Paulo Guedes prefere fazer negócios com grandes  economias
Paulo Guedes prefere fazer negócios com grandes economiasFoto: Claudio Belli/Valor/Folhapress

Pouco depois de o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) confirmar a eleição de Jair Bolsonaro (PSL), o presidente eleito recebeu uma ligação do presidente norte-americano Donald Trump e manifestou o “desejo de aproximar ainda mais estas duas grandes nações”. Quase no mesmo instante, o economista Paulo Guedes, confirmado como ministro da superpasta da Economia, afirmou que a prioridade do novo governo não é o Mercosul.

Foi assim que, no mesmo dia da eleição, o Governo Bolsonaro reforçou as promessas eleitorais de se aproximar de grandes economias e de economias liberais como a dos EUA. Na campanha, o presidente eleito revelou até a intenção de criar um bloco liberal na América Latina, alinhando-se a países como Paraguai, Argentina e Chile. Este último, por sinal, será o destino da primeira viagem internacional do próximo presidente brasileiro. Futuro ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni (DEM-RS) explicou que o Chile é um grande exemplo para Bolsonaro, por conta da sua capacidade de comercializar com todo o mundo - a chamada abertura comercial, que, no plano de governo enviado ao TSE, é apontada como o principal objetivo do Governo Bolsonaro no que diz respeito ao comércio exterior brasileiro.

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Para muitos especialistas, contudo, os acenos feitos até então colocam em dúvida a capacidade desta equipe de cumprir esse objetivo - avaliado positivamente pelo empresariado devido à ainda baixa participação brasileira no fluxo internacional de mercadorias e serviços. Afinal, com esse posicionamento, o Brasil pode até conquistar novos compradores para seus produtos e novos fornecedores de tecnologia e matéria-prima, como o Chile e Israel - que também já recebeu acenos positivos do presidente eleito. Mas também pode fechar outras portas, inclusive com o seu maior parceiro comercial: a China, que já tem mais negócios com o Brasil do que os EUA e tem realizado diversos investimentos no País, com perspectivas até de fazer aportes em Pernambuco.

Paulo Guedes já disse que preferencialmente vai fazer negócios com grandes economias. E, como o Brasil tem um relacionamento duradouro com os Estados Unidos, a tendência é que essa relação se intensifique. Mas, ao mesmo tempo, seria uma loucura deixar a China de lado. Só que Guedes enxerga a China como uma ameaça e não como uma oportunidade”, pontuou o professor de comércio exterior da Faculdade Damas, Bianor Teodósio. Ele explicou que, por seu posicionamento liberal, tanto Guedes quanto outros membros do Governo Bolsonaro taxam a China de comunista. E, por isso, temem que, em vez de contribuir, os investimentos chineses retirem a soberania nacional. O problema é que não têm sido poucos os investimentos chineses no Brasil. Segundo o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC), os aportes superaram os US$ de 124 bilhões nos últimos 15 anos.

E já há perspectivas de novos investimentos, inclusive em Pernambuco. Na próxima segunda-feira, por exemplo, o Estado recebe uma comitiva com 25 integrantes da província chinesa de Sichuan. Até o vice-governador da região vem. Por isso, há a expectativa de geração de negócios no setor agropecuário e de parcerias para educação, pesquisa e formação de recursos humanos.

Outra comitiva chinesa também visitou o Estado recentemente, mas com foco no Porto de Suape. “A China tem um grupo muito forte de investidores que agora começa a olhar fortemente para Suape. Eles se interessaram nos terminais de grãos e de minérios e se propuseram a negociar com a União para viabilizar a Transnordestina, já que o terminal de minério só faz sentido com a ferrovia”, revelou o presidente do Complexo de Suape, Carlos Vilar, admitindo que, por isso, está receoso do rumo das negociações entre Brasil e China.

“Estamos saindo de uma crise. Então, não podemos enfrentar uma briga com um país como a China, que tem investido aqui. Esta expectativa é muito prejudicial para Pernambuco e para Suape”, lamentou. “Diante dessa aproximação com Trump, que joga muito duro com seus aliados, realmente se cria uma relação peculiar com a China. Precisamos, então, esperar para ver como o Brasil vai se posicionar em relação à guerra comercial EUA x China”, disse Teodósio.

A China, porém, não quis esperar tanto. Por isso, já mandou um recado para Bolsonaro, avisando que um afastamento do mercado chinês pode afetar negativamente a economia brasileira. “Virar as costas à China, que uma vez Bolsonaro descreveu como um parceiro excepcional, pode servir a algum propósito político específico. Mas o custo econômico pode ser pesado para a economia brasileira, que acaba de sair de sua pior recessão na história”, alertou editorial publicado pelo jornal estatal chinês, o China Daily. O texto ainda admite que há dúvidas sobre o futuro do relacionamento entre os dois países e afirma que esta é uma “questão pertinente” porque “Bolsonaro é retratado por alguns como um ‘Trump Tropical’”.

“Com Jair Bolsonaro, presidente eleito do Brasil, prometendo mudanças radicais nas políticas interna e externa do país, tem havido alguma especulação sobre as perspectivas das relações China-Brasil. E não apenas as empresas chinesas que operam no Brasil, mas também as autoridades em Pequim, perguntarão: até que ponto o próximo líder do maior país da América Latina vai romper o relacionamento China-Brasil?”, questiona o editorial do China Daily.

Mais otimista, o secretário de desenvolvimento econômico de Pernambuco, Antonio Mario, acredita que não se chegará a esse extremo. “Brasil e China dependem um do outro. O Brasil ajudou a alimentar o crescimento chinês e a China ajudou o brasileiro. Em 2017, por exemplo, a China comprou quase o dobro do que os EUA importaram do Brasil. Então, enquanto presidente eleito, Bolsonaro vai ter que mudar o discurso de candidato e manter as relações comerciais do Brasil, sobretudo com a China, que é nosso maior parceiro comercial”, defendeu o secretário. “Além disso, a China é profissional e madura no comércio exterior. Portanto, não deve se deixar levar por retaliações a terceiros. Essa questão deve ser resolvida entre os Estados Unidos e a China”, acrescentou o assessor da presidência da Federação das Indústrias de Pernambuco (Fiepe), Maurício Laranjeira.

Eles esperam, então, que o Governo Bolsonaro cumpra seu plano inicial de abertura comercial do Brasil. “O importante é procurar novos parceiros econômicos e chegar a novos mercados, criando acordos comerciais e também respeitando os já existentes”, afirmou Laranjeira.

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