Estudo da Sudene aponta ganho social de R$ 4,76 bilhões com trecho pernambucano da Transnordestina
Em documento apresentado à Fiepe, conclui-se que a retomada das obras do ramal Salgueiro-Suape é socioeconomicamente viável e propõe modelo de governança para destravar o projeto
A conclusão do ramal Salgueiro-Suape da Transnordestina pode gerar um ganho social estimado de R$ 4,76 bilhões. É o que garante um estudo técnico sobre o trecho da ferrovia em Pernambuco concebido pela Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) e apresentado, nesta terça-feira (7), à Federação das Indústrias do Estado de Pernambuco (Fiepe).
O documento reúne, ainda, análises sobre a viabilidade socioeconômica da obra e propõe um modelo de governança para fortalecer a coordenação entre os órgãos envolvidos na implantação do projeto.
O estudo foi elaborado para subsidiar tecnicamente a manifestação da Sudene junto ao Tribunal de Contas da União (TCU), em cumprimento ao Acórdão nº 1.217/2026, que condicionou a contratação de novos compromissos financeiros para o empreendimento à comprovação de sua pertinência e vantajosidade socioeconômica. Durante a reunião, foi informado que o tribunal deverá apresentar um novo posicionamento sobre o processo no próximo dia 15.
Segundo o superintendente da Sudene, Francisco Alexandre, o levantamento demonstra que, do ponto de vista do interesse público, a conclusão da ferrovia é vantajosa. "O estudo mostra que faz sentido o governo federal construir a Transnordestina no trecho Salgueiro-Suape. Estamos falando de um resultado social positivo de R$ 4,76 bilhões, o que demonstra que o investimento traz retorno para toda a região", afirmou.
De acordo com Alexandre, o documento já foi encaminhado à Infra S.A. e será entregue aos ministros do TCU antes da nova análise do processo. "Queremos que esse estudo seja considerado como elemento técnico para a tomada de decisão", disse.
O levantamento também projeta a geração de aproximadamente 13 mil empregos durante a fase de construção e outros 10 mil postos de trabalho após a conclusão da ferrovia. A expectativa é que mais de 200 municípios nordestinos sejam impactados pelos efeitos econômicos do empreendimento.
O estudo também estima um potencial inicial de movimentação de 16 milhões de toneladas de cargas, podendo alcançar 24 milhões de toneladas ao longo de 30 anos. As projeções, segundo a Sudene, foram elaboradas com premissas conservadoras, considerando um volume de seis milhões de toneladas apenas nos primeiros anos de operação.
Imbróglio
O TCU, que apontou três problemas centrais: ausência de comprovação da vantajosidade socioeconômica do empreendimento, fragilidades na governança do projeto e falta de justificativa técnica para priorizar o eixo pernambucano.
Enquanto a consultoria McKinsey, em análise realizada em 2021, examinou o projeto sob uma perspectiva estritamente privada e voltada à exportação - apontando um déficit de R$ 2,5 bilhões no Valor Presente Líquido (VPL) -, a nova análise utiliza o Valor Social Presente Líquido (VSPL), metodologia adotada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) para avaliação de investimentos públicos.
Com esse critério, que incorpora benefícios como geração de empregos, redução dos custos logísticos e impactos econômicos indiretos, o empreendimento passa a apresentar um superávit de R$ 4,76 bilhões, com taxa interna de retorno de 15,53%.
Para o presidente da Fiepe, Bruno Veloso, a conclusão da ferrovia deverá reduzir significativamente os custos logísticos da indústria pernambucana. Segundo ele, setores como o polo gesseiro do Araripe, a cadeia de proteína animal e a indústria de baterias estão entre os principais beneficiados, além de ampliar a competitividade do Porto de Suape.
"O transporte ferroviário reduz custos e aumenta a competitividade das empresas. A Transnordestina permitirá que produtos cheguem ao Porto de Suape de forma mais eficiente, favorecendo tanto o mercado interno quanto as exportações", afirmou.
Para responder à exigência de melhor governança feita pelo TCU, a Sudene propôs a criação de uma Câmara de Conciliação Interinstitucional, sob sua própria coordenação, com o papel de destravar entraves socioambientais e fundiários e gerir os recursos do Fundo de Desenvolvimento do Nordeste (FDNE).
Autoridades
O senador Humberto Costa defendeu a manutenção de uma frente suprapartidária em favor da conclusão da Transnordestina e afirmou que o momento é decisivo para o futuro do trecho pernambucano. Para o parlamentar, a liberação das obras poderá abrir caminho para a atração de novos investidores privados e reduzir a dependência exclusiva de recursos federais.
"No momento em que os primeiros passos forem dados, surgirão interessados em participar do projeto, inclusive investidores brasileiros e estrangeiros", afirmou. Costa também criticou a decisão do TCU de suspender novos compromissos financeiros para o empreendimento, classificando-a como equivocada.
Na mesma linha, o deputado estadual João Paulo Lima, presidente da Frente Parlamentar da Transnordestina na Assembleia Legislativa de Pernambuco, defendeu uma mobilização envolvendo governos, setor produtivo, prefeitos e entidades da sociedade civil para fortalecer a articulação política em torno da ferrovia. Segundo ele, o estudo elaborado pela Sudene representa um novo momento na defesa do empreendimento e reforça a viabilidade da retomada das obras.
Representando o diretor-presidente do Complexo Industrial Portuário de Suape, Armando Monteiro Bisneto, o diretor de Relações Institucionais e Governamentais, José Humberto Cavalcanti, afirmou que a integração ferroviária ampliará a competitividade do porto. “A conexão com a Transnordestina permitirá um novo salto na movimentação de cargas e na competitividade do porto”, disse.
Na avaliação do consultor e sócio-fundador da TGI Consultoria, Francisco Cunha, os estudos apresentados pela Fiepe e pela Sudene respondem às exigências feitas pelo Tribunal de Contas da União e reforçam os argumentos para a retomada das obras. Para ele, a prioridade agora deve ser garantir a continuidade do empreendimento, dentro da legalidade, sem novos entraves ao projeto.

