EUA têm dúvida se é melhor negociar comércio só com Brasil ou Mercosul, diz Araújo

O governo brasileiro avalia que, se envolver tarifas, o acordo com os americanos precisa ocorrer em conjunto com o Mercosul

Ministro das Relações Exteriores, Ernesto AraújoMinistro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo - Foto: Arthur Max/MRE

Após reunião de uma hora nesta quinta-feira (12) na sede do USTR, representante para o comércio internacional dos Estados Unidos, o ministro Ernesto Araújo (Relações Exteriores) disse que o governo Donald Trump ainda tem dúvidas sobre o formato do acordo comercial que pretende firmar com o Brasil.

Segundo o chanceler, os EUA não sabem se é mais vantajoso negociar com o país individualmente ou dentro do bloco do Mercosul e que, até esse escopo ser definido, medidas de facilitação de comércio -que não envolvem necessariamente tarifas- serão anunciadas.

"Reafirmamos nossa convicção de que queremos ter uma negociação e o formato, o próprio EUA têm às vezes dúvidas sobre se é melhor negociar como união aduaneira ou como países individuais. Isso não está fechado", afirmou Araújo após encontro com Robert Lighthizer, que comanda o USTR.

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O governo brasileiro avalia que, se envolver tarifas, o acordo com os americanos precisa ocorrer em conjunto com o Mercosul, já que o Brasil faz parte da união aduaneira. Araújo afirmou que o país seguirá as regras, mas que o bloco sul-americano já indicou que poderá flexibilizá-las conforme cada caso.

"Queremos algum tipo de acordo onde tenha o Brasil. Se for Mercosul, de toda forma será, em parte, o Brasil. No momento, continuamos com a regra do Mercosul, de negociação em conjunto, mas também uma regra que, dentro do próprio Mercosul se falou que pode ser flexibilizada."

Conforme publicou o jornal Folha de S.Paulo, o acordo comercial entre Brasil e EUA não vai incluir a eliminação total das tarifas e a viagem da comitiva brasileira a Washington nesta semana serviu para, entre outros temas, discutir medidas de facilitação de negócios, movimento considerado um passo anterior à abertura formal das negociações de um acordo comercial mais abrangentes entre os países.

A avaliação é que a boa sinergia entre Jair Bolsonaro e Trump não será suficiente para romper barreiras históricas.

O ministro admitiu que há temas "contenciosos" na relação comercial dos países -depois disse que essa não seria a melhor palavra para definir o cenário-, como no caso do aço e da carne, e afirmou que a dificuldade de se fechar o escopo do acordo de comércio se reflete na "complexidade das duas economias."

"Vamos dizer que a gente ainda não resolveu o aço, por exemplo. Onde nós estamos tentando ter mais acesso pro Brasil, já temos algum aí, foi conseguido, como a exceção às restrições americanas, queremos ter mais acesso. Nós ainda estamos com a expectativa do acesso à carne. Desde a visita presidencial aqui [Washington, em março] já acordamos que haveria a retomada do processo para a liberação da carne brasileira, ainda não está completo. Então estamos com a expectativa de completar isso."

Uma das propostas do Brasil é a suspensão de tarifas sobre produtos finalizados nos EUA cujo insumo é fornecido pelo mercado brasileiro, como é o caso do aço. A mesma regra valeria no sentido contrário -dos americanos para o território brasileiro-, com expectativa de expansão para setores da indústria de autopeças e aviação.

Ainda sem a liberação do Congresso ao USTR para dar início oficial às tratativas de um acordo -como é norma nos EUA- Araújo reforçou a possibilidade "de várias coisas serem feitas sem a necessidade dessa comunicação [do Legislativo ao órgão de comércio]."

Entre as propostas encaminhadas entre Brasil e EUA até agora está a criação de um sistema que facilitaria a entrada de mercadorias de empresas pré-aprovadas por ambos os países -cujo governo brasileiro espera fechar até o final do ano. Na mesma época, o governo Bolsonaro deve também implementar uma cota para importação de trigo -demanda antiga dos americanos.

A expectativa da comitiva brasileira era definir uma data da visita de Trump ao Brasil justamente para anunciar oficialmente o início das tratativas. Araújo disse que a agenda ainda não foi marcada, mas confirmou a ideia de levar o americano ao Brasil para novos anúncios.

"Isso é uma das coisas que eu pretendo vir falar com o secretário de Estado, Mike Pompeo, amanhã [sexta]. E isso, claro, seria um momento interessante para novos anúncios aí."

Araújo também se encontrou nesta quarta com Larry Kudlow, conselheiro econômico da Casa Branca, e com Wilbur Ross, secretário de comércio americano.

Ainda está previsto uma reunião com investidores.

Na sexta, reúne-se com Pompeo no Departamento de Estado.

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