio da competição e da concorrência, acaba jogando para baixo do tapete um elemento essencial para o crescimento pessoal e profissional: o erro. Nas redes sociais, por exemplo, defeitos raramente exaltados. A Folha de Pernambuco se aprofundou no tema para ajudar a entender as falhas como parte importante em uma carreira bem sucedida.



Os contratempos fazem parte de qualquer profissão, mas seus efeitos a longo prazo ainda são pouco pesquisados. Artigo recente publicado na Revista Nature tomou por base candidatos às bolsas científicas do National Institutes of Health, nos Estados Unidos. Dos dois grupos pesquisados, um declarou ter sofrido fracassos no início da carreira e o outro não. O estudo revelou que aqueles candidatos que citaram o revés no começo da vida profissional tiveram melhor desempenho, ou seja, o fracasso, se bem administrado, tem um poderoso efeito oposto naqueles que perseveraram. Nos primeiros cinco anos, 13,3% dos artigos publicados pelo primeiro grupo acabaram sendo um artigo de sucesso, mais do que o dobro dos 5% do segundo grupo que conseguiu publicar artigos de grande notoriedade.

Essa vantagem de desempenho parece ir além de um simples mecanismo de triagem científica. Exemplos para reforçar a tese não faltam, inclusive de personalidades conhecidas. JK Rowling e Steve Jobs, por exemplo, já deram depoimentos sobre seus primeiros fracassos e a importância deles para o desenvolvimento profissional. Antes de ser um dos maiores nomes da tecnologia, aos 30 anos, Steve Jobs foi demitido da Apple, da Apple, empresa que ajudou a fundar. “Aconteceu que ser demitido da Apple foi a melhor coisa que já poderia ter acontecido comigo. O peso de ser bem-sucedido foi substituído pela leveza de ser iniciante novamente, menos seguro de tudo. Isso me libertou para entrar em um dos períodos mais criativos da minha vida”, declarou Jobs em uma de suas palestras.

info

Crédito: Arte FolhaPE


Para aprender com os erros e dificuldades, a palavra de ordem é resiliência. A psicóloga Rafaela Sampaio destaca a importância de não desistir diante dos primeiros revezes. “É preciso ter autoconhecimento e ser mais resiliente. Quanto mais você tenta, quanto mais você se expõe e faz, maior a chance de errar, mas também aumenta a possibilidade de acertar e aprender”, lembra. “Qualquer profissão, o executivo, o esportista, o artista, o músico, passa por uma longa caminhada e tem vários momentos desafiadores em que pensa em desistir. Mas para você aprender a andar de bicicleta, você tem que cair várias vezes”, explica.

Cair e levantar é o ofício de qualquer judoca, e mais ainda quando falamos do mais graduado mestre de Judô do norte nordeste, com a rara faixa vermelha e 9º Dam. Tadao Nagai, 84 anos, que apesar do reconhecimento que conquistou, o início de sua trajetória no judô não foi nada fácil. Quando tinha 11 anos, pensou em desistir devido ao alto nível de exigência e disciplina que lhe era imposta pelo seu mestre, o professor Ryuzo Ogawa. 

Antes de cada treino, os alunos precisavam lavar o chão e limpar o banheiro e cuidar da manutenção do espaço onde ele também residia, no bairro da Liberdade, em São Paulo. Por já ter trabalhado na roça e conhecer de perto o trabalho pesado, Nagai conseguia se destacar entre os alunos. E por insistência do pai e do seu mestre, deixou de lado a ideia de abandonar o judô e se tornou um dos mais importantes nomes da modalidade no País. 

Aos 15 anos, foi o mais jovem judoca a conquistar a faixa preta. Ao longo da vida coleciona títulos importantes como o de campeão paulista e três vezes campeão brasileiro, duas como atleta e um como treinador. Além disso, aos 30 anos, classificou-se para a primeira participação do Brasil em Olimpíadas, em 1964, em Tóquio da qual só não participou pois o governo brasileiro cortou parte da delegação por conta dos custos. “Judô não é apenas vencer, é saber levar. Saber cair e levantar. A pessoa perde mais quanto mais perde tem incentivo e vontade de vencer. Perder não é feito, feio é ganhar feio. Mesmo na derrota é preciso ter força de vontade”, diz Nagai.

 Saber cair e levantar. A pessoa perde mais quanto mais perde tem incentivo e vontade de vencer. Perder não é feito, feio é ganhar feio

Saber cair e levantar. A pessoa perde mais quanto mais perde tem incentivo e vontade de vencer. Perder não é feito, feio é ganhar feio", ensina mestre de Judô Tadao Nagai. - Crédito: Ed Machado / Folha de Pernambuco


 

O compositor e cantor Igor de Carvalho hoje trilha uma promissora carreira nacional, com parcerias com artistas como Zélia Duncan e o português Manel Cruz, que participam do seu segundo disco “Cabeça Coração”, lançado em janeiro deste ano em um Teatro de Santa Isabel lotado. Mas para chegar nesse ponto, Igor acumulou tentativas, dificuldades e muitos shows vazios. Ele conta que quando resolveu se aperfeiçoar como cantor e violonista além dos próprios amigos, até em casa encontrou resistência. “Eu comecei a receber muitas críticas, principalmente dos amigos. Lembro da minha mãe e do meu irmão fechando a porta quando eu ensaiava. Para chamar a atenção dos amigos, no começo tive que inventar que uma música minha era de Lenine para só depois do elogio revelar que era minha”, brinca. 

“A gente tomba muito, principalmente nesse mercado da música. Nunca houve um momento estável ou tranquilo para se fazer arte no país. Várias vezes somos passados para trás por produtores, por outros artistas. Muitas vezes tocar para pouquíssimas pessoas e elas se levantares no meio do show”, lembra Igor, que revela como encarou esses desafios. “Acho que a repetição lhe traz o trunfo. É importante persistir pois é aí onde a gente encontra nossas dificuldades, se testa e descobre onde pode melhorar, encontrar nossos dons e facilidades para chegar ao grande público. Mas não adianta só repetir, é preciso prestar atenção e estar consciente da sua arte, da sua profissão, da sua história”, sugere. 

"Acho que a repetição lhe traz o trunfo. É importante persistir pois é aí onde a gente encontra nossas dificuldades, se testa e descobre onde pode melhorar", diz o músico Igor de Carvalho. - Crédito: Arthur Mota / Folha de Pernambuco

A psicóloga Rafaela Sampaio destaca a importância de não desistir diante dos primeiros revezes

A psicóloga Rafaela Sampaio destaca a importância de não desistir diante dos primeiros revezes - Crédito: Alfeu Tavares / FolhaPE


 













comece o dia bem informado: