Inteligência artificial

Empresa russa demite 150 funcionários em decisão tomada por algoritmo

Teor frio da mensagem enviada aos funcionários de escritórios em Moscou e Perm também chamou atenção

Tela de notebook mostra imagemTela de notebook mostra imagem - Foto: Markus Spiske/Pixabay

Como você reagiria se fosse demitido da empresa para a qual trabalha por e-mail? E se a decisão de lhe mandar embora tivesse sido tomada por um algoritmo? Pode até parecer enredo de filme de ficção científica, mas foi isso que aconteceu com 150 dos 500 funcionários da empresa russa de software Xsolla, especializada em soluções de processamento de pagamento para a indústria dos jogos online. 

O caso aconteceu em agosto deste ano e, como se não bastasse a demissão por big data, o teor frio da mensagem enviada aos funcionários de escritórios em Moscou e Perm também chamou atenção. No texto, a empresa chamava os funcionários de “pouco comprometidos” e “improdutivos”. 

A análise feita pelo algoritmo levou em consideração o tempo que os funcionários usavam durante o trabalho para desenvolver atividades não ligadas às suas funções na empresa. Em suma, as atividades dos funcionários foram rastreadas, especialmente durante o período de home office gerado pela pandemia.


“A equipe de big data da empresa analisou a sua atividade em Jira, Confluence, Gmail, chats, documentos e painéis e te marcou como empregado pouco comprometido e improdutivo. Em outras palavras, nem sempre você estava presente no lugar de trabalho quando o fazia de forma remota”, diz um trecho do e-mail assinado pelo CEO e fundador da empresa, Aleksandr Agapitov, e enviado aos demitidos. 

“Muitos de vocês podem estar surpresos, mas realmente acredito que Xsolla não é para vocês”, acrescentou o CEO no e-mail. A carta continua sinalizando que a empresa se associou a várias agências de Recursos Humanos para ajudar os funcionários a “encontrar um bom lugar onde possa ganhar mais e trabalhar ainda menos”. 

Após as demissões, Agapitov concedeu uma entrevista na qual explicou que a decisão foi tomada porque a empresa teria parado de crescer em torno de 40%. “Às vezes, é preciso tomar medidas difíceis e impopulares para continuar a crescer e a evoluir”, disse o CEO ao site App2Top.ru. 

Apesar da decisão ter sido tomada por causa da queda no rendimento da Xsolla, a Forbes Rússia chamou atenção que nenhuma das pessoas demitidas era alguém que ocupava um alto cargo dentro da empresa. 

Agapitov ainda declarou que não concordava com todas as demissões, mas era obrigado a seguir por causa dos protocolos internos pactuados com acionistas da empresa.

Em 2019, nos Estados Unidos, um sistema de inteligência artificial parecido utilizado pela Amazon foi denunciado por funcionários. Segundo contou o Bloomberg na ocasião, a empresa do multimilionário Jeff Bezos usava os dados para contratar, avaliar e despedir funcionários sem que um único ser humano entrasse em contato com eles em algum momento do processo.

Essas posturas de Xsolla e Amazon podem marcar uma mudança de paradigmas de como se vê o mercado de trabalho através das empresas tecnológicas, mas não necessariamente essa alteração pode ser benéfica. Para a professora de Recursos Humanos do Centro Universitário UniFBV Wyden Carolina Franca, essa tendência de demissão por algoritmo é contrária ao que se trabalha na área.

“A tendência é exatamente o inverso, sob o aspecto de que as pessoas fazem diferença. Não é porque eu pego um algoritmo, faço um levantamento estatístico e, a partir daí, tomo decisões que isso indica que a pessoa é necessariamente descompromissada”, afirmou a professora. 

Ela acrescenta que, com a pandemia de Covid-19, um novo olhar se lançou para os vínculos empregatícios. “Se buscam vínculos que tragam os profissionais de volta e não só dizer que está com produtividade baixa e ‘jogar fora’. Quanto mais eu trabalho essa relação com o funcionário mais há retorno”, completou Carolina. 

Por fim, a profissional aponta que antes de uma decisão de demissão como a que foi feita, a empresa poderia ouvir os funcionários incluídos na“lista de improdutividade. “Por que não saber o que está acontecendo antes de fazer esse movimento? Cada vez que a empresa abre espaço para ouvir, a resposta é agregadora”, finalizou.
 

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