Crianças mostram interesse por carros no Salão do Automóvel de São Paulo
Crianças mostram interesse por carros no Salão do Automóvel de São PauloFoto: Divulgação

Ter um carro é um dos grandes desejos de Ana Flávia. Apesar de ainda não saber dirigir e ser usuária frequente do transporte público e dos aplicativos de mobilidade, a estudante de 20 anos acredita que seria melhor ter um carro na garagem porque isso lhe daria segurança e autonomia na hora de se locomover. Por isso, planeja tirar a habilitação e comprar um veículo nos próximos cinco anos. E ela não é a única jovem a querer financiar um automóvel no Brasil.

Pesquisa encomendada pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) à consultoria Spry revela que a maior parte dos brasileiros ainda quer ter um carro. E esse anseio é maior entre os mais jovens: 70% da Geração Z, que tem menos de 25 anos de idade, têm essa pretensão - número que, para a indústria automotiva, mostra que o carro vai sobreviver às novas tecnologias e às novas gerações.

“Para nossa surpresa, a geração mais nova é a que mais deseja tirar a licença para dirigir e comprar um carro. Se não tem é por questão de conveniência, como o preço. Então, não é verdade que as pessoas estão se afastando dos veículos”, afirmou o presidente da Anfavea, Antonio Megale, ao divulgar, com ânimo, os resultados da pesquisa no Salão do Automóvel de São Paulo, que levou mais de 700 mil pessoas ao Expo São Paulo nos últimos dias.

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Na ocasião, Megale explicou que fez o estudo para entender como a próxima geração de consumidores enxerga o mercado automotivo e, assim, poder adaptar o setor para os próximos tempos. “É comum vermos análises sobre a transformação da indústria automobilística, principalmente sobre o desejo de possuir ou apenas utilizar um automóvel. Contudo, sentíamos falta de ver estas afirmações em números. A pesquisa tem este objetivo: apresentar dados sobre a relação das pessoas com a mobilidade, inclusive para direcionar algumas ações da indústria”, explicou o presidente da Anfavea, que não poderia receber números melhores da Spry.

Depois de ouvir 1.789 pessoas de quatro gerações diferentes em 11 capitais brasileiras - inclusive o Recife -, a consultoria percebeu que o desejo de ter um veículo segue forte entre os brasileiros, independentemente da idade. “O carro continua sendo o meio de transporte preferido de todas as gerações. Por isso, mesmo quem não tem carro ou carteira pretende comprar um. Na Geração Z, mais de 70% pretende ter um automóvel e mais de 90% pretende tirar a Carteira Nacional de Habilitação (CNH)”, revelou o sócio da Spry, Pedro Fachinni.

Ele explicou que, apesar de usar menos o automóvel do que os pais e os irmãos mais velhos, devido à maior aceitação de outros meios de transporte como bicicleta, transporte público e aplicativos de transporte, o jovem brasileiro ainda tem o automóvel particular como meio de transporte preferido. Na Geração Z, por exemplo, a preferência é de 40% - nível similar aos 41% da Geração Y (de 26 a 35 anos), 42% da Geração X (de 36 a 55 anos) e 38% dos Baby Boomers (56 anos ou mais). “As razões da preferência também são semelhantes: conforto, comodidade e rapidez, além de segurança no caso das mulheres. O que muda é o sentimento de posse, pois os carros não têm mais o status de antigamente e muitos jovens também consideram como seu o carro da família”, contou Fachinni.

Já os aplicativos de transporte como Uber e 99, que para muitos colocam em xeque a ideia do carro próprio, são os preferidos de apenas 19% da Geração Z, mais jovem e mais adepta a novas tecnologias como esta. “Além disso, as pessoas utilizam os aplicativos com uma frequência menor. São poucos os que utilizam esse serviço no dia a dia. Então, eles não são substitutos do carro. Para a grande maioria, é só um meio de transporte para situações específicas”, acrescentou Facchini.

É por isso que, para a maioria dos entrevistados pela Spry, o carro continuará sendo o principal meio de transporte no futuro - na Geração Z, esse índice é de 66%. No geral, só 30% acreditam que o carro será um meio alternativo de transporte daqui a alguns anos. E apenas 3% disseram que o carro pode ser substituído por transportes mais eficientes. Há controvérsias, no entanto, sobre a forma como os veículos serão majoritariamente utilizados no futuro. “Para 32% das pessoas, o carro continuará como o principal meio de transporte, seja como é hoje ou se reinventando. Já 34% acham que o carro será o principal meio de transporte, mas por meio de aplicativo”, pontuou o sócio da Spry.

