Final do Mundial de League of Legends 2018, em Incheon, Coreia do Sul
Final do Mundial de League of Legends 2018, em Incheon, Coreia do SulFoto: Riot Games/Divulgação

Virou um hábito comum chegar do trabalho ou da escola, ligar o videogame e o computador para se divertir, jogando um jogo do momento, ou até aquele de sua preferência. Mas o que antes era um hobby hoje torna-se uma grande oportunidade de mercado, de ganhar dinheiro. A “brincadeira” ficou séria. Além de movimentar milhões de pessoas, os esportes eletrônicos (eSports) também começaram a movimentar grandes recursos financeiros. O setor, inclusive, deve faturar mais de US$ 1 bilhão em 2019. A previsão é que, em 2022, gerem US$ 1,8 bilhão (cerca de R$ 6,7 bilhões) ao ano, de acordo com a Newzoo, consultoria da área. Parte desta fatia vai para quem produz o conteúdo, e esta área especificamente começa a entrar em metamorfose. Buscando um melhor aproveitamento e preparação, os principais atores deste cenário caminham para uma nova direção: a especialização para quem produz conteúdo.

Você pode até não ter ouvido falar de YoDa, Rakin, Jukes ou de outros nomes que são fenômenos de sites como Twitch e Facebook Gaming, mas eles estão cada vez mais presentes no cotidiano dos mais jovens através das streams (transmissões simultâneas de jogos). Estrelas espontâneas que, ao transmitir uma “gameplay” de seus níveis nos jogos, além de interagirem pelo chat, cativaram público e motivaram gerações. Agora, a busca é por novos influenciadores e produtores de conteúdo de maneira mais profissional e remunerada, mostrando também um caminho que pode ser trilhado.

Um projeto pioneiro que ajuda a seguir este caminho é a Live Arena, que oferece cursos para quem quer ser jogador profissional, streamer e cosplayer. Sócio da nøline, empresa especializada, e idealizador da Live Arena, Rodrigo Rivellino aponta o crescimento do setor. “Estamos falando de um mercado que tem movimentado bilhões nos últimos anos. Mas não só isso. O principal é que o game virou um movimento sócio-cultural global, que está crescendo, se profissionalizando, e por isso as perspectivas são boas”, explica.

Nos cursos oferecidos, alunos têm a possibilidade de acompanhar conteúdos exclusivos que exploram as dinâmicas comportamentais e técnicas aplicadas no dia a dia dessas profissões. “Precisamos preparar os jovens para mudanças, desafios, para aprender a perder e ganhar e se superar. Os games promovem isso. Se prepararmos esses jovens para mudanças em um mundo globalizado e veloz, desenvolverão habilidades e competências, e assim poderão ver o mundo de maneira diferente”, diz a a empresária, escritora e educadora, Adriana Noronha, que participou da elaboração dos conteúdos didáticos.

Com larga experiência no cenário profissional de League of Legends e um dos streamers mais bem sucedidos do Brasil (mais de 1,3 milhão de inscritos em seu canal na Twitch), Felipe “YoDa” Noronha também é influência para quem está tentando alcançar as prateleiras maiores no mercado. “Não só podemos, mas precisamos formar novos pro players, narradores, comentaristas, streamers, criadores de conteúdo, enfim, diversas outras profissões que compõem este mundo profissional. O mercado está crescendo e, em determinado momento, também precisará se renovar”, explica YoDa, que também auxilia na elaboração de conteúdo para o curso.

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Um dos exemplos de quem já está começando a trilhar o caminho é o streamer e jogador de League of Legends Igor “NoWa” Martins, que participou de cursos de imersão e na modalidade EAD. Ele conta que melhorou de nível no jogo após os cursos. “Eu estou subindo o elo aos poucos, mas meu foco é totalmente competitivo”, diz. “Eu quero ser um profissional, porém eu tenho que superar a barreira da idade também. Fiz 25 anos ontem e os profissionais que sigo se aposentam aos 23 então assim é algo em que vou me arriscar, mas que quero muito”, afirma. NoWa saiu do Prata, uma das classes mais baixas do League of Legends, para o Ouro, classe mais acima. Além disso, ele participa de uma equipe em Brasília, onde aplica os aprendizados.

