Dona Tereza Mendes, presidente da ONG Cepec
Dona Tereza Mendes, presidente da ONG CepecFoto: Arthur de Souza/ Folha de Pernambuco

“São 4.900 famílias cadastradas que recebem assistência social de diversas formas. E um ponto muito delicado é que muitas pessoas, principalmente crianças, chegam até nosso centro sentindo uma dor. Quando conseguimos identificar, descobrimos muitas vezes que é fome. Elas não têm alimentação dentro de casa. Mas tudo melhorou para o centro depois que começamos a receber doação de alimentos”. Esse é o depoimento de dona Tereza Mendes, presidente do Centro Poliesportivo Comunitário de Barra de Jangada (Cepec), ONG que promove assistência de educação, lazer e ação social a pessoas de várias idades.

E a perspectiva de um melhor amparo para os assistidos foi possível depois que o Cepec passou a receber a cada 15 dias doações de alimentos do Sesc, através do programa Mesa Brasil. Isso demonstra que o consumo consciente, mais que um conceito, pode mudar a realidade de muitas pessoas. Dados da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) apontam que, no mundo, a cada ano se perde aproximadamente 1,3 bilhão de toneladas de alimentos. Isso representa mais de 30% de toda a produção mundial de alimentos para consumo humano. Ainda segundo a FAO, todos esses produtos seriam mais do que suficientes para alimentar 821 milhões de pessoas que ainda passam fome no mundo.

Consumir conscientemente resulta em resultados positivos ambientais, sociais e econômicos. Quando o consumidor adquire produtos da região onde habita, gera renda para os produtores, circulando a economia na localidade. Além disso, é importante saber a origem do alimento para fazer escolhas adequadas para a saúde.

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O Banco de Alimentos do Sesc é um exemplo de saber aproveitar totalmente o alimento e não gerar desperdício. Cerca de 600 empresas são cadastradas para doar alimentos, como redes de supermercados, indústrias e comerciantes do Ceasa. O Sesc arrecada esses alimentos e distribui para mais de 400 instituições sociais, como abrigos, creches e hospitais. “Todos aqueles alimentos que perderam o valor comercial, continuam tendo grande valor nutricional. Nós recebemos essa doação, que passa por um controle de qualidade, para observar se não estão amassados, estufados ou com fungos, e depois separamos para realizar as doações”, explicou a nutricionista do Banco de Alimentos, Ely Chaves.

Pelo programa, o Sesc consegue atender 130 mil pessoas em Pernambuco. Apenas este ano, no Estado, foram doados 642,3 mil quilos de alimentos que seriam desperdiçados, entre eles raízes, frutas, legumes e derivados do leite. Além disso, a cada dois meses, o Sesc ministra aulas com um representante de cada instituição recebedora para ensinar como aproveitar totalmente o alimento. “Saber aproveitar cascas e sementes, além de fazer um cardápio diversificado, consegue economizar porque o alimento vai render mais. Então, ensinamos como os alimentos podem virar farinha, sucos e polpas”, disse Ely.

Empresa que vende um produto que tem impacto positivo no meio ambiente e em espaços sociais, a Nespresso estimula o consumo consciente. A empresa que comercializa café tem um programa para acompanhar o processo de produção do grão. Mas não só isso. As cápsulas de cafés são reaproveitadas.

“Temos pontos de coleta em mais de 15 cidades do Brasil onde o consumidor pode entregar as cápsulas. O material de alumínio é levado para o centro de reciclagem em São Paulo para ser fundido e reaproveitado. E o restante do pó do café que resta na cápsula é encaminhado para uma empresa que transforma em adubo”, explicou a coordenadora de Sustentabilidade da Nespresso Brasil, Lisa Lieberbaum. No Recife, existe um ponto de coleta no RioMar Shopping. A Nespresso investe, no Brasil, R$ 5 milhões na reciclagem por ano.

Orgânicos

O consumo consciente, além de agredir menos o meio ambiente, apresenta remuneração justa para o produtor e preço justo para o consumidor. E isso é o que acontece nas feiras orgânicas. “Consumir é um ato político, ou seja, o consumidor precisa tomar consciência do processo produtivo para fazer suas escolhas. Além disso, mudança de hábito faz parte desse processo”, explicou Davi Fantuzzi, assessor de mercado do Centro Sabiá, ONG que assessora famílias produtoras de orgânicos.

Empresas tentam reduzir desperdício

Reduzir o desperdício de alimentos em locais como bares, restaurantes e supermercados é uma forma eficiente de economizar dinheiro e ajudar o meio ambiente. Isso é fato. Diante de um mundo com gente que passa dificuldades sem ter o que comer, cada pedacinho de comida que pode ser melhor aproveitado, ao invés de ser descartado, é razão para aplausos. No Brasil, onde vivem mais de 200 milhões de pessoas, 2,5% da população, ou seja, 5,2 milhões passaram fome em 2017, apontou o relatório da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO).

Do total de alimentos desperdiçados, 15% ocorreram em restaurantes, algo em torno de 6 mil toneladas, de acordo com cálculos da World Resourses Institute (WRI) Brasil. Além disso, aproximadamente 30% de tudo que é produzido acaba sendo perdido e resulta num prejuízo de aproximadamente R$ 3 trilhões, como mostra o mesmo relatório da FAO.

Segundo o presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes em Pernambuco (Abrasel-PE), Eduardo Salazar, a instituição trabalha na construção de conteúdos para orientar os seus associados a evitarem o desperdício. "Incentivamos os estabelecimentos a utilizarem boas gestões para eliminarem ao máximo a quantidade de comida jogada fora, com o uso técnicas de reaproveitamento que contribuem para formação de um consumo mais consciente", detalha. "Além disso, os locais já sabem a quantidade de comida para preparar, evitando assim o desperdício causado pela abundância", completa.

Em números absolutos, uma pesquisa da Associação Brasileira de Supermercados (Abras) apontou que apenas no setor supermercadista as perdas somaram R$ 6,4 bilhões do faturamento total do setor em 2018. "A Avaliação de Perdas é a principal fonte de informação do setor. Somente com a identificação do que está dando errado é que podemos elaborar ações bem sucedidas, para prevenir as perdas", destaca o presidente da Abras, João Sanzovo Neto.

Sendo assim, iniciativas de reaproveitamento ou uso total do alimento podem contribuir nesse caminho mais sustentável. É o caso do supermercado Carrefour, que vende produtos esteticamente diferentes com descontos para os consumidores, o que evita que os alimentos considerados "feios" sejam jogados no lixo.

Dona Tereza Mendes, presidente da ONG Cepec
Dona Tereza Mendes, presidente da ONG CepecFoto: Arthur de Souza/ Folha de Pernambuco
Ely Chaves, nutricionista do Banco de Alimentos do Sesc
Ely Chaves, nutricionista do Banco de Alimentos do SescFoto: Arthur de Souza/ Folha de Pernambuco
Lisa Lieberbaum, coordenadora de sustentabilidade da Nespresso Brasil
Lisa Lieberbaum, coordenadora de sustentabilidade da Nespresso BrasilFoto: Paullo Allmeida/ Folha de Pernambuco
Produto orgânico
Produto orgânicoFoto: Ed Machado/ Folha de Pernambuco

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