“O fato é que o desejo de ter um carro continua vivo e deve continuar por muito tempo”, analisou Megale. Otimista, ela ainda indicou que esses e os outros resultados do mercado nacional dão fôlego para investimentos no setor, que já responde por 4% do Produto Interno Bruto (PIB) e a 12% da arrecadação do Brasil. Em Pernambuco, o setor gera 13,6 mil empregos por conta da Fábrica da Jeep.“Temos tido um número bom de vendas. Já foram emplacados 254 mil veículos neste ano. Por isso, devemos crescer mais de 13% neste ano. E, para o próximo ano, também apostamos em um crescimento de pelo menos 10%. Podemos, portanto, voltar ao patamar de produção superior a três milhões de unidades”, detalhou o presidente da Anfavea, que ainda celebrou, nos últimos dias, a aprovação do novo programa tributário do setor, o Rota 2030.

Carro elétrico é tendência
Carro elétrico é tendência - Crédito: Divulgação

Indústria se reinventa com modelos elétricos
Manter o posto de meio de transporte preferido dos brasileiros não tira dos automóveis a responsabilidade de se atualizar. A própria pesquisa da Anfavea mostra isso: 14% dos consumidores acreditam que o carro vai se reinventar, seja por meio da energia renovável (23%) ou das tecnologias autônomas (18%), para continuar sendo o principal meio de transporte do País. E não é para menos: em todo o mundo, os carros têm adotado cada vez mais soluções sustentáveis e tecnológicas. Por isso, a indústria automotiva está trabalhando para adaptar essas tendências ao mercado brasileiro. E muitas dessas novidades foram apresentadas no Salão do Automóvel de São Paulo, que marcou o lançamento de vários carros híbridos e elétricos no País. 


“A eletrificação é uma tendência irreversível no mundo. E essa tecnologia também virá para o Brasil”, garantiu o presidente da Anfavea, Antonio Megale. Por eliminarem o motor a combustão, os carros elétricos reduzem a emissão de gases do efeito estufa e já têm prazo para substituir os carros comuns em alguns países da Europa. No Brasil, porém, estão chegando agora. Chevrolet, Nissan e Renault lançaram carros 100% elétricos no Salão do Automóvel. São o Bolt EV, o Leaf e o Zoe - veículos que chegam às concessionárias até o primeiro semestre de 2019 com preços que vão de R$ 149 mil a R$ 178 mil.

Outras montadoras, porém, optaram por lançar carros híbridos, que combinam o motor a combustão a um motor elétrico, antes dos totalmente elétricos. A Volkswagen, por exemplo, anunciou a vinda do Golf GTE em 2019. E a Lexus revelou que vai levar a tecnologia para todo os seus veículos em menos de um ano. “A partir do próximo ano, não haverá mais nenhum carro a combustão nas nossas lojas. Seremos a primeira marca do mundo com uma gama exclusivamente híbrida” anunciou o presidente da Lexus Brasil, Rafael Chang, lembrando que a Toyota também está trabalhando nessa tecnologia.

O plano da Toyota, porém, é lançar um híbrido de essência brasileira. A montadora quer combinar o motor elétrico com um movido a etanol, já que os híbridos costumam aceitar gasolina. E a ideia está sendo testada no Prius. “A tecnologia híbrida tem implantação mais fácil, pois não precisa de tanta infraestrutura quanto a elétrica. E o etanol, além de ser o principal combustível do Brasil, é mais limpo que a gasolina. Por isso, acreditamos que é a melhor solução para o mercado local”, explicou Chang. “Temos neutralidade na emissão de CO² em todo o ciclo do etanol. É o programa de energia renovável de maior sucesso do mundo. E agora ainda temos o Renovabio trazendo mais vantagem para os biocombustíveis. Devemos apostar no etanol”, disse Megale.

Presidente da Nissan, Marco Silva reconheceu que os elétricos têm um desafio de infraestrutura pela frente, já que necessitam de pontos de carregamento residenciais e comerciais. Mas garantiu que, mesmo assim, há espaço para esse tipo de veículo no Brasil.

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