NoWa também está inserido no fenômeno no Brasil. Segundo a última pesquisa da Newzoo, o País registrou crescimento de 20% em sua audiência de eSports em relação ao ano anterior, e chegou a 2019 com 21,2 milhões de fãs. Este total é dividido em 12 milhões de ocasionais e 9,2 milhões de entusiastas (aqueles que acompanham regularmente), o que coloca o Brasil com a terceira maior torcida do mundo, atrás da China e dos Estados Unidos. No País, o League of Legends segue como principal modalidade nos eSports. O fenômeno mundial, lançado em 2009 pela Riot Games, chega a cada ano com números mais impressionantes, e talvez isso explique a paixão dos brasileiros. O Mundial de LoL de 2018, realizado na Coreia do Sul, registrou recorde de 99,6 milhões de espectadores pelo mundo nas transmissões oficiais da Riot Games durante o jogo da final entre a Invictus Gaming e a Fnatic. E é no famoso “LoL” onde estão alguns dos ídolos da atual geração gamer aqui no País.

Além das streams da modalidade, que movimentam diariamente cerca de 120 mil pessoas na Twitch, existem os já conhecidos jogadores profissionais (pro players), que atuam nos principais campeonatos pelo mundo, recebendo salários e contratos de patrocínio, da mesma maneira que um jogador de futebol. Atualmente, os jogadores profissionais de LoL no Brasil, que disputam o Campeonato Brasileiro de League of Legends (CBLoL), são cobertos pela Lei Pelé, tendo direito a salário, multa rescisória entre outros direitos concedidos a desportistas pelo País.

“Sparda” conquista seu espaço no mercado

Os números mostram que o streaming de jogos acaba sendo uma boa ferramenta para entreter, e também uma alternativa para ganhar dinheiro. Um caso de sucesso está em Pernambuco. Roberto “Sparda” Nascimento, 19 anos, começou a “streamar” dois anos atrás, na Twitch, para arrecadar fundos para o tratamento da irmã de oito anos de idade, que possui Síndrome de Guillain-Barré e Mielite aguda. Após grande apoio da comunidade, ele foi contratado pela Red Canids, organização de eSports brasileira com sede em São Paulo.

De seu quarto, em Jaboatão dos Guararapes, ele chegou a ter 6 mil visualizadores simultâneos, atraindo a atenção de grandes nomes do cenário como Gabriel “FalleN” Toledo, Rafael “Rakin” Knittel e Alan “Alanzoka” Ferreira. Com contrato com a Facebook Gaming, outra plataforma de stream, Sparda recebe o equivalente a quase R$ 4 mil. A rotina, porém, é exaustiva, chegando a 12 horas de transmissão diárias.

Antes, na Twitch, por não ter um contrato com a plataforma, Sparda recebia apenas as doações (donates). “Não tinha renda fixa. Agora, no fim do mês tem aquele dinheiro fixo”, explica.

Além da renda, a contratação de Sparda o aproximou de ídolos na própria organização. “Foi um negócio surreal, tanto que quando estava na gaming house no primeiro dia eu não conseguia nem abrir a boca. Acabei me sentindo em casa, todo mundo me tratou super bem”, explica ele, que se divide entre as streams no Recife e algumas em São Paulo.

Sparda está inserido em um fenômeno global. Em 2018, a Twitch constatou o aumento no número de usuários ativos mensalmente. Foram mais de 3 milhões, com cerca de 500 mil fazendo transmissões diariamente. A audiência da plataforma também subiu para mais de 1 milhão de pessoas conectadas. Em 2017, a Twitch teve 2 milhões de streamers mensais ativos e 355 bilhões de minutos totais assistidos. Mas apesar do mercado ser favorável, existem incertezas. “Não tem uma fórmula do sucesso. Mas se é o que você quer, não pare. Você tem que correr atrás”, diz Sparda.

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