Força feminina conquista mais espaço no campo

No Brasil, as mulheres já são responsáveis por 45% dos alimentos, de acordo com a FAO. O Censo Agropecuário divulgado pelo IBGE comprova esse crescimento. De 2006 para 2017, aumentou a participação delas na direção de estabelecimentos agropecuários

Agricultora Aurinete PereiraAgricultora Aurinete Pereira - Foto: Ed Machado/Folha de Pernambuco

Nascida e criada na roça, Maria de Lourdes da Silva é o legítimo exemplo dessa expressão popular. Desde os 3 anos de idade, começou a plantar, colher e produzir alimentos na cidade de Itaíba, no Agreste de Pernambuco. Virou agricultora com toda dedicação. Em um dado momento da vida, na juventude, casou e teve três filhos. Teve que morar no município de Jaboatão dos Guararapes, na Região Metropolitana do Recife (RMR) e, consequentemente, abandonou a vida na roça, no interior, para trabalhar na indústria. Mas não deixou de ter um cantinho em casa para a produção agrícola.

Conseguiu se aposentar. Hoje, com 63 anos, Maria de Lourdes vive com o atual marido na cidade de Lagoa do Carro, na Zona da Mata Norte de Pernambuco. Em uma área de 2 hectares, a agricultora cultiva uma infinidade de produtos: pimentas, hortelã, batata-doce, jabuticaba, amora. Deles, ela faz outros alimentos para vender, como geleia de amora e licor de pitanga. “Eu amo a natureza. Mesmo quando eu estava na indústria, eu queria voltar para a agricultura. Ver um brotar de um feijão me enche os olhos e quero passar tudo isso aos meus netos”, contou Maria de Lourdes, que aprendeu a plantar e colher com seus pais.

Empoderada, Maria de Lourdes é uma das responsáveis pela produção de alimentos no mundo. Por isso faz parte da cadeia de segurança alimentar global. Dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), braço da ONU, apontam que as mulheres representam cerca de 60% da força de trabalho agrícola em várias partes do mundo. E no Brasil não é diferente: cerca de 45% da produção de alimentos é originada por mulheres.

Além disso, as mulheres estão dirigindo mais estabelecimentos agropecuários. Essa participação subiu 12,7% (2006) para 18,7% (2017) do total de 5,056 milhões de produtores, equivalente a 946 mil mulheres. Outras 800 mil dirigem o negócio junto com o marido, segundo o Censo Agropecuário 2017, divulgado pelo IBGE.

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E se espera ainda mais avanço e valorização desse trabalho. “O protagonismo das mulheres na produção, no acesso ao mercado e à renda está em curva ascendente nos últimos 20 anos. Isso devido a um avanço conjunto de movimentos e organizações sociais e políticas de governo. Mas ainda é preciso ter muita atenção”, defendeu o diretor de Extensão Rural do Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA), Reginaldo Alves.

Segundo a coordenadora da campanha “Mulheres Rurais, Mulheres com Direitos”, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), Geise Mascarenhas, as contribuições da mulher são importantíssimas para a segurança alimentar no mundo. “Visibilizar as mulheres na segurança alimentar e na geração de renda familiar é fundamental. Para se ter uma ideia, a contribuição da mulher na renda familiar é maior no trabalho rural. Ela contribui com 42% na área rural e 40% na área urbana”, disse Geise, ao complementar que reuniões especializadas sobre a agricultura familiar são realizadas pelo Mapa com a participação da sociedade civil para poder levar propostas ao Mercosul de melhorias para o trabalho das mulheres.

E, de acordo com o Mapa, mulheres têm participação cada vez maior em cooperativas locais e associações de agricultores. O Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural Sustentável (CMDRS), que representa associações rurais do município de Pombos, na Mata Norte de Pernambuco, formou uma associação apenas com presença feminina. São 16 mulheres, capacitadas em grupo, que produzem e beneficiam alimentos, como abacaxi e acerola. Algumas dessas agricultoras são Aurinete Pereira, 42 anos, Cristiane Santos, 31 anos, e Luciene da Silva, 60 anos.

Em sua propriedade, Aurinete cultiva acerola, que vira licor, doce e geleia. Além disso, faz doces, bolos e brigadeiros da sua produção de abacaxi. Os produtos ela vende em feiras e no IPA. “Eu e as meninas do grupo aprendemos a beneficiar o alimento. Ou seja, desenvolver outros produtos e assim conseguir ganhar uma renda. Por mês eu consigo ganhar uma média de R$ 600 a R$ 800”, contou Aurinete, que sempre trabalhou na agricultura.

Apesar do trabalho, desigualdade é grande

Ser responsável por mais da metade da produção de alimentos do mundo poderia proporcionar um grande reconhecimento às mulheres. Mas a realidade é diferente. Apesar de toda a dedicação das mulheres com a segurança alimentar mundial, levantamento da FAO, braço da ONU, aponta que elas vivem em situação de desigualdade social, política e econômica. As mulheres contam com a titularidade de apenas 30% das terras, 10% dos créditos e 5% da assistência técnica, apesar do avanço apontado pelo Censo Agropecuário.

Segundo a coordenadora do “Mulheres Rurais, Mulheres com Direitos”, do Mapa, Geise Mascarenhas, muitas vezes as mulheres rurais não são reconhecidas. “Muitas mulheres são invisíveis. Se tivessem acesso aos recursos produtivos, como crédito e assistência técnica, iguais aos homens, o mundo teria 150 milhões de pessoas a menos com fome”, afirmou Geise.

Para a agricultora Luciene da Silva, o trabalho deveria ser mais valorizado porque o esforço é grande. “A mulher deve receber mais pelo seu trabalho porque é também da casa e da cozinha. Nossa força é grande”, disse Luciene.

O IPA adota o princípio de valorização de políticas para mulheres. “A mulher rural não tem autonomia da gestão. E fazemos um trabalho para ampliar essa participação. Por isso trabalhamos com o projeto Mãe Coruja para capacitação só de mulheres e com o programa Horta em Todo Canto para mostrar o protagonismo delas”, disse o diretor do IPA, Reginaldo Alves.

Em relação ao acesso à titularidade das terras e crédito, o Programa Nacional de Documentação da Trabalhadora Rural é um importante instrumento para que a mulher consiga ganhar essa força. “Muitas mulheres nem são existentes porque não têm registro como agricultoras. Para ter acesso às políticas públicas é necessário o documento e esse programa tem esse papel”, destacou Geise.

Maria de Lourdes da Silva enfrentou todas as barreiras para ser dona da sua propriedade. “Em setembro de 2011 juntei o dinheiro da aposentadoria e comprei a terra. Hoje, a propriedade está em meu nome”, disse a agricultora, que recebe assistência técnica do IPA e crédito do Banco do Nordeste. “Tirei crédito no meu nome pelo BNB para comprar mudas e plantar um espaço só de maracujá. O crédito foi de R$ 18,6 mil parcelado em cinco anos. Graças a Deus estou conseguindo pagar”, contou.

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